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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Coringa? Robin? Bat-Mirim? O que esperar da continuação de 'Batman'

Robert Pattinson vai voltar a usar o traje do "Batman" - Warner
Robert Pattinson vai voltar a usar o traje do 'Batman' Imagem: Warner
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

29/04/2022 04h00

Robert Pattinson voltará ao papel do Homem-Morcego, novamente dirigido por Matt Reeves, em uma continuação de "Batman".

Uau. Que surpresa.

O palco do anúncio "surpresa" foi a Cinema Coin, evento promovido em Las Vegas em que os estúdios apresentam suas novidades para os próximos meses aos exibidores. Nada de streaming aqui: é só cinema, baby!

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A surpresa no olhar de Robert Pattinson ao saber que "Batman" terá uma continuação
Imagem: Warner

Daí que, em meio à lista de filmes com o selo DC Comics programada para este ano e um naco de 2023, o estúdio encaixou um segundo "Batman". Um filme que já faturou mais de US$ 750 milhões de dólares. Deixa eu fingir surpresa de novo: nossa!

Que Pattinson voltaria a interpretar o super-herói já era tão certo quando a gente olhar para o Paul Rudd e dizer que ele não envelheceu nada desde "As Patricinhas de Beverly Hills". A grande questão, agora, é: que Batman dará as caras no segundo round?

A resposta óbvia seria "qualquer um". De todos os super-heróis dos quadrinhos, a criação de Bob Kane e Bill Finger traz a interpretação mais flexível.

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Adam West fez do Batman um ícone da pop art
Imagem: Warner

O Batman funciona como thriller psicológico e como comédia assumida. Tem histórias maduras e sofisticadas para o público adulto, e também contos mais leves que miram na molecada.

No cinema ele já foi de tudo um pouco. O filme que esticou a série de TV dos anos 1960 para a tela grande era uma galhofa bacana, hoje um pedaço legítimo da cultura pop.

Essa mesma série tem seu espírito satírico reproduzido (com a sutileza de uma bigorna) em "Batman & Robin", que Joel Schumacher rodou em 1997. Dois anos antes ele já fizera uma aventura psicodélica com clara inspiração nos gibis dos anos 1950: "Batman Eternamente".

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Michael Keaton na fantasia gótica 'Batman - O Retorno'
Imagem: Warner

Antes de Schumacher, Tim Burton redefiniu o "filme de super-herói" com sua visão primeiro inspirada nos quadrinhos dos anos 1940 ("Batman", de 1989), seguido das HQs super estilizadas dos anos 1990 ("Batman - O Retorno", de 1992).

Christopher Nolan foi temático em sua trilogia, usando o herói em histórias sobre medo ("Batman Begins", 2005), anarquia ("O Cavaleiro das Trevas", 2008) e totalitarismo ("O Cavaleiro das Trevas Ressurge", 2012).

Já Ben Affleck foi o Batman em uma visão deturpada de Zack Snyder sobre o que seria o Homem-Morcego em "Batman vs. Superman" e "Liga da Justiça". Visualmente ok. Todo o resto, nada ok.

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Colin Farrell, um Pinguim no estilo 'O Poderoso Chefão'
Imagem: Warner

Matt Reeves, por sua vez, fez de "Batman" uma caçada a um serial killer e uma jornada de amadurecimento, tudo no mesmo pacote sombrio. Em três horas sob a chuva, Bruce Wayne descobre os caminhos do submundo corrupto de Gotham City, desvenda o mistério da Mulher-Gato e captura o Charada.

Sua versão do Batman está estacionada entre o pseudo realismo dos filmes de Nolan e a grandeza teatral de Burton. Pessoalmente, foi a ambientação mais acertada do Morcego no cinema. O futuro, embora incerto, é ao menos sugerido.

Afinal, Barry Keoghan não surge em uma ponta como o Coringa, então residente do Asilo Arkham, ao acaso. Havia uma cena em que o Batman/Robert Pattinson interagia com o Palhaço do Crime, agora em versão mais grotesca.

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O Coringa (Barry Keoghan) em cena deletada de 'Batman'
Imagem: Warner

Revelada após o lançamento do filme, a sequência tornava o Cavaleiro das Trevas um detetive inútil e ainda bem que ficou no chão da sala de edição.

O Coringa, entretanto, é um personagem que definitivamente precisa de um descanso. Recentemente ele ganhou dois Oscar (um para Heath Ledger, outro para Joaquin Phoenix), e provou que Jared Leto, quando quer, é absurdamente irritante.

Não insistir em figurinhas repetidas foi uma ótima estratégia em "Batman Begins", que trouxe o terrorista Ra's Al Ghul. O próprio "Batman" fugiu do óbvio com novas interpretações do Charada (Paul Dano), da Mulher-Gato (Zoë Kravitz) e do Pinguim (Colin Farrell, que ganhará uma série na HBO Max para chamar de sua).

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Chris O'Donnell foi um Robin moderno em 'Batman Eternamente'
Imagem: Warner

A reintrodução do fator surpresa nesse olhar apurado de Matt Reeves faria maravilhas com um personagem fundamental na mitologia do Homem-Morcego que anda ausente da tela grande há 25 anos: Robin.

A birra com o parceiro do Batman é, vá lá, compreensível. Chris O'Donnell fez o que pode com o personagem em "Batman Eternamente", mas foi uma cápsula do tempo que envelheceu rapidinho. "Batman & Robin" sepultou de vez o Menino-Prodígio.

Ainda assim, eu não entendo o descaso com um personagem tão importante, que nos quadrinhos experimentou uma curva evolutiva das mais bacanas. Christopher Nolan primeiro ignorou sua existência por dois filmes, até trazer uma versão equivocada e com vergonha de assumir seu legado em "Ressurge". Um desperdício.

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Para Zack Snyder, o Robin era um troféu mórbido em 'Batman vs. Superman'
Imagem: Warner

Pior fez Zack Snyder, que já começa "Batman vs Superman" com Robin bem morto, seu traje surrado exibido como um troféu macabro na batcaverna. Ele sequer teve uma cena que pudesse dar um mínimo de contexto.

Quando escreveu o gibi clássico "Batman - O Cavaleiro das Trevas", que em 1986 mudou totalmente o conceito de história em quadrinhos, Frank Miller primeiro foi hesitante em incluir Robin, depois percebeu o quanto ele é essencial.

"Eu achava Robin uma bobagem da Era de Oura", disse Miller à época. "Ele seria uma muleta que tinha como única função atrair o público infantil com a figura identificável do parceiro mirim."

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A adolescente Carrie Kelly foi Robin ára um Batman lunático na HQ seminal 'O Cavaleiro das Trevas'
Imagem: DC Comics

Ao escrever sua história, porém, o artista percebeu que trazer um adolescente para sua "guerra" apenas aumentava a percepção do Batman como um psicopata tão perigoso quanto seus inimigos. Robin precisa existir para materializar a obsessão do Batman.

É um caminho que Matt Reeves desenvolveria com uma mão nas costas. Ao final de "Batman", o herói percebe que ele precisa ser mais do que a "vingança", precisa também representar esperança aos habitantes de Gotham. Coloque Robin na mistura e veja a cabeça do Morcego entrar em parafuso mais uma vez.

Agora, quer me ver acampado na fila para garantir o ingresso na primeiríssima sessão do segundo "Batman"? É só trazer para sua Gotham o Bat-Mirim, um duende da quinta dimensão que usa supertecnologia para ajudar o Cavaleiro das Trevas, seu grande ídolo.

Bat-Mirim. Mas Hollywood não está preparada para essa conversa.

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O duente interdimensional Bat-Mirim foi recuperado nos quadrinhos pelo roteirista Grant Morrison
Imagem: DC Comics