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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Eduardo & Mônica' expande a canção da Legião em comédia romântica fofa

Gabriel Leone e Alice Braga em "Eduardo & Mônica" - Paris/Downtown
Gabriel Leone e Alice Braga em 'Eduardo & Mônica' Imagem: Paris/Downtown
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

21/01/2022 02h23

Entre os termos que o cinema ianque tem para centenas de situações, um de meus favoritos é o "meet cute". É a cena em que dois personagens, aparentemente sem nada em comum, encontram-se pela primeira vez de um jeito fofo e engraçado. Não importa o que aconteça, não importa as forças que os mantenham afastados, sabemos que o filme termina com eles juntos.

É Julia Roberts entrando na livraria de Hugh Grant em "Um Lugar Chamado Notting Hill". É a longa carona de Billy Crystal e Meg Ryan em "Harry e Sally - Feitos Um Para o Outro". São todas as comédias românticas com Matthew McConaughey. Meet cute. Um encontro fofo.

É exatamente essa a definição da "festa estranha com gente esquisita" que o adolescente Eduardo (Gabriel Leone) vai se meter. Em um inferninho de Brasília, deslocado e irritado, ele bate os olhos em Mônica (Alice Braga), mais velha, mais descolada, mais tudo. Eles não têm nada a ver. Portanto, o romance ali já está, por óbvio, escrito nas estrelas.

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'Eduardo & Mônica': Ela de moto, ele de camelo (no caso, na garupa)
Imagem: Paris/Downtown

A história, por sinal, está na ponta da língua de muita gente que cresceu nos anos 1980. "Eduardo & Mônica", escrita por Renato Russo, é uma canção do segundo disco da Legião Urbana, numa época em que rock ainda aparecia em programas de auditório. Em meio a músicas que falavam sobre sexualidade, sobre juventude e sobre uma ponta de esperança em um país que acabara de deixar a ditadura militar, a história do casal improvável colou.

Não havia ali, claro, uma trama coesa com começo, meio e fim. A letra sugeria um esboço, desenhando nas lembranças de Renato sobre um casal amigo que fez parte de sua juventude em Brasília. Ainda assim, tinha dois protagonistas, uma linha narrativa e, apesar do filhinho do Eduardo em recuperação, um final feliz.

O diretor René Sampaio alinhavou os espaços em branco e, de fato, construiu uma história com arco dramático, altos e baixos e, por fim, sobre opostos que se atraem. Embora ele tenha o cuidado em amarrar seu texto com momentos ilustrados pela música da Legião, seu "Eduardo & Mônica" segue caminho próprio e se torna não uma curiosidade, mas um filme.

Um filme, diga-se, muito leve e envolvente. Grande parte, claro, pela química bacana do casal escalado para os protagonistas. Gabriel Leone exala charme juvenil, uma atitude adolescente intempestiva que, vai saber como, encaixa-se com a doçura e a determinação da personagem de Alice Braga.

O filme expande a narrativa da dupla, em especial de Mônica, que ganha família e uma perda trágica recente para justificar sua dualidade em ser estudante de medicina (sim, ela também fala alemão) e sua carreira artística. Um círculo de amizade mais extenso completa a trama, que ainda encontra espaço para discutir temas caros ao próprio Renato Russo, como (claro) sexualidade e uma juventude que tentava entender o futuro de um país sem uma ditadura militar no governo.

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'Eduardo & Mônica': Ela fazia medicina, falava alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês
Imagem: Paris/Downtown

Não é ao acaso que Sampaio ambientou "Eduardo & Mônica" nos anos 1980, no coração dessas mudanças, em especial no impacto de um novo Brasil na capital federal. Além de fazer sentido para a trama, o apelo nostálgico torna-se ainda mais irresistível, uma cápsula do tempo contemporânea que traz elementos que, hoje, parecem saídos do tempo das cavernas, como o orelhão de ficha e a secretária eletrônica.

Todo esse trabalho, claro, é moldura narrativa e carinhosa para o encontro fofo, o "meet cute", uma história de amor sem pretensão que dá um respiro cinematográfico nesses tempos tão duros que o país atravessa. Assim como a música de Renato Russo e da Legião Urbana, "Eduardo & Mônica", por duas horinhas na sala escura, faz todo mundo cantar junto e torcer pelo final feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL