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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em 2021, o grande vilão do cinema foi... o spoiler!

O Homem-Aranha ouve spoilers de "Sem Volta Para Casa" - Sony
O Homem-Aranha ouve spoilers de 'Sem Volta Para Casa' Imagem: Sony
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

29/12/2021 06h01

Em março, "Batman" trará uma nova aventura do Homem-Morcego nos cinemas. Robert Pattinson assume o papel de Bruce Wayne e o trailer mais recente sugere um mistério envolvendo sua família e a fundação da própria Gotham City. Três meses. Tempo mais do que suficiente para que a turma que curte estragar a diversão alheia prepare seu dossiê do "eu já sabia e o filme seria assim".

Revelar os segredos de um filme antes de sua estreia é um prazer que eu queimo a cabeça e não consigo entender. O maior exemplo é "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa". Foram meses com "fãs" perdendo tempo para adivinhar qual seria a linha narrativa do filme. Pior: para escancarar suas revelações e bagunçar a experiência alheia.

Se essa turma se reunisse em um porão qualquer para ficar a) lamentando sua ausência de vida social e b) trocando figurinhas sobre o roteiro de um filme, beleza. Há quem diga, e eu literalmente recebi mensagens assim, que é bem melhor saber dos spoilers do que assistir ao próprio filme. Deve ser o mesmo pessoal que come bombom sem tirar a embalagem.

A coisa, entretanto, ficou séria. No YouTube, dúzias e dúzias de "canais" de "fãs" entupiram o algoritmo com cenas do próprio filme, gravadas dentro dos cinemas, entregando justamente cenas chave da aventura. Mesmo quem queria se manter alheio às surpresas foi brindado inadvertidamente com thumbs revelando, sem pudor, o que deveria ser um momento bacana. A Sony/Marvel, claro, foi derrubando um a um desses vídeos. Mas não há limites para os espíritos de porco.

Em São Paulo, os spoilers terminaram em confusão em um cinema. Três moleques passaram a gritar, depois de a sessão começar, quem aparece no filme e de que forma a ação acontecia. Uma pessoa chegou ao limite e sacou um spray de pimenta no trio, atingindo também as pessoas ao lado. Confusão, fim de festa para todos na sala. Assistir a "Homem-Aranha" virou uma experiência de risco por conta de um punhado de idiotas.

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O Homem-Aranha ficou mega chateado quando revelaram spoilers de seu filme
Imagem: Sony

Entre as dúzias de bobagens que eu já li sobre spoilers, uma delas aponta que eles não passam de uma característica do cinema moderno. Bobagem. Alfred Hitchcock já pedia às plateias para segurar os segredos de seus filmes para preservar a experiência de quem ainda não havia assistido a uma sessão. Boa parte do marketing do clássico "Psicose" foi construída justamente em cima dessa premissa, com o próprio Hitch aparecendo em alguns cinemas para pedir para o público guardar as revelações do filme para si.

A diferença da época em que "Psicose" chegou aos cinemas e os tempos de "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" resume-se unicamente aos "fãs" mal intencionados, eternamente grudados nas redes sociais. Para essa fatia de fanáticos, não basta perder tempo "descobrindo" os segredos de um filme antes de seu lançamento: a graça só existe quando a diversão alheia é pulverizada.

Quando o trailer final de "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" foi lançado, eu mesmo escrevi sobre esse tipo de fã tóxico que sacrifica sua experiência - e a dos coleguinhas - para provar que... Bom, honestamente eu não faço ideia o que essa turma quer provar. Mas são eles que reforçam a teoria de que o fã, ao menos esse tipo de "fã", precisa acabar.

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Guilherme Briggs dubla Tom Hardy (foto) e não conseguiu fugir dos spoilers de 'Venom'
Imagem: Sony

Para quem trabalha com cinema, spoilers são inevitáveis. Críticos de cinema, por exemplo, muitas vezes assistem a filmes semanas, até meses antes de o público ter a chance. Os dubladores também terminam, por óbvio, sabendo de tudo que acontece em um filme por antecipação.

É o caso de Guilherme Briggs, veterano de mais de três décadas como dublador, que empresta sua voz para, entre outros, Henry Cavill e Tom Hardy. Como o último é o intérprete de Venom, dá para imaginar que Briggs esteja ciente de uma ou outra coisinha antes do resto dos mortais.

"Muitas vezes eu pego o roteiro e já fico nervoso em saber o que está em cada página", revela Briggs, que conversou comigo quando o novo "Venom: Tempo de Carnificina" foi lançado nas plataformas digitais. "A gente assina um contrato enorme, então eu não posso sequer dizer se faço parte ou não de um filme."

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Em 1960 a plateia já era bacana e não contou o destino de Janet Leigh em 'Psicose'
Imagem: Universal

Spoilers, por fim, não são "reflexo do cinema moderno", ou "um mal necessário", nem mesmo inevitáveis. São fruto da falta de caráter de uma turma que deseja, pura e simplesmente, estragar o filme dos fãs verdadeiros que desejam simplesmente entrar no cinema e ser surpreendidos.

A força de "Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa" felizmente atropelou essa fatia de desocupados, e o filme já ultrapassou US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais. Imagino, por outro lado, como seria uma experiência frustrante assistir a alguns filmes com seus segredos revelados. Como "Inverno de Sangue em Veneza". Ou "Planeta dos Macacos". "Chinatown". "No Mundo de 2020". "O Império Contra-Ataca". "Seven". "As Duas Faces de Um Crime". "O Sexto Sentido". "Clube da Luta". "Os Outros". "Parasita".

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James McAvoy estava pronto para papear com quem estragasse o final de 'Fragmentado'
Imagem: Universal

A plateia, em sua esmagadora maioria, entende que a experiência cinematográfica é um tesouro a ser preservado. M. Night Shyamalan, ele mesmo autor de algumas reviravoltas surpreendentes no cinema moderno, exibiu seu "Fragmentado" em um festival de cinema meses antes de seu lançamento comercial.

Sabendo que controlar a reação da plateia após o filme seria impossível, ele pediu a todos, antes do começo da sessão, para que não revelassem a última cena em redes sociais. "Fragmentado" estreou quatro meses depois com seu segredo intacto.