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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Nicolas Cage como Drácula é a ideia mais brilhante do cinema atual

Nicolas Cage em "O Beijo do Vampiro" - Reprodução
Nicolas Cage em 'O Beijo do Vampiro' Imagem: Reprodução
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

02/12/2021 04h00

Nicolas Cage vai interpretar Drácula! O filme é "Renfield", batizado com o nome do servo comedor de insetos do conde perpetuamente em uma dieta líquida de sangue. A direção é de Chris McKay, que fez "Lego Batman - O Filme" (eba!) e "A Guerra do Amanhã" (zzz...). Nicholas Hoult e Awkwafina complementam o elenco recém-nascido.

Mas quem está prestando atenção? O que importa é que Nicolas Cage vai interpretar Drácula! Essa é provavelmente a decisão de elenco mais perfeita desde que, sei lá, Charlton Heston colocou uma barba falsa como Moisés em "Os Dez Mandamentos". É exatamente o tipo de papel para o qual o astro vem se preparando desde, digamos, o começo de sua carreira. E é sua volta ao jogo dos grandes estúdios.

Cage, como sabemos, é a ave mais rara do zoológico chamado Hollywood. Começou com seu nome de batismo (Nicolas Coppola) na comédia "Picardias Estudantis", trabalhou com o tio famoso (olha esse sobrenome!) em "O Selvagem da Motocicleta", "Cotton Club" e "Peggy Sue - Seu Passado a Espera" e amarrou os anos 1980 como um dos atores mais interessantes de sua geração com "Arizona Nunca Mais", "Feitiço da Lua" e "O Beijo do Vampiro" (nenhuma relação com Drácula).

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Nicolas Cage em 'Con Air - A Rota da Fuga'
Imagem: Touchstone

Nessa época, Nicolas Cage (o sobrenome ele tungou do super-herói da Marvel Luke Cage) já era um dos intérpretes mais interessantes e imprevisíveis a operar em Hollywood. Ele emendava uma maluquice de David Lynch ("Coração Selvagem") com uma comédia bobona ("Lua de Mel a Três") e um romance açucarado ("Atraídos Pelo Destino") com a mesma desenvoltura.

O Oscar (sim, Nic Cage tem um careca dourado) veio em 1995 com "Despedida em Las Vegas". Em vez de mirar em filmes mais, digamos, sérios, o ator chutou o balde e tornou-se um astro de ação insuspeito, com pérolas como "A Rocha", "Con Air" e "A Outra Face" disparando uma nova fase em sua carreira.

Nos bastidores, a lenda crescia. Cage tornou-se um astro de US$ 20 milhões por filme, trabalhando com Brian De Palma ("Olhos de Serpente"), Martin Scorsese ("Vivendo no Limite"), Spike Jonze ("Adaptação") e Ridley Scott ("Os Vigaristas").

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Nicolas Cage (é ele sim!) em 'Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança'
Imagem: Imagem Filmes

O dinheiro, porém, esvaia-se em extravagâncias, como castelos na Europa (que ele sequer colocava os pés), coleções de histórias em quadrinhos raras (inclusive US$ 1 milhão pela primeira aparição do Superman) e dúzias de automóveis empilhados na(s) garagem(ns).

Manter esse padrão altíssimo o levou a topar um punhado de filmes estranhos - que Cage correspondia com interpretações ainda mais esquisitas. Sua performance nas bilheterias passou a ser errática e seu nome não garantia mais traseiros nos assentos. Bons filmes ("Vício Frenético", "Kick Ass") chamavam menos atenção que produções tocadas por cineastas de talento duvidoso. Tirando animações como "Os Croods" e "Homem-Aranha no Aranhaverso", "Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança", de 2011, foi seu último filme por um grande estúdio.

A essa altura, Cage já se tornara uma curiosidade, como o homem mais forte do mundo ou a mulher barbada dos circos de variedades da metade do século passado. Eram dois, três, quatro, cinco, até seis filmes regurgitados a cada ano. Todos habitando o mundo estranho das produções lançadas em video on demand/streaming.

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Nicolas Cage em 'Mandy'
Imagem: Universal

Nesse bolo até pintavam algumas pérolas. "Mandy", de Panos Cosmatos, é um pesadelo lisérgico em que Cage, chapado até as orelhas, massacra com um machado o culto que sequstrou e matou sua mulher. "Pig", lançado este ano, é um dos filmes mais elogiados de sua carreira. EU ainda não vi "Jiu Jitsu" ou "Prisoners of the Ghostland", mas estão na lista.

A maré começou a mudar para Nic Cage com o projeto "The Unbearable Weight of Massive Talent", ainda em pós produção. Aqui ele interpreta - você está preparado? - Nicolas Cage, astro com problemas de grana que aceita uma grana para aparecer na festa de aniversário de um fã bilionário. Só que ele é na verdade um agente da CIA, já que o tal fã é um barão das drogas, e termina escalado para fazer um filme do Quentin Tarantino.

Como nada faz sentido no cinemão, Hollywood passou a prestar atenção no astro mais uma vez, o que resultou na Universal o colocando no papel de Drácula. Convenhamos, para quem passou uma carreira devorando o cenário, cravas os dentes em pescoços vitorianos me parece uma evolução natural.

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Nicolas Cage em 'Pig'
Imagem: Neon

O problema é que o filme, descrito como uma "comédia extremamente violenta" (a ideia veio de Robert Kirkman, criador de "The Walking Dead"), não deve ser uma produção de época, transportando os mitos criados por Bram Stoker para o mundo contemporâneo.

É impossível não lembrar do malfadado Dark Universe da Universal, que nasceu e morreu com "A Múmia", uma releitura moderna do clássico que não encontrou salvação nem com Tom Cruise no elenco. Prefiro acreditar que o conceito do "vampiro moderno" traga mais paralelos com "O Que Fazemos nas Sombras", de Taika Waititi.

A bem da verdade, a possibilidade de "Renfield" não dar em nada é gigante. A devoção ao passado de glórias da Universal, mantida com aparelhos com o selo Dark Universe, é um plano que, apesar do ótimo (e já esquecido) "O Homem Invisível", parece só ter pólvora para a largada. Mas absolutamente nada disso importa. É Nicolas Cage, mais uma vez, em um cinema perto de você. E tudo está certo no mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL