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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Get Back': Peter Jackson reescreve legado dos Beatles em doc histórico

Paul McCartney e John Lennon em "The Beatles: Get Back" - Disney+
Paul McCartney e John Lennon em 'The Beatles: Get Back' Imagem: Disney+
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

29/11/2021 04h00

Foi um fim de semana para retomar a beatlemania. O documentário "The Beatles: Get Back", que estreou dividido em três episódios na plataforma de streaming Disney+, trouxe não só quase oito horas com o quarteto de Liverpool, como também criou a possibilidade de descobrir (ou redescobrir) o que os fazia tão geniais. É tão imersivo quanto impressionante, tão surpreendente quanto viciante.

É, também, uma oportunidade para reparar uma injustiça histórica. Diz a lenda (e também Paul McCartney, mas já já voltamos a ele) que os Beatles atingiram o ponto de ruptura muito em parte pela presença de Yoko Ono e sua influência sobre as decisões de John Lennon. O documentário "Let It Be", dirigido por Michael Lindsey-Hogg em 1970, reforçou essa teoria, mostrando um grupo à beira do colapso ao gravar o que seria seu último álbum.

Essa história sempre foi a pulga atrás da orelha de um fâ dos Beatles em particular, o cineasta Peter Jackson. De posse de cerca de 60 horas de imagens e mais de 150 horas de áudio até então inéditos, Jackson se encarregou da tarefa hercúlea de decupar o material, gravado originalmente para "Let It Be", e apresentar um novo documentário para celebrar a banda.

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Yoko Ono, no cantinho, observa a mágica acontecer
Imagem: Disney+

O que ele encontrou, entretanto, foi um tesouro inestimável que não só retira Yoko do papel de "vilã", como também coloca os Beatles não como um grupo à beira do colapso, e sim quatro amigos, encabeçando o maior fenômeno pop do século 20, tentando recuperar seu mojo com um projeto que abraçava um novo álbum e um especial de TV. A regra era "voltar ao básico".

Imaginado como um filme para o cinema, "Get Back" voltou ao estaleiro por conta da pandemia e ressurgiu como esse colosso que nos coloca ali, ao lado de John, Paul, George e Ringo, no coração de seu processo de criação. Eles discutem o projeto, que muda de forma ao longo de três semanas de ensaio, culminando na apresentação no telhado da Apple Corp em Londres, o que seria o último show da banda.

Primeiro, é preciso destacar o trabalho absurdo que Jackson liderou para recuperar o material. Usando tecnologia similar à que ele utilizara no documentário sobre a Primeira Guerra Mundial, "Eles Não Envelhecerão", o diretor limpou e corrigiu áudio e vídeo, deixando cristalinos diálogos e brincadeiras e discussões. É como se tudo tivesse sido rodado semana passada, com sósias mimetizando o grupo. Um assombro, resultado de um trabalho de quatro anos.

Em meio ao caos criativo, fragmentos que acentuam a tensão ressurgem. Existe a figura central de McCartney, que por repetidas vezes diz não querer o papel de líder, mas que percebe que alguém precisa tomar as rédeas, em especial depois da morte do empresário Brian Epstein, a cola que mantinha os quatro na mesma régua, alguns anos antes.

John, sempre ao lado de Yoko, não parece tão interessado em todo o processo, assim como Ringo, que não fazia sua voz ser muito ouvida. George Harrison, por sua vez, questiona seu papel criativo e a função da existência dos Beatles - chegando a abandonar o grupo ao fim da primeira semana.

Amarrando tudo, porém, está a música. Hoje é fácil observar e entender o gigantismo da influencia e da importância dos Beatles, que praticamente escreveram a cartilha pop ainda seguida pela música contemporânea. "Get Back", entretanto, escancara o quanto eles eram jovens e assombrosamente talentosos. A explosão da beatlemania não tinha sequer uma década, e canções hoje consideradas essenciais para o glossário musical existiam então há poucos anos, meses até.

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O quarteto de Liverpool posa para as lentes de Michael Lindsey-Hogg
Imagem: Disney+

É um deleite, portanto, acompanhar o processo criativo e o nascimento de músicas como "Get Back", "Let It Be", "I Me Mine", "Don´t Let Me Down" e "The Long and Winding Road". Elas são ensaiadas, cantaroladas e lapidadas ali, nos ensaios nos estúdios de Twickenham e nas gravações na Apple Corps., enquanto as câmeras de Lindsey-Hogg registravam cada momento.

Existe, claro, a tensão. Mas existe também a camaradagem, as brincadeiras, as piadas e a presença de espírito do quarteto. Em nenhum momento transparecem os ânimos inflamados da lenda.

Lenda essa que as próprias pessoas associadas aos Beatles alimentaram ao longo dos anos. Em especial McCartney, que muitas vezes atribuiu o fim do grupo à presença constante de Yoko Ono no coração do processo de criação da banda.

"Get Back" desmistifica essa hipótese, com o próprio Paul dizendo ver com naturalidade um afastamento de John por conta de sua companheira, e até brincando que "será engraçado daqui a 50 anos alguém dizer que os Beatles terminaram porque Yoko sentou em um amplificador". Ao assistir ao trabalho de Jackson, McCartney chegou a dizer que fora muito duro com o passado - ele e Ringo Starr, ao lado de Yoko e de Olivia Harrison, viúva de George, assinam o doc como produtores.

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Peter Jackson, diretor de 'The Beatles: Get Back'
Imagem: Disney+

Se algo É deixado claro em "The Beatles: Get Back", é que o fim era inevitável. Sim, Paul McCartney agia como chefe, buscando ditar os rumos da banda - mais por necessidade de preencher o vácuo deixado pela partida de Brian Epstein e menos por ego. Sim, John Lennon claramente priorizava Yoko Ono e uma nova visão artística.

O que o novo trabalho apresenta, portanto, são quatro artistas muito jovens (eles tinham entre 25 e 28 anos) em momentos criativos diferentes. É quase palpável o prazer que eles tinham em fazer música.

Mas é também evidente que, depois de anos literalmente no olho do furacão, inventando a cultura pop musical do século 20, e expostos a diferentes estímulos (sentimentos, drogas, a sombra da contra cultura, a perda de inocência do mundo entrando no anos 1970), eles buscariam caminhos criativos distintos.

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Os Beatles nos primeirs ensaios para a gravação de 'Let It Be'
Imagem: Disney+

A gravação de "Let It Be" foi o estopim para o fim. "The Beatles: Get Back", entretanto, mostra que havia muita beleza nesse epílogo. O clímax do terceiro episódio, com 42 minutos do show completo que eles executaram no telhado da Apple, é a materialização dessa beleza, de quatro jovens que um dia se juntaram para fazer música e, com isso, mudaram o mundo.

A metragem de "Get Back" pode até assustar o espectador casual, pode até parecer desinteressante para parte da geração Tik Tok, mais imediatista e menos afeita a absorver material tão denso. Mas é um presente para qualquer um que, em algum momento, tenha sido tocado pela produção inovadora, emocionante, estimulante e, não raro, perfeita, dos Beatles. A parte chata é que "The Beatles: Get Back" tem começo, meio e fim. Mas sempre podemos apertar o replay e reviver tudo mais uma vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL