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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Gavião Arqueiro': Por que um pouco de moderação faz bem à Marvel

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

25/11/2021 12h00

Desde que "Homem de Ferro" começou o universo compartilhado da Marvel no cinema - e, por extensão, no streaming -, o estúdio tornou-se sinônimo de espetáculo em grande escala. São invasões alienígenas, ameaças globais, estruturas gigantescas despencando do céu. Quanto maior, melhor.

Essa "fórmula" rendeu uma das marcas mais bem sucedidas da cultura pop moderna. Por outro lado, fez com que a Marvel se tornasse prisioneira de seu próprio gigantismo. "Gavião Arqueiro", série que estreia agora na plataforma Disney+, traz um respiro muito bem vindo a esse universo ao manter seus protagonistas com os pés no chão. Bom, ao menos na maior parte do tempo.

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Jeremy Renner é Clint Barton em 'Gavião Arqueiro'
Imagem: Marvel

Faz bem para a marca, e faz bem a seus heróis. Desde que surgiu em uma ponta em "Thor", de 2010, Clint Barton, o Gavião Arqueiro, encarava o absurdo de sua posição entre super soldados, deuses nórdicos, monstros furiosos e bilionários super inteligentes.

Sua parceira, a Viúva Negra, logo encontrou seu lugar, em especial nas histórias com o Capitão América, e teve este ano um filme para chamar de seu. Barton, por sua vez, atingiu seu auge narrativo em "Vingadores: Ultimato", mas ainda era o sujeito comum, armado com arco, flecha e, na falta de um predicado melhor, muita marra.

São justamente esses os pilares que sustentam "Gavião Arqueiro" - mesmo que eles não sejam exclusivamente atribuídos a Clint Barton. Na nova série é Kate Bishop, postulante à posição de melhor arqueira do planeta, quem empresa entusiasmo e ânimo ao mundo habitualmente sisudo do herói.

O que parece deixar Jeremy Renner extremamente confortável. O ator, que foi considerado e descartado para assumir as séries "Bourne" e "Missão: Impossível" no cinema, encontra seu lugar perfeito na tela do streaming. Sem ter de dividir espaço com os pesos pesados da Marvel, ele consegue dar mais dimensão e camadas a Clint Barton, conectando-se a seu passado mas também apontando um caminho bacana para o futuro.

É aí que Hailee Steinfeld entra em cena. Revelada em "Bravura Indômita" e elevada ao posto de protagonista com "Bumblebee", a atriz é a melhor adição ao universo compartilhado Marvel desde que Tom Holland assumiu as teias do Homem-Aranha.

Sua Kate Bishop surge não só como parceira de Barton, mas também como uma lembrança constante de que uma nova geração de vingadores precisa não de uma lição de moral, e sim de orientação, treinamento e, principalmente, de bons exemplos.

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Hailee Steinfeld é Kate Bishop em 'Gavião Arqueiro'
Imagem: Marvel

Essa é a espinha dorsal de "Gavião Arqueiro": menos espetáculo, mais interação de personagens, sem nunca esquecer que é um produto conectado a um universo maior. Ainda assim, fazer parte da tapeçaria do MCU fica em segundo plano, com uma trama mais urbana e menos bombástica à frente.

Não atrapalha a série ser inspirada pela reinvenção do Gavião Arqueiro nos quadrinhos, em uma série assinada em 2012 por Matt Fraction e David Aja. Foi nela que o herói se livrou de seu traje espalhafatoso de super-herói - estilizado com uma máscara pontiaguda com um "H" cravado na testa - para assumir uma roupa de combate mais pragmática.

Foi também nessa série que Kate Bishop, criada nas páginas de "Jovens Vingadores", começou sua relação de mentor e aluna com o herói. De personalidade forte, não demorou para que a personagem tomasse a frente do título, mostrando ser tão digna do nome "Hawkeye" quanto Clint Barton.

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Os arqueiros entram em ação em pleno Natal em Nova York
Imagem: Marvel

É justamente dinâmica o motor da série no streaming, o que ganha impulso com a ótima química entre Jeremy Renner e Heilee Steinfeld. O foco em crimes "comuns" traz a inevitável comparação com as extintas séries da Marvel na Netflix, em especial "Demolidor" e "Jessica Jones", o que atesta o ótimo começo de "Gavião Arqueiro" em streaming.

Mesmo na esteira da pandemia que também mudou as regras do entretenimento, 2021 vai cravar nove produtos com a marca Marvel. É um número alto que periga deixar o estúdio no vácuo da superexposição.

"Gavião Arqueiro" prova, entretanto, que ainda é possível encontrar maneiras de chacoalhar o estilo Marvel de traduzir seus heróis em filmes e séries e entregar um produto que, se não chega para "virar as regras do jogo", surge como diversão ligeira, como entretenimento puro. Às vezes é preciso voltar a caminhar para reaprender a correr.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL