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Roberto Sadovski

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Encurralado': Há 50 anos o mundo descobria o gênio de Steven Spielberg

Dennis Weaver em "Encurralado", de Steven Spielberg - Universal
Dennis Weaver em 'Encurralado', de Steven Spielberg Imagem: Universal
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

13/11/2021 05h21

Era um sábado qualquer no lado de cima do hemisfério. A rotina na casa de praticamente todo americano, ao menos em 1971, era sintonizar a TV no "filme da semana" da rede ABC. Os melodramas açucarados de sempre, porém, não deram as caras.

Em seu lugar, o público foi brindado com um pesadelo sufocante sobre rodas. Uma perseguição implacável e sem nenhum motivo a um homem comum, caçado por um maníaco ao volante de caminhão infernal.

O filme era "Encurralado". Seu diretor era um jovem talento de 24 anos, que aos poucos construía sua reputação no comando de séries de TV. Seu nome, Steven Spielberg.

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Spielberg: um gênio já em 1971
Imagem: Universal

"Encurralado" mudou o jogo em mais de uma maneira. Rodado em treze dias, de cara a produção quebrou as regras de um filme feito para a TV. Em vez de filmar no conforto de um estúdio, com os atores simulando dirigir com o cenário em movimento projetado em uma tela aos fundos, Spielberg insistiu em rodar em locação, nas estradas da Califórnia, com carros (e pilotos) de verdade.

Para isso, ele insistiu em uma verdadeira operação de guerra, traçando cada segmento do filme em um mapa, planejando a ação em seus mínimos detalhes. A ousadia compensou. "Encurralado" fez barulho e, remontado com uma cena extra que esticou sua metragem de 74 para 90 minutos, terminou lançado em cinema no mercado internacional.

Já em sua estreia Spielberg exercita os traços que o seguiriam ao longo de sua carreira. Em especial o retrato de pais distantes, desconectados da família, que em um momento de extrema tensão e desespero busca, em vão, essa ligação perdida. O modo como as cenas são coreografadas amplificam a tensão, sempre com uma sugestão da ação para a plateia, antecipando os dilemas de seu protagonista.

Acima de tudo, o diretor abraçou o terror nunca visto, mas sugerido. A ameaça invisível e aleatória capaz de vitimar não poetas ou reis ou sábios, mas o homem comum. Em "Encurralado", a tragédia poderia acontecer com qualquer um. Comigo. Ou com você.

No caso, com o vendedor David Mann, uma atuação frenética de Dennis Weaver. O roteiro de Richard Matheson, adaptando seu próprio conto publicado meses antes em "Playboy", coloca o personagem de Weaver dirigindo nas estradas da Califórnia, transpirando exageradamente, acelerando para ultrapassar um caminhão que ocupa a pista de forma colossal.

O gesto aparentemente banal dispara uma perseguição que amplifica qualquer briga de trânsito trivial. O que parece ser a irritação de um motorista entediado rapidamente escala para uma perseguição brutal, com Mann a princípio tentando compreender a fúria de seu algoz, para em seguida perceber que está travado em um duelo até a morte.

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O mal sem rosto e irrefreável em 'Encurralado'
Imagem: Universal

Spielberg rapidamente traçou regras para seus protagonistas. Weaver, a quem o diretor admirava desde que o viu no clássico de Orson Welles "A Marca da Maldade", jamais veria o motorista do caminhão - assim como o público, seus olhos captam seus braços e suas botas de crocodilo. Dessa forma, o verdadeiro "vilão" se torna o próprio caminhão, um bólido de metal sem face que dispara em ímpeto assassino sem absolutamente nenhum motivo.

O efeito para quem assistia ao filme foi imediato - não há, afinal, medo maior do que o do desconhecido. A paranoia e o desespero crescentes no personagem de Weaver foram compartilhados por quem acompanhava o filme, que atinge seu clímax em uma explosão de sons guturais, como se houvesse uma presença sobrenatural envolvendo o caminhão.

Acima de tudo, o pavor provocado em "Encurralado", com suas locações reais e seus personagens de carne e osso, sugeriam que ele poderia acontecer com qualquer um. Essa exposição do homem comum a situações extraordinárias se tornaria uma das maiores marcas do cinema de Spielberg, em especial no começo de sua carreira.

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O duelo desigual orquestrado por Steven Spielberg em 'Encurralado'
Imagem: Universal

Era um homem comum que confrontava um chamado inexplicável em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau". Foi em um subúrbio comum que um garoto viveu uma aventura extraordinária em "E.T. - O Extraterrestre". Mesmo Indiana Jones não era um herói infalível, mas sim alguém que "improvisava ao longo do caminho" em "Os Caçadores da Arca Perdida".

E tudo começou há cinco décadas, quando um diretor ainda sem cicatrizes enxergou a história perfeita para dar o salto que sua careira precisava - uma das carreiras mais bem sucedidas da história, com incontáveis filmes icônicos, que segue forte ainda esse ano, com Spielberg retomando com o vigor de um estreante na refilmagem do musical "Amor, Sublime Amor".

Dois anos depois de sua estreia, Steven Spielberg graduou-se de fato como diretor de cinema com "Louca Escapada". Em 1975 ele colocou o mundo a seus pés ao dirigir o fenômeno "Tubarão". Mas foi em "Encurralado", um pesadelo de terror e paranoia disfarçado de filme para a TV, que o diretor encontrou sua voz.