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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Confuso e enfadonho, 'Eternos' é o ponto mais baixo da Marvel no cinema

Angelina Jolie em "Eternos" - Disney/Marvel
Angelina Jolie em 'Eternos' Imagem: Disney/Marvel
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

02/11/2021 17h17

"Eternos" é um desastre. Uma calamidade absoluta. Não há nada que funciona nesse casamento do estúdio mais bem-sucedido do novo século com uma de suas cineastas mais festejadas. É uma aventura sem rumo, sem foco, sem emoção e sem propósito. É, também, o reflexo de uma marca vítima de seu próprio sucesso.

Havia euforia quando a Marvel anunciou a diretora Chloé Zhao para comandar "Eternos". Parecia a escolha perfeita, e totalmente alinhada com a política do estúdio em colocar vozes independentes em projetos de grande escala. Responsável pelos dramas "Domando o Destino" e "Nomadland", sobre pessoas invisíveis sobrevivendo às margens da sociedade, Zhao parecia alinhada para contar a história de seres cósmicos escondidos entre nós há milênios.

O casamento, porém, não deu liga. É impossível enxergar qualquer traço da personalidade de Chloé Zhao no filme. Não há introspecção em seus protagonistas, nem a observação empática de uma vida levada ao limite. Sobram, porém, longas tomadas ao por do sol, discursos ginasiais com verniz de profundidade e conversas intermináveis para relatar, em vez de mostrar, o que está acontecendo.

eternos time - Disney/Marvel - Disney/Marvel
Os Eternos em sua marcha pela história
Imagem: Disney/Marvel

A trama segue mais ou menos assim. Os Eternos são superseres cósmicos, colocados na Terra por criaturas onipotentes, os Celestiais, para proteger a raça humana dos Deviantes, demônios surgidos do âmago do planeta. Por milhares de anos, a ameaça foi combatida, ao mesmo tempo em que os Eternos tornavam-se observadores passivos da história. Eles não podiam interferir, a não ser que a treta envolvesse Deviantes.

O fim da ameaça significou também a "aposentadoria" do grupo, dez indivíduos que trataram de tocar um semblante de vida ao lado das pessoas normais. Agora os Deviantes parecem estar de volta, forçando uma reunião dos Eternos para retomar sua batalha. Obviamente, existe mais na trama do que esse fiapo, mas eu deixo para quem se aventurar ao cinema descobrir.

O problema é como essa história é contada. Em vez de buscar um foco narrativo, Zhao fragmenta o texto em flashbacks que quebram o ritmo e nunca deixam que a trama se desenvolva. O agravante são os protagonistas. Mesmo com a metragem gigantesca do filme, suas histórias nunca são explicadas. Ficamos sem saber o que os motiva, o que alimenta sua paixão pela humanidade, o peso das decisões de cada um em seu isolamento. Sem essa conexão, desaparece também o impacto de suas ações.

Existe mérito em a Marvel convocar diretores totalmente fora do circuito dos blockbusters para desenvolver suas propriedades intelectuais. Pressupõe-se, porém, que o cineasta venha com sede para integrar-se em áreas técnicas que fogem de seu escopo.

Foi o caso de Cate Shortland, que participou ativamente de todos os aspectos de "Viúva Negra". Ou mesmo dos irmãos Joe e Anthony Russo, diretores de comédias na TV americana que entenderam e abraçaram o jogo de "Capitão América: O Soldado Invernal" a "Vingadores: Ultimato".

A impressão com Chloé Zhao é que ela deu de ombros a tudo que não envolvia o desenvolvimento da história, e essa decisão reflete no resultado. Visualmente, "Eternos" não tem nenhuma personalidade. A direção de arte, não há cuidado no figurino. Nada parece funcional, e sim artificial.

Sem a assinatura de sua diretora, o filme nunca encontra o equilíbrio entre espetáculo global e peça autoral. É frio, enfadonho e distante, como se Chloé subestimasse o material em mãos, tentando encontrar alguma profundidade "no meio desse povo fantasiado".

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Praia, por do Sol, papo cabeça: parece veraneio em Ilhabela mas é 'Eternos'
Imagem: Disney/Marvel

Criados por Jack Kirby em 1976, os Eternos foram concebidos como o extremo oposto de "frio, enfadonho e desinteressante". Depois de uma temporada na concorrência, onde deu vida aos Novos Deuses, Kirby voltou para a Marvel e recebeu carta branca para materializar sua visão.

Na época, o mais criativo e original artista dos quadrinhos em todos os tempos nutria uma obsessão saudável com a ficção científica e com "Eram os Deuses Astronautas?", livro de 1968 do suíço Erich von Däniken. Eternos, a HQ, era exatamente isso: super-heróis criados por deuses cósmicos como parte de um grande experimento que também deu origem aos Deviantes e à raça humana.

Se a tradução dos personagens para o cinema mantém a ideia de "super-heróis contra deus", os conceitos visionários e a grandiosidade das criações de Jack Kirby simplesmente não dão as caras. "Thor Ragnarok", de Taika Waititi, foi o produto do estúdio que mais se aproximou da festa visual imaginada pelo mestre.

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Richard Madden e Gemma Chan em uma relação que dura milênios
Imagem: Disney/Marvel

É evidente que Chloé Zhao busca escapar da estrutura convencional da Marvel para seguir uma linha de condução diferente, mas sucumbe ao peso de sua própria ambição. Com a confusão narrativa, amparada por diálogos óbvios e atuações canhestras (de Angelina Jolie a Richard Madden a Gemma Chan, ninguém se salva), "Eternos" termina por reencontrar a fórmula quando já é tarde.

O humor que sublinha o drama é inexistente. Não existe também o crescendo emocional de outros filmes do estúdio. O clímax, com a boa e velha ameaça apocalíptica, resume-se ao grupo batendo papo na praia, provavelmente buscando uma forma de manter a dignidade até os créditos - um doce para quem lembrar do nome de qualquer personagem quando a cena pós-créditos terminar.

Existe um sub-texto sobre a inércia dos deuses e sua inação quando a humanidade enfrenta seus piores momentos. O Homem-Aranha era adolescente quando aprendeu que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, lição que seres com mais de 7 mil anos de idade, em seu auge físico e mental, custam a entender. Este conceito, porém, não ganha tração.

O mesmo vale para Kit Harrington. É um respiro ver o ator imprimir um registro radicalmente diferente do Jon Snow de "Game of Thrones" a Dane Whitman, personagem lapidado para voos mais ambiciosos no futuro deste universo. Infelizmente não passou da promessa, já que ele mal tem 10 minutos em cena, zero arco dramático e nenhuma função na história.

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Kit Harrington (com Gemma Chan) entra mudo e sai calado
Imagem: Disney/Marvel

Ao se tornar o estúdio mais bem sucedido do cinema moderno em pouco mais de uma década, a Marvel criou a mesma armadilha que assola sua divisão de quadrinhos. O conceito de um universo conectado é inovador e empolgante, mas começa a dar sinais de cansaço pelo volume de produtos - 2021 vai fechar com nove filmes ou séries com o selo do estúdio.

A solução para oxigenar a marca é justamente unir personagens tradicionais com cineastas que busquem um caminho menos óbvio e mais empolgante. Chloé Zhao trouxe uma preocupação legítima com diversidade e representatividade, a moeda corrente do século 21. A Marvel, por sua vez, lhe abriu espaço para imprimir sua assinatura.

Mas foi o encontro de uma força incontrolável com um objeto irremovível. Sem uma estrutura sólida, com um bom roteiro, personagens bem desenhados e uma direção clara para amarrar as partes, "Eternos" ficou à deriva com suas boas intenções. De boas intenções, a gente já sabe...