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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Halloween Kills' honra a tradição da continuação pior que o filme original

Michael Myers, o assassino implacável de "Halloween Kills" - Universal
Michael Myers, o assassino implacável de 'Halloween Kills' Imagem: Universal
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

15/10/2021 04h00

"Halloween Kills" não surgiu do ímpeto criativo que inspira a construção de boas histórias. A jornada de Laurie Strode e sua obsessão, o assassino Michael Myers, encontrou um ótimo epílogo no filme lançado em 2018, continuação direta do clássico criado por John Carpenter nos anos 1970.

Essa retomada de "Halloween", depois de dois equívocos assinados por Rob Zombie, despertou uma nova geração de fãs, estimulou os entusiastas do original e - o principal! - faturou algumas centenas de milhões de dólares. Em Hollywood, o dinheiro manda. Laurie Strode descobriu que ainda não era hora de descansar. E o que era um final tornou-se outra terça na vida do psicopata mascarado.

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Judi Greer, Jamie Lee Curtis e Andi Matichak: tres gerações unidas pelo trauma
Imagem: Universal

O novo filme começa momentos depois que os créditos de seu antecessor de três anos atrás começam a subir. Depois de uma vida de preparação e isolamento, Laurie, ao lado de sua filha e sua neta, finalmente encerram o terror de Michael Myers, deixado preso no porão de uma casa em chamas.

Enquanto as três, feridas e exaustas, são levadas a um hospital, bombeiros apagam as chamas que consomem Michael. Ele, claro, escapa mais uma vez, dá cabo de todo o batalhão e recomeça sua caminhada na não tão pacata cidade de Haddonfield, no Illinois.

Existe um fragmento de trama, que atesta o desejo de Michael Myers em retornar à sua casa de infância - onde ele, quando criança, matou sua irmã a facadas. Quando os corpos começam novamente a empilhar, outros sobreviventes de sua noite de matança original, quatro décadas antes, reúnem-se e decidem que o matador não passa daquela noite.

A ideia que amarra as pontas de "Halloween Kills" é um estudo sobre a essência do mal e a histeria coletiva levantada por sua presença. No hospital ao descobrir que Myers ainda está vivo, Laurie tenta organizar algum tipo de reação, mas é engolida pela turba furiosa liderada por Tommy (Anthony Michael Hall), que espera qualquer pista de seu algoz para devolver a violência com ainda mais violência.

O conceito que, no fundo, somos todos potencialmente monstros, funciona em teoria. Na prática, falta ao roteiro do diretor David Gordon Green, feito a seis mãos com Danny McBride e Scott Teems, a fluidez para executar sua ideia com clareza. Como outras continuações de slasher famosos, como "A Hora do Pesadelo 2" (terrível), Brinquedo Assassino 2 (pavoroso) ou "Sexta-Feira 13 Parte 2" (esse ao menos nos deu Jason Voorhees), "Halloween Kills" é mais do mesmo, com uma camada extra de sangue.

Sem uma história sólida, o que sobra são recortes com os ataques de Michael Myers. Longe da multidão espremida em um hospital, todos esperando que ele vá em busca de Laurie, o psicopata da máscara branca espreita os becos, praças e quintais de Haddonfield, eliminando quem passar por sua frente. O que inclui, obviamente, alguns sobreviventes daquela noite fatídica em 1978 e outros anônimos desavisados.

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Tommy (Anthony Michael Hall) lidera a turba em busca de Michael Myers
Imagem: Universal

Talvez para compensar a falta de coesão narrativa, e para guardar as melhores surpresas para "Halloween Ends", que supostamente encerra a série ano que vem (sei...), o novo filme capricha na brutalidade. Se o "Halloween" original trazia uma surpreendente falta de sangue, aqui as mortes são extremamente violentas, com uma dose extra de sadismo.

"Halloween Kills" pode ser um belíssimo pastel de vento, mas seu ritmo frenético pode trazer algum sabor. Michael Myers, com suas órbitas vazias e marcha implacável, é uma máquina de matar, sem motivação, lógica ou emoção. Essa página em branco é parte de seu apelo, já que é possível projetar nele os medos mais pessoais - tanto da turma no filme quando do pessoal no cinema.

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Na noite de Halloween ele vai voltar para casa....
Imagem: Universal

Jamie Lee Curtis mais uma vez é a cola que segura a empreitada, mesmo que sua Laurie Strode tome desta vez um papel coadjuvante. Impotente no hospital, segurando os pontos recem costurados para não ver suas vísceras esvaindo, ela torna-se observadora involuntária do caos causado pela mera sugestão de Michael Myers.

Com papel mais ativo estão Judi Greer (como sua filha, Karen) e, principalmente, Andi Matichak, que finalmente compreende sua herança de trauma, dor e morte como a neta de Laurie, Allyson. Em uma história em que as figuras masculinas são marmanjos impulsivos incapazes de entender a magnitude da ameaça representada por Myers, são as mulheres que tentam, em meio ao caos, buscar a solução para eliminar o bicho papão. Funciona... por um tempo. Até, pelo menos, "Halloween Ends" chegar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL