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Roberto Sadovski

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Ninja, A Máquina Assassina': Há 40 anos a Cannon descobriu a mina de ouro

Franco Nero em "Ninja, a Máquina Assassina" - Reprodução/Cannon
Franco Nero em 'Ninja, a Máquina Assassina' Imagem: Reprodução/Cannon
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/10/2021 16h19

Franco Nero nunca foi praticante de artes marciais. Isso não impediu que o produtor e diretor Menahem Golan o escalasse como protagonista de "Ninja, a Máquina Assassina", de 1981. Tudo meio no improviso, uma espécie de marca registrada das produções da Cannon, empresa que Golan dividia com o primo, Yoram Globus.

Deu certo. Por um período que englobou boa parte dos anos 1980, deu muito certo. Ativa desde 1967, e lançando basicamente produções soft core ao longo da década seguinte, a Cannon foi comprada por Golan e Globus em 1979 pela bagatela de meio milhão de dólares.

Os primos, totalmente apaixonados por cinema já em sua Israel natal, compensavam sua total inépcia como cineastas com entusiasmo e uma lábia de vendedor infalível. O modelo de negócios consistia em comprar roteiros de quinta categoria, especialmente fitas de ação e terror, e acelerar a produção com o menor orçamento possível.

ninja sho - Reprodução/Cannon - Reprodução/Cannon
Sho Kosugi quebrando pescoços em 'Ninja, a Máquina Assassina'
Imagem: Reprodução/Cannon

"Ninja, a Máquina Assassina" surgiu como uma ideia de Mike Stone, campeão de karatê que ganhou a notoriedade dos tabloides ao iniciar um romance om a então mulher de Elvis Presley, Priscilla. Ele levou sua ideia para Golan (de um filme sobre ninjas, não sobre o romance com Priscilla Presley) com a intenção de se lançar como ator.

O filme ganhou orçamento de US$ 4 milhões, bancados pela MGM. Com uma semana de filmagens Golan ejetou o diretor original, Emmett Alston, assumindo a função. E nem deu bola para as vontades de Stone, escalando Franco Nero, então um astro de médio porte devido ao sucesso do western "Django", de 1966, para o papel principal.

Com um esqueleto de roteiro amarrado por diálogos raros e risíveis e cenas de ação (cooredenadas por Mike Stone) canhestras, o filme foi exibido em Cannes e passou como uma brisa em cinemas na Alemanha e na França antes de sua estreia nos Estados Unidos há exatos quarenta anos.

Apesar da total falta de qualidade, "Ninja" caiu no gosto do público, em especial quando foi lançado em VHS. No começo dos anos 1980, as "fitas de vídeo" eram uma força nascente, e filmes B supriam a demanda de quem alugava "três fitas na sexta para devolver na segunda", já que só os blockbusters do cinema não alcançavam o volume exigido pelo mercado.

Golan e Globus abriram os olhos e viram que o cinema de ação de fundo de quintal poderia ser um negócio bilionário se eles soubessem entrar no jogo. "Ninja, a Máquina Assassina" não era nenhum "Operação Dragão", que fez de Bruce Lee um fenômeno mundial uma década antes, mas disparou uma febre em torno de "filmes de ninja" e seu séquito de astros desconhecidos.

A Cannon logo tratou de emendar uma continuação, "A Vingança do Ninja", em 1983, fechando a trilogia no ano seguinte com "Ninja 3: A Dominação". Em comum os três filmes traziam o ator e artista marcial japonês Sho Kosugi, que depois de sua epopeia com a Cannon foi levar suas habilidades como lutador para a série de TV de curtíssima duração "The Master".

ninja van damme - Reprodução/Cannon - Reprodução/Cannon
Jean-Claude Van Damme em 'O Grande Dragão Branco'
Imagem: Reprodução/Cannon

Mesmo com a grana entrando com seus filmes de ação e suas comédias sexuais, Golan e Globus queriam mais. Em uma cidade marcada pela competição como Los Angeles, os primos queriam nivelar o jogo, deixando a Cannon em pé de igualdade com gigantes como Warner, Universal e Paramount.

Para isso, eles passaram a abrir a carteira e atrair astros para seu elenco. Charles Bronson veio primeiro, cravando as continuações de "Desejo de Matar" com o estúdio. Chuck Norris veio com "Braddock - O Super Comando" e suas continuações, além de "A Força Delta" e "Invasão U.S.A.".

Foi com a Cannon que Sylvester Stallone abriu o jogo dos supersalários para astros do cinemão, embolsando US$ 5 milhões por "Falcão - O Campeão dos Campeões". E foi na Cannon que Jean-Claude Van Damme disparou sua carreira com "O Grande Dragão Branco" (falei sobre outros filmes do estúdio na coluna que você pode ler aqui).

ninja mestres - Reprodução/Cannon - Reprodução/Cannon
Dolph Lundgren como He-Man em 'Mestres do Universo'
Imagem: Reprodução/Cannon

A Cannon passou a fechar contratos de co-produção com grandes estúdios, e também a comprar distribuidoras de filmes em VHS e redes de cinema de segunda linha. Golan e Globus insistiam nos filmes de ação para manter o fluxo de caixa, mas queriam também o respeito de seus pares, produzindo ou distribuindo filmes de certo prestígio como "Expresso Para o Inferno", "Armação Perigosa" e "A Companhia dos Lobos".

Para levantar fundos para as produções, a Cannon geralmente preparava o material promocional de um filme sequer em produção e o vendia para distribuição em dezenas de países no mercado de Cannes. Essa pré venda garantia que o filme sairia do papel, e assim a engrenagem não parava.

Em 1987, porém, a dupla apostou pesado em três propriedades intelectuais que eles negociaram e acreditavam ter o poder de fogo para elevar a Cannon para a altura das majors. Assim, eles gastaram além do que sua filosofia permitia em "Superman IV - Em Busca da Paz" e em "Mestres do Universo". O terceiro filme, "Homem-Aranha", jamais saiu do papel.

ninja shinobi - Reprodução/Cannon - Reprodução/Cannon
Franco Nero é o Shinobi Branco em 'Ninja, a Máquina Assassina'
Imagem: Reprodução/Cannon

Tanto o derradeiro filme do Homem de Aço com Christopher Reeve quando a versão em carne de osso do herói infantil He-Man foram fracassos absolutos, que não só afetaram a saúde financeira da empresa como também abalou o relacionamento dos primos. Dois anos depois, "Cyborg - O Dragão do Futuro" foi o último filme da Cannon com o selo "Uma Produção Golan-Globus", marcando a partida de Menahem da empresa.

A Cannon jamais se recuperou. Mesmo com parcerias costuradas nos anos seguintes, a empresa finalmente fechou as portas em 1994. Golan morreu duas décadas depois, produzindo e dirigindo filmes sem o mesmo impacto kitsch. Globus voltou para Israel e fundou uma rede de cinemas. O sonho de fama e fortuna em Hollywood foi breve, mas rendeu algumas pérolas que o tempo transformou em filmes cult.

Entre eles, claro, está "Ninja, a Máquina Assassina". Por anos o filme que disparou a moda dos ninjas no mundo ocidental foi um Santo Graal entre os apreciadores de filmes trash, fora do mercado desde os anos 1980 até ressurgir como DVD-on-demand em 2011, e em uma caixa de blu-rays lançada em 2015 com os outros filmes da trilogia.

Franco Nero, até onde eu sei, jamais aprendeu a lutar.