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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Mate ou Morra': Ser vilão de filme B é o que sobrou para Mel Gibson

Mel Gibson é o vilão em "Mate ou Morra" - Imagem Filmes
Mel Gibson é o vilão em 'Mate ou Morra' Imagem: Imagem Filmes
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

21/09/2021 17h41

Em uma das muitas cenas bacanas em "Era Uma Vez em Hollywood", o produtor interpretado por Al Pacino tenta convencer o astro da TV Rick Dalton, papel de Leonardo DiCaprio, que o melhor para sua carreira seria fazer western spaghetti na Itália. "Aqui você ainda tem trabalho", aponta o engravatado. "Mas só como vilão em séries dos outros."

Interpretar o vilão, ou the heavy, significava fim de carreira para quem um dia esteve no topo do pódio da fama e fortuna em Hollywood, posição tão invejável quanto tênue. O verbo pode ser conjugado no presente e se aplica perfeitamente no estado atual da filmografia do outrora mega astro Mel Gibson.

Na fantasia de ação "Mate ou Morra", Gibson é reduzido a malvadão da vez. Ele não tem muito o que fazer a não ser explicar fragmentos da trama aqui e ali, declamar uma ou outra linha de diálogo de forma ameaçadora e emprestar sua figura imponente como adversário de peso para o protagonista de fato. Daí, the heavy.

É um fim de carreira agridoce, principalmente quando estamos falando do sujeito que dominou o cinemão, artística e financeiramente, do final dos anos 1980 até pouco depois da virada do século. Sua queda, causada por seu comportamento errático, ofensivo e abusivo longe dos sets de filmagem, foi uma tragédia anunciada, adiada e, por fim, executada.

Revelado em 1979 no já clássico "Mad Max", Gibson trocou a Austrália pelos Estados Unidos, enfileirando bons filmes como "O Ano Em Que Vivemos em Perigo", "Rebelião em Alto Mar" e "O Rio do Desespero" - além, claro, das continuações "Mad Max 2 - A Caçada Continua" e "Mad Max Além da Cúpula do Trovão".

O sucesso de "Maquina Mortífera" em 1987 consolidou seu status de astro, o tipo de ator que Hollywood vê o investimento valer, com habilidade em ação, comédia e drama. Gibson sempre foi bom em equilibrar filmes que brilhavam nas bilheterias ("Alta Tensão", "Maverick") com projetos mais, digamos, artísticos ("O Homem Sem Face", "Hamlet").

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A consagração veio para Mel Gibson com 'Coração Valente'
Imagem: Fox

Sua consagração veio em 1995, quando produziu, protagonizou e dirigiu o épico "Coração Valente", que lhe rendeu uma coleção de estatuetas do Oscar e o prestígio para fazer o que bem entendesse. O nome de Mel Gibson era o suficiente para tirar um projeto da gaveta, e ele seguiu cravando sucessos como "O Preço de Um Resgate", "Teoria da Conspiração", "O Troco" e "O Patriota".

"Sinais", de 2002, foi ao mesmo tempo sua maior bilheteria (US$ 400 milhões) e a última vez que o público abraçou um de seus filmes. Dois anos depois, ele criou um fenômeno global com "A Paixão de Cristo", acumulando mais de US$ 600 milhões, ao mesmo tempo em que via sua vida pessoal esfarelar.

Em 2006 ele foi preso ao dirigir embriagado. No momento de sua prisão, Gibson disparou uma avalanche de ofensas pesadas contra os judeus. As desculpas para a comunidade judaica, e a admissão pública de seus problemas com o alcoolismo, o fizeram se afastar dos holofotes. Um episódio de violência doméstica contra a namorada, a pianista Oksana Grigorieva, afundou de vez sua imagem com o público.

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Mel Gibson dirige Jim Caviezel em 'A Paixão de Cristo'
Imagem: Fox

Mel Gibson só foi reaparecer como protagonista em 2010, no drama "O Fim da Escuridão". Ninguém deu bola. Assim como ninguém prestou atenção em "Um Novo Despertar", em que ele atuou sob a direção da amiga Jodie Foster. Longe do radar dos grandes estúdios, o astro seguiu em fitas de ação B, como "Plano de Fuga" e "Herança de Sangue".

Sylvester Stallone o escalou como vilão em "Os Mercenários 3", e a posição parece ter deixado Gibson confortável. É basicamente seu papel em boa parte das produções de segunda linha, como "Last Looks", "Dangerous", "Panama" e "Agent Game". É basicamente o que ele faz em "Mate ou Morra".

Dirigido pelo competente Joe Carnahan, o filme é uma releitura (vou evitar a palavra "plágio") de "Feitiço do Tempo", com o protagonista repetindo o mesmo dia, alterando pequenos detalhes, na tentativa de a) salvar sua ex-mulher (Naomi Watts) e b) salvar o mundo, que corre o risco de acabar por conta de uma experiência temporal imperfeita.

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Frank Grillo encara Gibson em 'Mate ou Morra'
Imagem: Imagem Filmes

O papel principal é de Frank Grillo, um ator decente que os produtores contratam quando não tem cachê para pagar Ryan Reynolds ou Jake Gyllenhaal, mas ainda mantém o bom senso de não chamar Scott Adkins. É um filme divertido, barulhento, absurdo e esquecível.

E lá está Mel Gibson como o vilão de poucas palavras. Não que ele pareça se importar. Hollywood já o perdoou por seus desagravos ao lhe indicar ao Oscar de melhor diretor pelo drama "Até o Último Homem", que também concorreu às estatuetas de melhor filme, ator e edição de som, faturando os prêmios de melhor montagem e melhor mixagem de som.

Talvez Gibson não tenha a disposição de explicar sua vida perante o público. Talvez a profissão de "astro de Hollywood" tenha cobrado um preço que ele não estava disposto a negociar. Talvez seu foco seja mesmo o trabalho atrás das câmeras - ele está preparando uma continuação para "A Paixão de Cristo". Algo me diz, portanto, que ainda não ouvimos o último suspiro de Mel Gibson.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL