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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clint Eastwood em 'Cry Macho': na arte e na vida, ter experiência é tudo

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

17/09/2021 02h01

Clint Eastwood tem 91 anos. Desde 1971, e já consolidado como um dos grandes astros do cinema, saltou para detrás das câmeras e dirigiu quatro dezenas de filmes. Não como um capricho, mas como verdadeiro autor, tecendo obras-primas irretocáveis como "Os Imperdoáveis", "Menina de Ouro", "Cartas de Iwo Jima" e "Gran Torino".

"Cry Macho - O Caminho para Redenção" pode não ter o impacto de alguns de seus grandes filmes. Ainda assim é um recorte melancólico e contemplativo de um artista que há muito não precisa provar nada para ninguém. Do alto de sua estatura como ícone, tudo que Clint procura, neste caso também como protagonista, é contar uma boa história.

Baseado num livro publicado em 1975, e em seu radar desde 1988, "Cry Macho" repete alguns temas que acompanham a carreira de Eastwood. A reflexão de uma vida que nunca alcançou seu potencial. A chance para redenção ao se tornar figura paterna de um jovem problemático. A serenidade da experiência ante um mundo que traz outros valores.

macho dupla - Warner - Warner
Clint Eastwood e o jovem problemático da vez, Eduardo Mineff
Imagem: Warner

Clint é Mike Milo, que passou de uma vida de glória em rodeios à depressão do alcoolismo quando um acidente abreviou sua carreira como caubói. A tragédia pessoal que lhe tomou mulher e filho afundaram seu abismo pessoal. Para Milo, os dias se arrastam em uma rotina de simplesmente sobreviver.

Quando o encontramos, toda a mágoa também é uma sombra do passado. Seu torpor é quebrado quando um ex-chefe (papel de Dwight Yoakam) lhe incumbe da tarefa de trazer (eufemismo para "sequestrar") seu filho, sob a guarda da mãe no México. O garoto, Rafael (Eduardo Mineff), é usado como moeda de barganha, e vive nas ruas, tirando seu próprio sustento com brigas de galo. Seu campeão é, no caso, Macho.

O roteiro de Nick Schenk, que colaborou com Clint em "Gran Torino" e em "A Mula", enxuga o livro de N. Richard Nash de toda gordura. Nada de tramas paralelas explicando a relação dos pais de Rafael, nada de convenções do gênero que exigem um "vilão", nada de tensão gratuita. "Cry Macho" não é esse tipo de filme.

Isolados em uma cidade fronteiriça, esperando o momento certo de cruzar a linha para o Texas, Mike e Rafael buscam entender seu papel no mundo. O primeiro, ao refletir sobre suas escolhas e sobre o tempo que ainda lhe resta, pensa em como, pela primeira vez em muito tempo, pode fazer a coisa certa. O segundo, inebriado pelas possibilidades da juventude, descobre os sacrifícios impostos no caminho para a maturidade.

É uma história delicada, contada com vigor e uma certa ternura por um artista sem tempo a perder. É curioso como acostumamos a ler sobre "diretores visionários" e "autores revolucionários", que não raro entregam filmes cheio de brilho porém ocos. Com sua extensa carreira, Clint sabe o que faz uma história se conectar com a plateia, entende os movimentos narrativos mais básicos e os utiliza, não importa a escala, para criar arte.

A arte, independente de como se expressa, caminha no ombro de gigantes. Os melhores filmes, para ficar nesse métier, são criados por cineastas que não tem receio em escancarar sua bagagem, suas influências, os motivos pelos quais eles se apaixonaram por cinema em primeiro lugar. Não confie em quem busca criar beleza do nada: observar os mestres ainda é a melhor escola.

macho diretor - Warner - Warner
Clint exercendo seu ofício no set de 'Cry Macho'
Imagem: Warner

É um privilégio, portanto, viver em uma época em que gigantes ainda abraçam seu ofício com entusiasmo quase juvenil. Aos 74 anos, Steven Spielberg encara pela primeira vez um musical, refilmando "Amor, Sublime Amor", que tem a assinatura do lendário Robert Wise no filme original. Martin Scorsese, com 78 anos, segue renovando seu repertório e cravando pérolas que o tempo há de transformar em clássicos.

Francis Ford Coppola anunciou recentemente, aos 82 anos, que pretende investir a fortuna amealhada nas últimas décadas em seu projeto dos sonhos, "Megalopolis". E nem vou mencionar Ridley Scott, que aos 83 anos está não com um, mas com dois dos filmes mais esperados de 2021, "O Último Duelo" e "Casa Gucci".

Já perdi as contas de quantas vezes Clint Eastwood anunciou uma aposentadoria que nunca chega. Disse em "Gran Torino" que não tinha mais disposição para trabalhar na frente e atrás das câmeras - e desde então o fez mais duas vezes. Não faz nem uma década que cravou um filme com mais de US$ 500 milhões, "Sniper Americano". Ele esperou 33 anos para filmar "Cry Macho". Aos 91 anos, o tempo está do seu lado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL