PUBLICIDADE
Topo

Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Free Guy' traz o Ryan Reynolds de sempre. Mas o show é todo de Jodie Comer

Conteúdo exclusivo para assinantes
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

19/08/2021 02h29

"Detetive Pikachu". Desde que o cinema passou a enxergar os videogames como fonte viável de histórias, o que começou com "Super Mario Bros." em 1993, a aventura no universo Pokémon foi a única adaptação que não resultou em um fiasco completo. Um filme ágil, bem-humorado, com foco emocional claro e transbordando em charme. Ah, e trazia Ryan Reynolds como protagonista.

Ok, é uma absoluta coincidência que " Free Guy: Assumindo o Controle", aventura que entende à perfeição os mecanismos que misturam games e cinema, também tenha Reynolds à frente do elenco. Ao contrário de "Pikachu", em que ele emprestou sua voz ao herói digital, aqui o astro surge de carne e osso em um filme igualmente ágil, bem-humorado, com foco emocional claro e transbordando em charme. Bom, "carne e osso" é exagero.

Até porque Guy, personagem de Reynolds, não e uma pessoa de verdade - mesmo que ele acredite ser. No mundo de "Free Guy", ele é um "personagem não controlável", ou NPC na sigla em inglês. Um coadjuvante fadado a repetir sua rotina na agitada Free City, cidade constantemente invadida por hordas que roubam, depredam e tocam o terror. Tudo normal. Afinal, tudo não passa de um videogame.

free caos - Disney - Disney
Ryan Reynold em um dia absolutamente normal em Free City
Imagem: Disney

"Free City" é um jogo, aos moldes de "GTA" ou "Fortnite", em que jogadores de todo o mundo entram nesse ambiente online para ganhar pontos e evoluir - quanto mais destruição, quando mais violência, maior o score. Guy é só um personagem incidental, um ruido que serve simplesmente como alvo. Quando ele se torna consciente e passa a agir por conta própria, outros jogadores passam a procurar o "Jogador da Camisa Azul", acreditando ser alguém com skin de NPC.

Um conceito tão fantástico precisa de uma trama sólida para não se perder. Essa âncora surge com Jodie Comer. Jogadora com o nome Molotov Girl, implacável em seu avatar, no mundo real ela é a programadora Millie, que ao lado do amigo Keys (Joe Keery, de "Stranger Things"), escreveu o código-fonte que possibilita a execução de "Free City". Mas esse código foi roubado por Antwan (Taika Waititi, deliciosamente canastrão), que ficou milionário com o jogo e não divide os louros.

Millie acredita que seu código-fonte original está escondido dentro do ambiente virtual do game, o que provaria a picaretagem de Antwan. O que ninguém contava, porém, é que sua presença despertaria Guy de seu torpor digital. Ele começa a agir "fora do script" e tomar decisões que alteram fundamentalmente a narrativa do jogo - ao contrário dos players "normais" (como o sujeito que joga enquanto a mãe limpa a casa), ele jamais apela para a violência. É como se os caubóis de "Red Dead Redemption" banissem armas de fogo.

Essa atitude inusitada faz com que Guy, como a primeira inteligência artificial da história (ou primeiro algoritmo inteligente, o filme não se decide), termine como elemento fundamental para desenrolar o mistério, aliando-se a Millie para encontrar a programação oculta e, de quebra, salvar a cidade e seus habitantes. É uma corrida contra o relógio, já que o personagem de Taika prefere destruir os servidores de seu jogo do que responder por seu crime.

O diretor Shawn Levy ("Uma Noite no Museu", "Gigantes de Aço") bateu o pé ao lado de seu astro para tirar "Free Guy" da gaveta. Afinal, não se trata da adaptação de um game - ou de um livro, uma história em quadrinhos ou uma série de TV. É um produto original, animal raro na fauna hollywoodiana do século 21. O apelo para a geração gamer, porém, deu um verniz irresistível ao projeto. Abraçar dúzias de referências da cultura pop não atrapalhou.

"Free Guy" abusa de uma das convenções mais batidas do cinemão hollywoodiano, a do sujeito comum capaz de alterar todo o sistema. De "Matrix" a "Uma Aventura Lego", só para ficar em dois exemplos imediatos, essa trama se repete. A diferença está na execução. Levy e Reynolds perceberam que tinham em Jodie Comer o trunfo perfeito para ancorar a fantasia em uma história que ressoasse no mundo real.

free real - Disney - Disney
Jodie Comer e Joe Keery no mundo real em 'Free Guy'
Imagem: Disney

No papel duplo de Millie e Molotov Girl, a estrela da série "Killing Eve" serve como nossos olhos. É ela o gatilho para a trama caminhar, é ela que traduz nossa surpresa ao perceber que Guy não é mais um jogador do mundo real, e sim um amontoado de pixels que desenvolveu consciência e personalidade.

É com ela que acompanhamos as entrelinhas sobre jogadores tóxicos (infelizmente a regra no mundo dos games online) e sobre o roubo de propriedade intelectual (um problema crescente na indústria do entretenimento). Sua naturalidade ao transitar em dois mundos transforma o conceito de "Free Guy" em uma história sobre pessoas, e não sobre coisas.

Ao lado de Jodie Comer, aflora também o charme natural de Ryan Reynolds, que lapidou à perfeição o personagem meio abobado, super bem-intencionado e com cinismo zero. Escolher o parceiro de cena perfeito não é fácil, mas "Free Guy", cuja lógica interna por vezes peça que estiquemos o limite de nosso ceticismo, segue suave sempre que ambos dividem a cena.

free taika - Alan Markfield/Photo by Alan Markfield - Alan Markfield/Photo by Alan Markfield
Taika Waititi e o diretor Shawn Levy no set de 'Free Guy'
Imagem: Alan Markfield/Photo by Alan Markfield

Essa mistureba podia se tornar indigesta. "Jogador Número Um" foi uma tentativa de juntar vários quintais do entretenimento em um único quadrado, mas faltou leveza ao mestre Steven Spielberg com seu almanaque de personagens pop. "Free Guy", por sua vez, equilibra bem o absurdo com o mundano e não tem medo de ser ridículo - você vai entender quando descobrir quem é o "Dude".

Tudo isso vem embalado em um filme envolvente e criativo, esteticamente estimulante e absolutamente irresistível. Nada mal para uma ideia original. A ironia é que, como todo o resto no entretenimento moderno, é bem provável que "Free Guy" torne-se ele mesmo uma propriedade intelectual valiosa e cheia de derivados. Isso é Hollywood.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL