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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Willy Wonka': 50 anos do filme que nos ensinou a ser criança

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/07/2021 04h13

Willy Wonka recebe seus convidados nos portões de sua fábrica de chocolate. Recluso, ele caminha com o auxílio de uma bengala, em silêncio, com cuidado. Até que desaba no chão e, com uma cambalhota, salta e fica em pé ante a plateia atônita, com um sorriso misterioso, sinalizando o começo de uma grande aventura.

Isso aconteceu há 50 anos, quando Gene Wilder encarou o desafio de encabeçar "A Fantástica Fábrica de Chocolate", adaptação do livro de Roald Dahl comandada por Mel Stuart. Abraçando provavelmente seu papel mais emblemático, o próprio ator criou aquele momento, plantando a dúvida acerca de sua natureza na mente das pessoas prestes a visitar sua fábrica, traçando uma linha tênue entre o real e o lúdico - exatamente o sentimento de quem acompanhava o filme do lado de cá.

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O diretor Mel Stuart no set com Gene Wilder e Peter Ostrum
Imagem: Warner

Como todo mundo de minha geração (eu já vacinei, faz as contas), descobri "A Fantástica Fábrica de Chocolate" na TV. Fui numa época antes do VHS, em que o streaming era coisa de ficção científica. Pescar um filme bacana na televisão era uma loteria, uma combinação de programação pelo jornal e sorte de estar em casa no dia certo e na hora certa.

"Sorte" era a definição exata de repetir uma sessão da fantasia musical conduzida por Wilder. Muito antes de o cinema firmar sua produção em produtos infanto juvenis e propriedades intelectuais, quando cultura pop sequer era termo existente no léxico, "A Fantástica Fábrica de Chocolate" era o passaporte para uma aventura mágica, empolgante, assustadora e emocionante.

Adaptado do livro "Charlie and the Chocolate Factory", o filme acompanha a um menino pobre, Charlie (Peter Ostrum, em seu único filme), que encontra um ingresso dourado escondido em uma barra de chocolate. O prêmio é visitar, ao lado de outras quatro crianças sorteadas ao redor do mundo, a fábrica de propriedade do recluso Willy Wonka.

O que se segue é uma aventura que foi além de estimular a imaginação. A história tecida por Dahl (que, por sinal, nunca gostou do filme) é uma lição de moral. Cada uma das crianças que acompanha Charlie - Augustus Gloop, Veruca Salt, Violet Beauregarde e Mike Teevee - representa uma falha de caráter, acentuada por suas ações e consequência ao longo da visita.

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Willy Wonka apresenta sua fábrica a seus visitantes
Imagem: Warner

Para sublinhar essa narrativa, Dahl fez da fábrica um ambiente lúdico, com ambientes mágicos e surpresas atrás de cada porta. O mistério em torno de sua natureza advém da decisão de Wonka em demitir todos os seus funcionários e fechar as portas, reabrindo a produção de chocolate três anos depois, mas de forma misteriosa. O que Charlie, acompanhado de seu avô, descobre é que o trabalho é feito por novos empregados, uma legião de homens pequeninos e iguais chamados Oompa-Loompas.

É deles que parte cada canção que aponta a falha moral dos visitantes e acompanha o destino de cada criança. Para o filme, Mel Stuart extrapolou os números musicais descritos no livro, exclusividade dos Oompa-Loompas, e criou canções para as crianças e também para o próprio Willy Wonka - "Pure Imagination" é um convite inquietante para desvendar suas ideias.

"A Fantástica Fábrica de Chocolate" trouxe uma mistura de estilos e temas. Desde "O Mágico de Oz" um filme "para a família" não abraçava um o caldeirão de gêneros (musical, aventura, comédia e até terror) em uma trama sobre amadurecimento e responsabilidade, sobre abandonar a infância e a impetuosidade e retornar ao mundo sob outro prisma. Não é um filme sobre formação de caráter, mas certamente foi responsável por estimular ideias e noções do certo e errado em crianças em todo o mundo.

Curiosamente, o filme não foi um sucesso em seu lançamento. Os críticos tiveram opiniões conflitantes sobre sua execução e o resultado nas bilheterias foi pífio - o público parecia interessado na intensidade de "Perseguidor Implacável" e Operação França". Seu status cult, porém, foi solidificado com as constantes reprises na TV nos anos 1980 e com a popularização do videocassete.

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Wonka e sua força de trabalho, os Oompa-Loompas
Imagem: Warner

Essa exposição fez com que "A Fantástica Fábrica de Chocolate" angariasse fãs fervorosos, que aos poucos lapidaram seu lugar na cultura pop. "Veruca Salt" batizou uma banda de rock pós grunge em 1992 (eles são bons, arrisque "Seether" e dance na sala). Tim Burton colocou Johnny Depp em seu remake (bem decente, por sinal) lançado em 2005.

A sequência mais assustadora do filme original, com Wilder conduzindo as crianças em um barco sinistro por um rio de chocolate, foi homenageada por Taika Waititi em "Thor: Ragnarok". O próprio Willy Wonka virou meme - acompanhado de um "diga-me como" e uma expressão complacente. Um novo filme, contando a origem de Willy Wonka, está sendo produzido com Timothée Chalamet no papel principal.

Se o tempo é o melhor termômetro para aferir um sucesso, é possível dizer que, após cinco décadas, "A Fantástica Fábrica de Chocolate" cumpriu sua missão. Como aventura infantil, como musical empolgante, como lição de moral. Sua longevidade é um testamento principalmente do talento magnético de Gene Wilder, que surge como uma figura, às vezes afável, outras assustadora, determinado a nos arrancar de nossas amarras infantis e assumir responsabilidades, sem nunca fechar as portas para nosso maior atributo: a capacidade infinita de sonhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL