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Roberto Sadovski

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Rogai Por Nós': Como saltar de contos de fadas para um filme de terror

O Mal é a ameaça no thriller "Rogai Por Nós" - Sony
O Mal é a ameaça no thriller 'Rogai Por Nós' Imagem: Sony
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

24/06/2021 03h30

"A Pequena Sereia: A História de Ariel". "Tinker Bell e o Tesouro Perdido". "O Caçador e a Rainha do Gelo". "A Bela e a Fera". O currículo do roteirista Evan Spiliotopoulos não grita exatamente "filmes de terror!".

Ainda assim, ele fez sua estreia como diretor em "Rogai Por Nós", thriller sobrenatural na linha de "O Exorcista", com entidades malignas, jovens possuídas e pavor religioso. Algo está muito errado. Ou está muito certo!

"A maioria dos filmes que eu escrevi, incluindo os live action, são contos de fadas. Ok, 'Hércules' é um mito, não um conto de fadas, mas é uma questão semântica", diverte-se Spiliotopoulos, que me recebeu para um papo virtual.

rogai jeffrey - Sony - Sony
Jeffrey Dean Morgan é o jornalista gonzo Gerry Fenn
Imagem: Sony

"Se você ler os contos originais dos Irmãos Grimm, eles são histórias de terror. São sombrios e sangrentos. Basicamente todos são filmes do Guillermo Del Toro."

"Rogai Por Nós" é, por tabela, um conto de fadas sombrio e sangrento, uma mistura de estilos que adapta o romance "Santuário", escrito por James Herbert em 1983. Exibido nos cinemas, o filme chega agora às plataformas de video on demand.

"Eu li o livro quando era adolescente e sempre quis adaptar para o cinema", continua. "O projeto ficou parado por anos sem nenhuma tração, até que o estúdio me chamou para dirigir porque eu conhecia a história de olhos fechados."

Ter trabalhado no texto histórias de fantasia terminou como uma vantagem para Evan. "Trocar o mundo dos contos de fadas pelo mundo do terror é um movimento lateral, porque filmes sobrenaturais são contos de fadas sombrios", explica. "Tudo que fizemos foi remover a moldura religiosa e colocar Mary Elnor, uma bruxa má, e pronto! Seria mais complicado se eu fizesse um drama denso sobre órfãos ou algo parecido."

Mary Elnor é uma mulher enforcada e incendiada em 1845 sob acusação de bruxaria. Seu espírito ressurge nos dias de hoje, usando a jovem Alice como canal para fazer "milagres" - no processo, angariando espíritos para o demônio. Um jornalista de tabloide, Gerry Fenn (Jeffrey Dean Morgan), investiga a história como uma farsa até perceber a verdadeira natureza do mal que precisa enfrentar.

ANTÍTESE DE TUDO QUE É BOM

"Eu adoro filmes que combinam gêneros, e esse mistura o estilo clássico de terror de 'O Exorcista' com um thriller jornalístico de primeira, como 'Spotlight'", continua o diretor.

"Sem falar que o tempo que levamos para fazer o filme foi até benéfico, já que o termo fake news agora faz parte do zeitgeist." O elemento sobrenatural, ressalta, é uma metáfora: "É aquilo que foge do controle e volta para chutar seu traseiro".

Filmes de terror que adicionam um elemento religioso, de "O Exorcista" a "O Bebê de Rosemary", lidam com um tipo diferente de medo, aquele que não pode ser enfrentado com uma ação física. "Gosto de histórias que tentam entender a natureza do demônio", elabora Spiliotopoulos.

"Ele pode ser uma entidade maligna, a representação do Mal, ou uma invenção, um contraponto oferecido pela Bíblia para promover um debate", continua. "O demônio é assustador como personagem porque, nos filmes, ele é a antítese de tudo que é bom."

Em "O Exorcista" ele invade nosso quarto. Em "O Bebê de Rosemary" ele invade o útero. Em "A Profecia" ele invade a igreja. "O mais assustador nesses filmes é perceber que não existe um lugar seguro", admite. "Nem mesmo nosso próprio corpo."

rogai evan - Sony - Sony
Sam Raimi no set com o diretor Evan Spiliotopoulos
Imagem: Sony

O mundo real apresentou um outro tipo de desafio com a pandemia do coronavírus, que interrompeu as filmagens, retomadas posteriormente com protocolos de segurança rígidos.

"O tempo é o pior inimigo de um diretor", explica. "A pandemia nos tomou tempo e também figurantes, que foram basicamente eliminados de cenas em espaços fechados."

A maior consequência em "Rogai Por Nós" foi o uso de efeitos digitais para materializar a manifestação monstruosa de Mary Elnor. A atriz Marina Mazepa ainda está em cena em 70 por cento das cenas, mas quando ela remove sua máscara foi impossível usar efeitos práticos.

"Não havia como uma equipe de maquiagem trabalhar com ela para criar seu visual queimado", conta Evan. "Então resolvemos suas feições com animação digital."

O TOQUE DO MESTRE

"Rogai Por Nós", além de sua estreia atrás das câmeras, foi também um sonho de criança realizado para Evan Spiliotopoulos. "Quando eu topei dirigir, pedi ao estúdio que trouxesse um adulto para segurar minha mão", brinca. "E eles trouxeram Sam Raimi como produtor."

Para um garoto educado com o cinema dos anos 1980, Raimi é um dos maiores ícones. "Além de ele ser um mestre, Sam domina tudo em relação à tradição de fazer cinema, além de ser o sujeito mais doce, humilde e acessível que você possa imaginar", conclui, empolgado. "Todos os dias eu queria fingir que estava doente só para ele assumir o projeto e o mundo ganhar mais um filme de terror de Sam Raimi."