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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com show de Tom Hiddleston, 'Loki' expande a Marvel com ambição e estilo

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

09/06/2021 04h25

"Loki" mostra o quanto a Marvel é boa em reinventar - e reinvestir - seu passado. A nova série, encabeçada com toneladas de charme por Tom Hiddleston, espalha um verniz de novidade em uma história que acompanhamos há mais de uma década. Ainda assim, a série prova que, dentro de um universo em constante expansão, ainda há espaço para novidade.

Terceira série do estúdio em streaming este ano, "Loki" também se mostra a mais interessante. Depois da experiência estética de "WandaVision", e da rigidez narrativa de "Falcão e o Soldado Invernal", a nova aventura ganha pontos ao colocar o Deus da Trapaça sob o holofote. Já não era sem tempo.

Loki, afinal, passou de vilão em "Thor" a um dos personagens mais complexos, perigosos e divertidos da Marvel. Um naco enorme desse mérito vai para Tom Hiddleston, que desde o começo entendeu a dualidade do príncipe asgardiano e fez com que sua presença se tornasse o ponto alto das aventuras de seu irmão.

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Tom Hiddleston ao lado de Chris Hemsworth em 'Thor', sua estreia na Marvel
Imagem: Marvel/Disney

Foi assim em sua lenta conversão para o lado dos mocinhos em "Thor: O Mundo Sombrio" (um filme menor no universo Marvel) a sua atuação cômica em "Thor: Ragnarok" (em que ele se destacou mesmo com seus colegas inspirados), amarrando um arco dramático que foi encerrado com sua morte pelas mãos de Thanos em "Vingadores: Guerra Infinita".

A história de Loki, porém, não só estava longe de ser encerrada como seu destino em "Vingadores: Ultimato" abriu novas possibilidades. Na aventura de 2019, os heróis viajam no tempo para recuperar as Jóias do Infinito e reverter os atos genocidas do vilão Thanos.

Ao visitar a linha temporal em que a equipe se reuniu contra uma invasão alienígena em Nova York, retratada em "Os Vingadores", Loki encontra-se derrotado. Mas o destino coloca mais uma vez em suas mãos o Tesseract, cubo que abriga a Joia do Espaço, e Loki consegue escapar.

A série começa exatamente nesse ponto. Ao fugir de seu destino, o Deus da Trapaça causa um distúrbio na linha temporal e termina cativo da Autoridade da Variação do Tempo (ou "TVA"), uma organização cósmica que monitora o fluxo temporal para garantir que nada o perturbe, mantendo a integridade do multiverso.

Aqui já temos um dos grandes achados de "Loki". O personagem nesse momento ainda não experimentou sua redenção, não testemunhou a morte de sua mãe, Frigga, e sequer encontrou um equilíbrio em seu relacionamento com Thor. Loki, aqui, é o sujeito frustrado, egocêntrico, arrogante e furioso que tentou conquistar um trono ao conquistar a Terra.

Tudo isso é apresentado pelo segundo trunfo de "Loki". Como o agente Mobius, uma das peças fundamentais da TVA, Owen Wilson mostra-se o complemento perfeito para o Loki de Tom Hiddleston. Mobius não cai em suas mentiras e logo o desarma com honestidade desconcertante. "Você quer um trono na Terra", ele diz. "Ok, mas e depois?" O silêncio é a resposta.

Loki, veja bem, é uma anomalia que não tem espaço na linha do tempo reconstruída ao final de "Ultimato" - ao vislumbrar seu futuro, que jamais terá a chance de vivenciar, ele percebe que seu destino é ser apagado do espaço-tempo. Mobius, por sua vez, precisa do asgardiano vivo, para que ele o ajude em uma missão: capturar uma "variante" que tem bagunçado o multiverso, ameaçando o próprio tecido da realidade. Só Loki pode capturar essa variante - e o motivo é uma das reviravoltas bacanas do começo da série.

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Em 'Loki', Tom Hiddleston e Owen Wilson são uma dupla quase perfeita
Imagem: Marvel/Disney

Uma das grandes habilidades da Marvel desde que fez seus personagens saltarem das páginas dos quadrinhos para o cinema (e agora para o streaming) é a de não se repetir. Seus filmes trafegavam por gêneros diferentes, e o raciocínio não mudou na nova plataforma.

"Loki" não se encaixa em nenhum estilo reconhecível, embora traga ecos de "Arquivo X" e de "Brazil, o Filme", abordando uma dupla incompatível investigando fenômenos paranormais, ao mesmo tempo em que lidam com um ambiente tomado pela burocracia e pelo mistério. O melhor de tudo: a série não se leva tão a sério e sabe encarar seu conceito absurdo com leveza e humor.

Claro que explicar qual é a da nova série exigiu um bocado de exposição por parte de seus criadores, fazendo com que boa parte de "Loki" concentre-se, ao menos nos dois primeiros episódios, em diálogos intermináveis entre Wilson e Hiddleston. Isso seria um problema se os personagens não estivessem na mão de intérpretes tão habilidosos que se completam de maneira tão orgânica.

Se Owen Wilson exala sua habitual sabedoria zen-surfista, mantendo-se impassível com o papo furado de seu novo aliado, Tom Hiddleston abraça essa nova interação de Loki com uma mistura de ameaça e ternura: ele sabe que chegou a um ponto sem saída, entende sua posição indevida no grande xadrez cósmico e tenta integrar-se ao time. Ao mesmo tempo, existe aquela fagulha no canto do olho denunciando que ele só espera o momento certo para virar a mesa a seu favor.

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Loki vê uma coleção de 'greatest hits' de sua vida
Imagem: Marvel/Disney

Tudo isso chega embalado na competência habitual da Marvel. O mundo criado em "Loki", especialmente a TVA, apresenta escopo incomum em uma série de TV. A direção de arte salta da sensação sufocante em ambientes fechados e simétricos para as possibilidades infinitas abertas por uma série que lida com viagens no tempo.

Claro que, a longo prazo, "Loki" trará ramificações com outros produtos Marvel, em especial "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", que traz Sam Raimi dirigindo Benedict Cumberbatch e Elisabeth Olsen em uma aventura que supostamente aborda as realidades paralelas sugeridas em "Loki".

Por outro lado, a nova série pode ser encarada como um drama de mistério ambientado em um mundo de fantasia, conceito que raramente ganha execução tão caprichada fora da grandiosidade do cinema. Quando a Marvel quebra os caminhos narrativos mais seguros, o resultado sempre é mais atraente.

Ter Tom Hiddleston como âncora, finalmente assumindo seu papel de protagonista que o estúdio ensaiou por uma década, é um bônus. Sua jornada em "Loki" sugere uma gama infinita de possibilidades, um thriller fora das "grandes sagas" da Marvel, protagonizado por uma dupla de viajantes do tempo que não se bicam. Um bom ponto de partida que não sugere, nem por um segundo, como tudo pode terminar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL