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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Angelina Jolie volta aos anos 1990 em um thriller decente e descartável

Angelina Jolie em "Aqueles Que Me Desejam a Morte" - Warner
Angelina Jolie em 'Aqueles Que Me Desejam a Morte' Imagem: Warner
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

26/05/2021 20h47

"Aqueles Que Me Desejam a Morte" estreia agora, em pleno século 21, mas poderia ser em 1995. O diretor Taylor Sheridan, que escreveu "Sicario" e "A Qualquer Custo", e dirigiu o ótimo "Terra Selvagem", apostou em uma fórmula de cinema de ação que, convenhamos, nunca envelhece. É a versão com gente de verdade daqueles desenhos que a gente pinta usando números, tudo calculado, sem surpresas e muito eficiente.

A combinação envolve um protagonista, uma pessoa comum que se recupera de uma tragédia, uma trama que envolve bandidos inescrupulosos e um clímax que fará nosso herói encarar seus piores medos para salvar o dia. Ambientações incomuns são um tempero. Se for adaptado de um romance de aeroporto, descartável entre um destino e outro, melhor ainda.

jolie moleque - Warner - Warner
Adolescente irritante: Finn Little (quase) foge dos clichês com Angelina Jolie
Imagem: Warner

É o tipo de filme ligeiro perfeito para Angelina Jolie, que ensaia retomar a frequência à frente das câmeras. A atriz mudou o foco depois de "O Turista", quando passou a se dedicar mais à direção. O tempo de um diretor, porém, demanda mais que o de um ator, e ela decidiu por uma dedicação maior à família, o que é possível quando sua única preocupação é atuar.

Não é de se estranhar, portanto, a aposta em uma produção segura como "Aqueles Que Me Desejam a Morte". Apesar do aroma de naftalina, o estilo ainda encanta e empolga uma boa fatia do público, mesmo mais investido em grandes espetáculos e grandes marcas. É o tipo de cinema que mantém a engrenagem girando.

Além disso, é um também produto com longevidade, bem ao estilo "Risco Total" (com Stallone), "Morte Súbita" (com Van Damme) e "Limite Vertical (com... Chris O'Donnell?), que funciona bem na TV - agora em streaming, claro -, como programa de poltrona, para curtir em casa com o cérebro amortecido.

A "protagonista trágica" é Hannah Faber, bombeira e paraquedista que trabalha no combate de incêndios em florestas. Ela perde um colega e vê três crianças consumidas pelo fogo em uma ação, entrega-se à bebida e desconta os instintos auto destrutivos ao assumir uma torre de vigilância solitária em meio à floresta.

O caldo entorna quando um par de matadores profissionais, ao perseguir um adolescente que testemunhou o assassinato do próprio pai, ateia fogo na floresta para distrair as autoridades quando o serviço sai do controle. Hannah enxerga-se, então, na posição de protetora, encarando os vilões e a mesma ameaça flamejante que lhe marcou a vida.

A premissa difere levemente do livro original de Michal Koryta (que aqui é um dos roteiristas), mas aborda basicamente os mesmos temas: família, redenção, confiança - tudo embalado em um pacote super bem produzido e escrito com rombos de lógica gigantescos. O que, convenhamos, é procedimento padrão no cinema de ação de almanaque.

jolie fogo - Warner - Warner
O fogo queima (quase) tudo em 'Aqueles Que Me Desejam a Morte'
Imagem: Warner

Ainda é curioso nos dias de hoje ver o investimento ocasional de grandes estúdios em filmes assim, ancorados por um astro (no caso, Jolie), salpicado de bons atores (Jon Bernthal, Nicholas Hoult e até Tyler Perry) e com cada centavo do orçamento visível em cena. O fogo, quando o incêndio climático toma toda a tela, é quase um ser vivo, engolfando com voracidade quem estiver pela frente. Dinheiro bem gasto.

Para Angelina Jolie, "Aqueles Que Me Desejam a Morte" não fica longe de seu elemento. De "Tomb Raider" a "Salt", passando por "Sr. e Sra. Smith", a atriz sempre se deu bem em filmes de ação, especialmente quando há uma fresta para conferir caráter e humanidade a um personagem. Ela tem no jovem Finn Little, o adolescente em fuga, um bom parceiro de sparring.

É um intervalo, um respiro antes de ela encarar mais uma produção global, que chega em novembro com a grife Marvel na forma da aventura épica "Eternos". Mesmo assim, "Aqueles Que Me Desejam a Morte" não deixa de ser um produto decente e divertido, ainda que descartável. Às vezes é tudo que precisamos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL