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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Afinal, por que 'Marighella', de Wagner Moura, não é lançado em streaming?

Wagner Moura dirige Seu Jorge no set de "Marighella" - Paris/O2
Wagner Moura dirige Seu Jorge no set de 'Marighella' Imagem: Paris/O2
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

14/05/2021 04h00

"Te mandei um link por e-mail." Achei estranha a mensagem de um conhecido aparecendo do nada no telefone, até por ser uma pessoa de pouco contato, e fui ver qual era. O tal link era de uma cópia de "Marighella", biografia dirigida por Wagner Moura que ainda não chegou aos cinemas. Uma cópia vazada, que logo se espalhou pela internet. Uma cópia ilegal.

Não vou, de forma alguma, fazer nenhum julgamento sobre a turma que se apressou em assistir ao filme. Existe a demanda, existe o assunto que está mais do que nunca em evidência. Existe a pandemia, que deixou os cinemas vazios e muito cinéfilo órfão. O que muita gente questionou, afinal, foi a demora de o filme estrear. A engrenagem, veja bem, não é tão simples assim.

"Marighella" foi rodado em 2018, estreando em fevereiro do ano seguinte no Festival de Berlim, sob aplausos - coisa que nem sempre acontece em festivais desse porte. A estreia de Wagner Moura como diretor foi coroada pela crítica, mas não fugiu da polêmica, em especial pela escalação de Seu Jorge para viver o protagonista - uma escolha criativa defendida por Wagner, que não quis contar uma história sobre questões sociais sem abordar também o racismo.

Com a repercussão, uma estreia foi cravada no Brasil ainda em 2019, mas a data teve de ser adiada por questões burocráticas envolvendo a produção. Uma nova estreia foi marcada com os problemas já sanados, mas o começo da pandemia do coronavírus que cobriu o mundo em 2020 fez com que os planos da estreia fossem mais uma vez interrompidos. "Marighella" seguiu na gaveta.

A ansiedade só aumentou entre os entusiastas pela biografia do guerrilheiro, escrita por Mário Magalhães. Afinal, Marighella morreu em 1969 no auge da ditadura militar que engolfou o Brasil por duas décadas. Como é comum no ambiente virtual do novo século, teorias e possibilidades sobre um lançamento em streaming passaram a dominar a discussão. A indústria do cinema nacional, porém, segue regras.

Em tese, quando um filme é financiado com recursos públicos, seja por Lei do Audiovisual, pelo Fundo Setorial ou por editais, ele precisa ser lançado comercialmente em cinemas. Não existe a possibilidade de esse lançamento ser feito em streaming, pois configuraria uma quebra de contrato com a Ancine.

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Seu Jorge em 'Marighella'
Imagem: Paris/O2

"Na pandemia, os filmes financiados pela Ancine entraram numa fila esperando para ser lançados", explica Fabiano Ristow, editor do portal Filme B, que cobre a indústria do cinema no Brasil. "Algumas distribuidoras não quiseram esperar e deram um jeito para cumprir as regras."

Foi o caso da comédia "No Gogó do Paulinho", produzida com recursos da Ancine e que teve lançamento em uma única sala, com uma única sessão, na cidade de Altamira, no Pará. Regra cumprida, o filme foi então vendido à Amazon Prime. O mercado exibidor não reage soltando rojões, mas durante a pandemia as regras tradicionais foram muitas vezes esticadas.

Ristow aponta que, no caso de "Marighella", podem existir outras cláusulas no contrato que impedem que seu lançamento salte os cinemas, como acordos com patrocinadores e marcas que possam surgir inseridas na narrativa. Mas a questão, entende, é financeira.

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Bruno Gagliasso em 'Marighella'
Imagem: Paris/O2

"Estamos falando de um filme grande e caro, que com certeza se pagaria com a bilheteria", explica. "No caso de "Marighella", o tracking é enorme", completa, referindo-se ao acompanhamento da demanda pelo filme junto ao público. A previsão é que um lançamento em cinema renderia muito mais do que um valor que possa ser proposto por um serviço de streaming.

A demora, claro, abre espaço para as vias alternativas. "Marighella" estreou nos Estados Unidos em 30 de abril, disponibilizado em algumas plataformas digitais para usuários no país. A exemplo do que acontece com filmes que chegam em plataformas como HBO Max e Disney+, o vazamento com imagem e som de qualidade era inevitável.

Entrei em contato com a assessoria do filme do Brasil, para saber como seguem os planos de seu lançamento. A estratégia permanece a mesma: "Marighella" chega aos cinemas oficialmente no segundo semestre. E é no cinema que eu pretendo assistir. Deletei o link que me enviaram sem pensar duas vezes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL