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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Os 75 anos de um clássico de animação Disney que você não pode assistir

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

23/04/2021 02h40

Em 1946 a Disney lançou sua primeira animação depois do fim da Segunda Guerra Mundial. "Música, Maestro!" é uma antologia com dez curtas em animação que traçam pequenos números musicais amparados por estilos apreciados na época.

Mas será difícil celebrar seus 75 anos com uma sessão. De todas as animações do estúdio do Mickey disponíveis na plataforma Disney+, de "Branca de Neve e os Sete Anões" a "Raya e o Último Dragão", sem contar os filmes da Pixar, "Música, Maestro!" é a única ausência.

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'Uma Baleia na Ópera'
Imagem: Disney

Embora o estúdio nunca tenha explicitado seus motivos para manter a antologia no cofre, o histórico da Disney, e também de outras produtoras, para lidar com alguns de seus filmes das décadas de 1930 e 1940, sugere que temas abordados em animações antigas possam ecoar racismo, sexismo e outros preconceitos que, comuns à época, não são (e nem devem ser) mais tolerados na sociedade atual.

A solução adotada para não interferir com o registro cultural histórico é um aviso antes de sua exibição e um link com textos que possam estimular uma discussão sobre retratos da sociedade que hoje são ofensivos. Um exemplo recente foi a polêmica levantada após a inclusão de "E o Vento Levou" no catálogo da HBO Max nos Estados Unidos.

Com o mundo evoluindo e a preocupação com diversidade e representatividade no cerne do debate cultural, é uma demonstração de respeito por parte dos estúdios apontar quaisquer conteúdos que hoje possam ser ofensivos e promover uma discussão sobre como o retrato de minorias e de estereótipos, embora parte da construção cultural americana, devem ser combatidos hoje em dia. Aprender com o passado é a melhor forma de não repeti-lo.

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'O Lápis Musical'
Imagem: Disney

Embora alguns filmes disponíveis na Disney+ sejam acompanhados de um texto que contextualiza sua época, ressaltando que algumas situações não refletem os valores da empresa nem naquela época e nem nem hoje, "Música, Maestro!" permanece indisponível. Entre os dez curtas que compõe a antologia, é possível identificar alguns que poderiam ser problemáticos hoje. "A Balada dos Camponeses" traz diversão com armas de fogo, enquanto "O Lápis Musical" capricha nos traços sensuais de alguns de seus personagens. Já "Uma Baleia na Ópera" traz tintas que reforçam estereótipos racistas e profanos.

Alguns dos curtas, como "A Balada dos Camponeses", já haviam sido riscados de "Música, Maestro!" décadas atrás, quando o filme foi lançado em DVD. Mesmo que não exista uma cópia em blu ray, ou mesmo disponibilidade em streaming, é possível encontrar alguns segmentos no YouTube (acredite, vale a pena procurar!).

Um deles é particularmente importante para mim. "Pedro e o Lobo", que adapta a composição clássica do compositor russo Serguei Prokofiev, fez parte de minha infância como uma história narrada em compacto de vinil. Um garotinho russo sai à caça de um lobo acompanhado de um grupo de animais, cada um representado por um instrumento musical. Foi a minha introdução ao som de instrumentos como flauta, violino e oboé.

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'Pedro e o Lobo'
Imagem: Disney

Com a ausência de "Música, Maestro!" na Disney+, essas lembranças ficam no fluxo do tempo. Mas sigo na esperança de o filme experimentar um lançamento, possivelmente acompanhado de um texto que promova a discussão e a contextualização de seus temas e abordagens. Assim uma maratona com todos os longas de animação Disney estaria completa.

Claro que um produto do estúdio provavelmente nunca sairá dos cofres da Disney. É "A Canção do Sul", que não apenas sugere o racismo, mas o glorifica de maneira explícita. Como por exemplo quando seus protagonistas, negros, cantam as benesses de trabalhar em campos de algodão - o que remete à época da escravatura nos Estados Unidos. Em novembro o filme também completa 75 anos de seu lançamento. Mas essa é uma clássico que ninguém se sentiria confortável para celebrar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL