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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sabe quem não ganha nada com super-heróis no cinema e TV? Seus criadores!

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

15/04/2021 18h50

Ed Brubaker é um nome importantíssimo para a Marvel hoje. Ao lado do desenhista Steve Epting ele recuperou o personagem Bucky Barnes em 2005, depois de décadas considerado morto no universo Marvel, para reapresentá-lo como o Soldado Invernal. Foi uma ideia genial para os gibis do Capitão América, mas significou mais ainda quando o personagem migrou para o cinema.

Hoje, ele protagoniza a série da Disney+ "Falcão e o Soldado Invernal", depois de conduzir a trama de dois filmes encabeçados pelo Capitão América, "O Soldado Invernal" e "Guerra Civil". Em teoria Brubaker devia estar engordando sua conta bancária com um cheque gordo da Disney. Na prática ele ganha mais dinheiro por uma ponta no filme batizado com sua criação.

"Eu ganhei mais dinheiro com o percentual garantido pelo sindicato dos atores do que por ter criado o personagem", disse o roteirista em uma entrevista recente. "Eu tinha uma linha de diálogo em 'O Soldado Invernal' e, mesmo sendo cortada da versão final do filme, ainda ganho meus trocados." Brubaker chegou a trocar um cheque por um mero agradecimento em "Guerra Civil" por considerar o valor tão baixo quanto ofensivo.

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Sebastian Stan é o Soldado Invernal, criação do roteirista Ed Brubaker
Imagem: Marvel/Disney

Pode parecer um escorregão por parte da Disney, mas a prática é regra em relação ao tratamento dispensado a criadores de quadrinhos. O motivo é simples: artistas são contratados para trabalhar em uma editora e são pagos por isso - mas todo o fruto de sua criatividade pertence à empresa. Vemos o criador de Deadpool, Rob Liefeld, ser seu maior defensor em todas as mídias - mas ele não recebeu um centavo pelos dois filmes protagonizados por Ryan Reynolds.

Claro que cada empresa desenha contratos diferentes. A Marvel, por estar hoje sob a aba da Disney, provavelmente traz em seus acordos com criadores as cláusulas mais draconianas, em que só advogados habilidosos conseguem garantir equilíbrio financeiro para ambas as partes.

Que o diga Jim Starlin, criador do titã louco Thanos. É indiscutível que o principal antagonista dos heróis Marvel, desenvolvido nos filmes de seu universo compartilhado ao longo de uma década, passou de coadjuvante nos gibis a protagonista no cinema, à frente de dois "Vingadores" que renderam bilhões de dólares aos cofres do estúdio. Nenhum foi para o bolso de seu criador.

O ínfimo percentual que Starlin possa receber vem da ponta que ele faz nas cenas iniciais de "Vingadores: Ultimato". Porque é assim que o contrato com a Marvel funciona. O artista, ativo nos quadrinhos de super-heróis com sua criatividade infinita desde os anos 1970, bizarramente ganhou mais quando uma de suas criações apareceu em um filme da concorrência. O personagem KGBesta, vilão dos gibis do Batman, surge rapidamente em "Batman vs. Superman", o que garantiu uma carteira forrada a seu criador.

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Aquele à esquerda? Atrás do Robert Redford? É Ed Brubaker
Imagem: Marvel/Disney

A relação das editoras com os criadores dos super-heróis mais famosos do mundo sempre foi conturbada. Quando os personagens passaram a migrar para outras mídias, os contratos passaram a ser vistos com mais atenção, mesmo que eles tenham de ser jogados na arena da opinião pública para lograr algum êxitos aos artistas.

É o caso de Jerry Siegel e Joe Schuster, adolescentes quando, em 1938, publicaram na primeira edição do gibi "Action Comics" o herói que seria a régua para tudo que veio em seguida: o Superman. Siegel e Schuster queriam colocar sua criação no mundo, sendo que os direitos de sua criação ficaram com a editora, a National Comics, que logo se tornaria a DC.

Quatro décadas depois de criar (e vender) o Superman, a dupla penava para pagar as contas, enquanto o Homem de Aço enchia os cofres da editora. Foi somente quando Richard Donner dirigiu "Superman, o Filme" em 1978, creditando sua criação a Siegel e Schuster, que o contrato original foi revisto e uma pensão foi dedicada a eles. Mesmo após sua morte a questão dos direitos permaneceu no ar, sendo resolvida com um arranjo com suas famílias há pouco mais de uma década.

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Jerry Siegel e Joe Schuster, criadores do Superman, em 1975
Imagem: © Bettmann/CORBIS

A coisa na Marvel não é muito diferente. Stan Lee negociou um valor anual desde que se desligou das funções administrativas e editoriais na empresa, agindo mais como um garoto-propaganda até sua morte há poucos anos. Seu parceiro na confecção do Universo Marvel, porém, não teve a mesma sorte. Até pouco tempo os herdeiros de Jack Kirby, criados do Pantera Negra, Thor, Hulk e Capitão América, entre dezenas de outros, ainda batiam cabeça nos tribunais para garantir os direitos do artista.

Nos últimos anos, a verticalização das operações de grandes conglomerados de mídia colocou suas propriedades intelectuais como fonte criativa e financeira em um sem número de plataformas. Hoje o Batman não é apenas protagonista de um filme, mas centro de uma ação que envolve streaming, games, TV e quadrinhos, de forma mais integrada possível para atingir a demanda de um público cada vez mais exigente e fragmentado.

Quanto mais essa demanda aumenta, ela torna-se exponencial em sua dependência de IPs. É o estado do mundo hoje, com personagens de livros pop e historias em quadrinhos muito além do escopo dos super-heróis domina a paisagem do entretenimento.

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'O Legado de Júpiter', HQ de Mark Millar adaptada para uma série na Netflix
Imagem: Netflix

Alguns criadores, como Mark Millar e Robert Kirkman, entendera que a única saída é garantir controle criativo sobre suas criações. O Millarverse hoje fixou residência na Netflix, com "O Legado de Júpiter" estreando em maio. Kirkman, diretor de operações da Image Comics, assina como produtor executivo os produtores derivados de suas criações, como a série "The Walking Dead" e a animação "Invincible".

A Image foi, por sinal, a grande responsável pelo movimento de criadores de quadrinhos em manter controle financeiro e criativo de seus personagens. Formada nos anos 1990 por um grupo de superstars da Marvel que cansaram de faturar milhões para a editora com histórias do Homem-Aranha e dos X-Men, a editora logo tornou-se a terceira maior nos Estados Unidos - primeiro investindo em super-heróis, hoje abraçando títulos mais sofisticados, sempre garantindo a posse dos personagens a seus criadores.

Ainda assim, é inegável que a Marvel e a DC, por deterem os direitos dos personagens mais conhecidos do planeta, seguem à frente do jogo. Especialmente agora, que a linha entre cinema e streaming foi definitivamente apagada e seus personagens se tornarão ainda mais presentes em filmes e séries, compartilhando universos em uma escala absurda.

Seria o mínimo que os homens e mulheres responsáveis pela criação dos personagens que garantem esse sucesso fossem melhor recompensados. Não dá para imaginar um artista vendo o trailer de um filme ou série de sua criação sem ter direito a um centavo por seu sucesso. Um crédito de agradecimento quando o programa termina é pouco. Muito pouco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL