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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Esquadrão Trovão': Melissa McCarthy e o marido fazem outro filme ruim

Melissa McCarthy e Octavia Spencer em "Esquadrão Trovão" - HOPPER STONE/NETFLIX
Melissa McCarthy e Octavia Spencer em 'Esquadrão Trovão' Imagem: HOPPER STONE/NETFLIX
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

12/04/2021 22h45

Para surpresa de zero pessoas, "Esquadrão Trovão" é uma comédia de super-heróis que fracassa, ao mesmo tempo, em ser engraçada ou empolgante. É um filme insípido, em que uma ou outra risada são esmagadas por uma história boboca que não é bem escrita, bem interpretada e nem bem dirigida. Uma total perda de tempo.

O desastre pega muito mal para a filmografia de Melissa McCarthy. O que é muito injusto! Desde que se destacou no genial "Missão Madrinha de Casamento", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, a atriz emplacou outras comédias sensacionais, como "As Bem Armadas", "Um Santo Vizinho", o maravilhoso "A Espiã Que Sabia de Menos" e, vá lá, "Caça-Fantasmas".

Melissa combina talento cômico superlativo com uma entrega única, uma mistura de agressividade e doçura que tornam sua presença cênica irresistível. Suas habilidades dramáticas, que lhe renderam inclusive uma segunda indicação ao Oscar pelo drama "Poderia me Perdoar?", equilibram essa balança com brilho.

Daí, o que ela faz? Pega toda a boa vontade e escorre tudo pelo ralo quando trabalha com o marido, o ator, roteirista e diretor Ben Falcone, cujo único talento parece ser o de criar péssimos filmes para sabotar a carreira de sua mulher. Sério, ele faria feio escrevendo um especial de "A Praça É Nossa". É deprimente.

Não existe um filme sequer que Falcone tenha dirigido para Melissa que seja minimamente engraçado. "Tammy", o primeiro, já era constrangedor. A régua, porém, foi encostando no chão com os inclassificáveis "A Chefa", "Alma da Festa" e "Superintelligence". "Esquadrão Trovão" é só mais um na lista de desastres.

Em comum, todos os filmes dirigidos por Falcone trazem um total desconhecimento de timing cômico, a apelação fora de tom para a comédia física, e Melissa McCarthy se esforçando ao máximo para salvar alguma coisa. São dela os únicos momentos em que pedaços de entretenimento tão pavorosos conseguem respirar fora dos aparelhos.

"Esquadrão Trovão", que chega no auge dos super-heróis na cultura pop, é fruto de alguém apaixonado por gibis, mas que não sabe muito bem como traduzir essa paixão em filme. McCarthy e Octavia Spencer são amigas de infância que seguem caminhos diferentes. A primeira é uma perdedora sem rumo na vida, que se reconecta com a segunda, cientista brilhante dedicada a uma fórmula capaz de conceder super poderes a pessoas normais.

No mundo de "Esquadrão Trovão", a queda de um meteoro na Terra concedeu habilidades sobre humanas a diversas pessoas com nenhuma régua moral. Em um mundo de super criminosos, McCarthy e Spencer terminam, por inépcia da primeira, como as únicas mulheres super poderosas capazes de conter os vilões. Estes não podiam ser mais caricatos: um chefão do crime sem nenhuma nuance (Bobby Cannavale) e uma psicopata assassina que dispara uma hadouken anabolizado (Pom Klementieff).

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Ben Falcone dirige Melissa McCarthy em 'Esquadrão Trovão'
Imagem: Netflix

Misturar a fantasia dos super-heróis em um mundo de comédia não é novidade. "O Máskara" equilibrou a fórmula à perfeição, seguido de pérolas como "Os Incríveis", "Guardiões da Galáxia", "Deadpool" e "Shazam!". Até tentativas menos festejadas como "Minha Super Ex-Namorada" e "Heróis Muito Loucos" renderam histórias mais empolgantes.

"Esquadrão Trovão", por sua vez, é uma aventura em ponto morto. Falcone parece incapaz de executar qualquer cena em que os personagens demonstrem alguma empolgação. Seu "desenvolvimento" resume-se a cenas em que eles falam muito e agem pouco. O elenco, que ainda traz Melissa Leo e Jason Bateman (que interpreta o constrangedor Caranguejo), empurra a trama com a barriga. Sono.

Muitos casais do entretenimento acertam em cheio quando trabalham juntos. John Krasinski dirigiu Emily Blunt em "Um Lugar Silencioso" para aclamação de crítica e público. A parceria também funciona para Jude Apatow e Leslie Mann. Jay-Z e Beyoncé. Noah Baumbach e Greta Gerwig.

A coisa, porém, sempre sai dos trilhos quando Ben Falcone dirige Melissa McCarthy. Algo me diz que eles não vão parar tão cedo. A atriz, por sinal, esteva na Austrália filmando "Thor: Love and Thunder", sob direção de Taika Waititi. Espero que Falcone tenha ido junto. Vai que ele aprende alguma coisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL