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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Daniel Craig esquenta a guerra do streaming com projeto de US$ 400 milhões

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/04/2021 14h04

"Entre Facas e Segredos", thriller de 2019 com Daniel Craig, vai ganhar duas continuações. Para ter os direitos do projeto, a Netflix deve desembolsar cerca de US$ 400 milhões, fechando o contrato mais caro da ainda breve história dos streamings. Mesmo que isso tenha seus prós e contras.

Antes de mais nada, acho ótimo que o diretor de "Entre Facas e Segredos", o genial Rian Johnson, tenha fechado um acordo tão lucrativo para um projeto autoral e original, sem vir de nenhuma propriedade intelectual existente. A Netflix abriu o bolso, em uma guerra disputada com a Apple TV + e com a Amazon Prime, e garfou os direitos das continuações.

Em um mundo de entretenimento completamente dominado por propriedades intelectuais como Marvel, DC, "Velozes & Furiosos" e "Jurassic World", é um alento ver um projeto original sendo disputado por estúdios - ou melhor, por plataformas de streaming, o que nos anos 20 do século 21 meio que dá no mesmo.

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Daniel Craig como Benoit Blanc em 'Entre Facas e Segredos'
Imagem: Paris

Ao mesmo tempo, acende-se um sinal vermelho. Mesmo antes da pandemia do coronavírus deixar parte do mundo em quarentena entre as quatro paredes da sala, o cinema surgia mais e mais como palco para os filmes evento, os grandes espetáculos que abraçavam uma plateia global, banhando-se em oceanos de dinheiro.

Já o cinema independente, restrito a circuitos alternativos, encontrou no streaming o lugar ideal para prosperar. Os filmes podiam ser mais baratos, as expectativas podiam ser menores, a criatividade e a experimentação encontravam seu lugar.

Com a popularização das plataformas, e a necessidade de volume em seus catálogos, cineastas independentes de todo o mundo tiveram chance de criar filmes dos mais diversos gêneros, bons e ruins, mas sempre com um olhar plural. A indústria, assim, seguia até que saudável.

ARTE E NEGÓCIOS

Ao abrir a carteira e pagar US$ 400 milhões justamente a um projeto independente, a Netflix pode também ter aberto uma caixa de pandora em que o departamento financeiro, e não as mentes criativas, tem a palavra final sobre os projetos sendo alimentados.

Pode parecer pessimismo, mas esse movimento lembra o gigantismo dos megasalários que os estúdios passaram a agraciar a seus astro ao fim dos anos 1980. Começando por Bruce Willis (em "Duro de Matar") e Sylvester Stallone ("Falcão - O Campeão dos Campeões"), a indústria passou a ser definida unicamente por números cada vez maiores e mais absurdos. A democratização do cinema como arte parecia emperrada na mesa de negociação entre agentes e executivos.

Não que dar sequência ao mundo de "Entre Facas e Segredos" não valha algumas centenas de milhões de dólares. Quando Danny Boyle abriu mão da direção de "007 - Sem Tempo Para Morrer", Daniel Craig teve uma folga antes de retomar os trabalhos sob o comando de Cary Fukunaga. Rian Johnson viu a oportunidade e aliciou o astro.

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O diretor Rian Johnson no set de 'Entre Facas e Segredos'
Imagem: Paris

O resultado não poderia ser mais distante de Bond, mesmo que Benoit Blanc esteja na mesma seara do espião britânico. Ao contrário de aventuras globais, ele é um detetive de olhar aguçado disposto a resolver um mistério, uma trama de assassinato.

O segundo filme começa a ser rodado na Grécia em junho, e o novo elenco em breve será anunciado. Até porque Craig é o único a retornar, já que Blanc, na tradição do Hercule Poirot de Agatha Christie, deve investigar um mistério novinho em folha.

Espero, claro, estar enganado. Espero que as centenas de milhões gastas pela Netflix no projeto de Rian Johnson - que é dono da marca "Knive's Out" ao lado do produtor Ram Bergman - não signifiquem que um projeto independente precise de um acordo financeiro gigantesco para existir.

A boa notícia, por fim, fica para os fãs de "Star Wars". Mesmo que eu seja defensor ferrenho de "Os Últimos Jedi", é um filme polêmico para os fãs da série. Com a agenda tomada por crimes pelos próximos anos, acho difícil que Rian Johnson tenha tempo para retomar sua trilogia dentro do universo criado por George Lucas. Se isso significa mais aventuras de Craig como Benoit Blanc, já valeu a pena.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL