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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Morre Larry Flynt, o defensor mais inusitado da liberdade de expressão

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

12/02/2021 02h03

"Senhor Flynt, gostaria de expressar minha admiração por seus anos de luta pela preservação da liberdade de expressão." Não lembro se foi em 2005 ou 2006 que encontrei o empresário Larry Flynt, criador da revista masculina "Hustler", pela primeira vez. Foi no lobby do hotel Four Seasons em Los Angeles, onde eu frequentemente era hospedado quando viajava para ver filmes e entrevistar gente.

Meu cumprimento lhe chamou a atenção - e também a do motorista/guarda-costas do tamanho de um armário que me encarou com olhos de granito. Flynt sorriu, agradeceu e seguiu para o interior do hotel, com seu segurança guiando sua cadeira de rodas dourada. Ouro verdadeiro? Vai saber... A essa altura, o criador da revistas adulta mais hardcore do planeta, que chegou a vender 3 milhões de exemplares por mês em seu auge, já estava acostumado com seu status de celebridade, renovado então há pelo menos uma década.

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Woody Harrelson e Courtney Love em 'O Povo Contra Larry Flynt"
Imagem: Sony/Columbia Pictures

Em 1996 o cineasta Milos Forman dirigiu "O Povo Contra Larry Flynt", que colocou um soberbo Woody Harrelson no papel do protagonista, e recheou o longa com performances absurdas de Edward Norton e, surpreendentemente, da roqueira Courtney Love. Forman obviamente não tinha interesse no trabalho de Flynt em si. Desde que criara a "Hustler" em 1974, o empresário não pisou no freio ao objetificar a mulher e os fetiches masculinos ao extremo. Milionário desde que a publicação ultrapassou os nove dígitos em exemplares vendidos ainda nos anos 70, Larry construiu um império midiático baseado em sexo.

Forman, nascido na Tchecosvoláquia em 1932, perdeu seus pais para o Nazismo e sua liberdade quando jovem para o regime comunista do país. Encantado pelo cinema, começou sua carreira em sua terra natal e conquistou o mundo com obras-primas como "Um Estranho no Ninho", "Hair" e "Amadeus". Seu cinema, como não poderia deixar de ser, sempre trouxe enorme carga política e social. Seria impossível desviar seu olhar da trajetória peculiar de Larry Flynt.

O motivo foi a constante perseguição de grupos conservadores ao empresário do sexo. Desde que a "Hustler" atraiu os holofotes, Flynt passou a ser figura fácil em tribunais, defendendo seu direito de publicar suas ideias em forma de revista - a batalha lhe custou o uso das pernas quando um supremacista branco lhe alvejou as costas, danificando permanentemente sua coluna cervical.

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Larry Flynt interpreta um juiz em sua própria cinebiografia
Imagem: Sony/Columbia Pictures

O filme de Forman concentra-se na batalha legal de Flynt contra o televangelista Jerry Falwell, que levou o publisher da "Hustler" à Suprema Corte americana quando este publicou uma paródia sugerindo que a iniciação sexual do reverendo acontecera com sua própria mãe. Ouch! A vitória de Flynt tornou-se marco da defesa da Primeira Emenda da Constituição americana.

"O Povo Contra Larry Flynt" foi indicado a dois Oscar na cerimônia da Academia em 1997, de melhor ator (Woody Harrelson perdeu para Geoffrey Rush por "Shine") e melhor diretor (Milos Forman viu a estatueta ir para as mãos de Anthony Minghella, por "O Paciente Inglês"). Os anos não só fizeram bem ao filme, mas também o tornaram essencial neste novo século, principalmente agora quando vozes conservadoras tentam impor seus dogmas ultrapassados e atentam contra a liberdade de expressão.

Larry Flynt morreu em sua casa, aos 78 anos, com a certeza de que, não importasse o teor de seus negócios - e o gosto duvidoso de suas publicações -, a defesa da liberdade de expressão valia qualquer causa. E a causa lhe custou caro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL