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Roberto Sadovski

20 diretores de cinema para você (re)descobrir durante o Big Brother Brasil

"O Exorcista", de William Friedkin - Warner
'O Exorcista', de William Friedkin Imagem: Warner
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

02/02/2021 15h46

Começou o "Big Brother Brasil", edição número... Bom, eu não faço ideia. A vida é muito curta para acompanhar um bando de gente desinteressante, metidos em um programa desinteressante. Eu sei, eu sei, é entretenimento, é o maior faturamento da Globo, a turma AMA acompanhar as tretas do povo que está lá - o programa mal começou e meu feed do Twitter não fala em outra coisa. Pelo andar da carruagem, por outro lado, a reação tem sido mais angústia e revolta do que entretenimento e diversão. Oh, well...

Ainda bem, então, que vivemos em um mundo de escolhas e alternativas. Faço aqui uma proposta: Com o tempo que você gastaria de olho no Big Brother Brasil, por que não mergulhar em narrativas infinitamente mais interessantes, criadas por gênios com um legado irretocável? O cinema traz mais de um século de histórias, de todos os gêneros para todos os públicos. O streaming, mesmo engatinhando, consegue trazer parte dessa produção para a nova geração.

Ok, não traz exatamente "uma parte". Passando o pente fino nas plataformas mais populares do Brasil, descobri lacunas imensas. Não é nada de novo - em 2017 eu publiquei um texto sobre como jamais abriria mão da mídia física. Mas eu sou minoria, um dinossauro, uma fatia ínfima que ainda gosta de ver a poeira acumular nas prateleiras em filmes como "Cidadão Kane" (que você não encontra em streaming) e "A Montanha dos Sete Abutres" (que você também não encontra em streaming).

Em vez de focar, portanto, no que eu não posso encontrar, achei melhor iluminar algumas pérolas que estão disponíveis nas plataformas mais populares no Brasil. Alguns filmes essenciais de cineastas brilhantes, que eu descobri nos anos 1980 com a chegada do videocassete, hoje ao alcance de uma zapeada básica. Como equilíbrio é tudo, dá para absorver um pouco de Cinema com C e depois, com a pança cheia, descobrir como o povo confinado se queima com o simples ato de abrir a boca.

ALAN J. PAKULA

diretores trama - Paramount - Paramount
'A Trama', de Alan J. Pakula
Imagem: Paramount

Diretor de obras-primas como "Klute - O Passado Condena" (1971) e "Todos os Homens do Presidente" (1976), ambos ausentes do streaming, Alan Pakula se tornou conhecido ao transformar a paranoia em material narrativo. Um de seus trabalhos mais sufocantes é "A TRAMA" (The Parallax View, 1974), em que Warren Beatty é um repórter envolvido em uma espiral conspiratória descendente ao investigar o assassinato de um senador. Prime Video

ALAN PARKER

diretores fama - MGM/Warner - MGM/Warner
'Fama', de Alan Parker
Imagem: MGM/Warner

O diretor britânico, responsável por um de meus filmes favoritos de todos os tempos ("Coração Satânico", ausente do streaming), teve uma carreira eclética, que inclui de musicais ("Quando as Metralhadoras Cospem", "Pink Floyd - The Wall", "Evita") a dramas ("O Expresso da Meia-Noite", "As Cinzas de Ângela"). Embora "Mississipi em Chamas", produção que mergulha fundo no racismo endêmico nos Estados Unidos, esteja disponível pelo serviço da MGM, a melhor pedida nestes tempos sombrios ainda é "FAMA" (Fame, 1980), que acompanha um ano na vida de estudantes da mais conceituada escola de artes americana. É para elevar o espírito! HBO

BRIAN DE PALMA

diretores missao - Paramount - Paramount
'Missão Impossível', de Brian De Palma
Imagem: Paramount

É um pecado que não possamos ver filmes geniais como "O Fantasma do Paraíso", "Vestida Para Matar" ou "Dublê de Corpo" em streaming. Pior ainda: nem os essenciais "Scarface" e "Os Intocáveis" estão disponíveis! Ao menos existe "Carrie, a Estranha", liberado para quem tem assinatura da MGM. Para desopilar a mente, no entanto, a opção é "MISSÃO IMPOSSÍVEL" (Mission: Impossible, 1996), ponto de partida da série de espionagem com Tom Cruise. Netflix

CLINT EASTWOOD

diretores imperdoaveis - Warner - Warner
'Os Imperdoáveis', de Clint Eastwood
Imagem: Warner

Uma das lendas vivas do cinemão hollywoodiano, Clint Eastwood tem vários recortes de sua filmografia como diretor ao alcance das mãos, em especial trabalhos contemporâneos como "Sniper Americano" (Netflix) e "A Mula" (HBO). Sua obra-prima ainda é o western "OS IMPERDOÁVEIS" (Unforgiven, 1992), que desconstrói o romantismo do gênero em uma história sem heróis, mas com homens pulverizados por seu próprio passado. GloboPlay

DAVID CRONENBERG

diretores zona - Michael Ochs Archives/Getty Images - Michael Ochs Archives/Getty Images
'A Hora da Zona Morta', de David Cronenberg
Imagem: Michael Ochs Archives/Getty Images

Para mim, David Cronenberg sempre foi o mestre do body horror. Filmes como "Scanners", "Videodrome" e "A Mosca" se tornaram experiências grotescas e espetaculares sobre os limites da fantasia e do terror infringido no corpo humano. Como não podemos acompanhar a nenhum deles em streaming, a opção é o fantástico "A HORA DA ZONA MORTA" (The Dead Zone, 1983), uma das melhores adaptações de Spethen King, sobre um sujeito (Christopher Walken) que sai de um coma com poderes psíquicos. Prime Video

FRANCIS FORD COPPOLA

diretores conversacao - Paramount - Paramount
'A Conversação', de Francis Ford Coppola
Imagem: Paramount

A trilogia "O Poderoso Chefão", uma das obras mais poderosas do cinema de todos os tempos, pode ser vista tanto na Netflix quanto no Prime Video. O belíssimo "Drácula de Bram Stoker" está disponível na HBO. Mas por hora eu fico com "A CONVERSAÇÃO" (The Conversation, 1974), em que Gene Hackman desconfia que um casal sob sua vigilância pode ser assassinado. Paranoia em estado puro em um dos grandes filmes dos anos 1970. Prime Video

JAMES CAMERON

diretores t2 - Universal - Universal
'O Exterminador do Futuro 2', de James Cameron
Imagem: Universal

Quer assistir a "Titanic" em streaming? Esquece. E que tal "O Segredo do Abismo" ou "True Lies"? Se você não tiver a mídia física (DVD, ainda não existem em blu ray), sem chance. É até possível dar uma escapulida para a Disney+ e assistir a "Avatar". Mas para ver James Cameron em seu melhor, a dica é revisitar seu "O EXTERMINADOR DO FUTURO 2 - O JULGAMENTO FINAL" (Terminator 2 - Judgement Day, 1991), filme que definitivamente mudou a história do cinema. Prime Video

JOHN CARPENTER

diretores halloween - Divulgação - Divulgação
'Halloween', de John Carpenter
Imagem: Divulgação

Uma das trilogias não oficiais mais bacanas do cinema crava a parceria de John Carpenter com Kurt Russell: "Fuga de Nova York", "O Enigma de Outro Mundo" e "Aventureiros do Bairro Proibido". Destes, o segundo estava disponível em streaming até anteontem, mas agora só com paciência para esperar seu retorno. O que pode ser conferido agora é "HALLOWEEN" (1978), clássico absoluto que iniciou a febre do slasher film da década de 1980. Vale, por sinal, uma sessão dupla com o "Halloween" de 2018, uma sequência digna e produzida por Carpenter. Prime Video

JOHN LANDIS

diretores lobisomem - Universal - Universal
'Um Lobisomem Americano em Londres', de John Landis
Imagem: Universal

John Landis eternizou seu nome como um inovador das comédias. De "Kentucky Fried Movie" a "Burke and Hare", ele assinou verdadeiras pérolas como "Clube dos Cafajestes", "Os Irmãos Cara de Pau", "Trocando as Bolas" e "Os Três Amigos!". "Um Príncipe em Nova York", com Eddie Murphy, que ganha continuação este ano, está disponível na Netflix. Mais importante, porém, foi sua contribuição para o terror. "UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES" (An American Werewolf in London, 1981) é um filme sem gordura, inovador e de humor ácido insuspeito. Um clássico irretocável. Prime Video

MARTIN SCORSESE

diretores inocencia - Sony/Columbia - Sony/Columbia
'A Época da Inocência', de Martin Scorsese
Imagem: Sony/Columbia

Agora que Martin Scorsese abraçou o streaming como financiador de seus novos projetos, será difícil perder um filme do mestre. "O Irlandês" pode ser conferido em toda sua glória na Netflix, assim como "A Última Tentação de Cristo", "O Aviador" e "Ilha do Medo". Claro que clássicos como "Taxi Driver" e "Touro Indomável" fazem MUITA falta. Para mudar o foco de seu cinema mais popular, escolhi outro tipo de intensidade. "A ÉPOCA DA INOCÊNCIA" (The Age of Innocence, 1993) adapta o romance de Edith Wharton em um triângulo amoroso na alta classe nova-iorquina do século 19 com Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder. Netflix

OTTO PREMINGER

diretores braco - Prime Video - Prime Video
'O Homem de Braço de Ouro', de Otto Preminger
Imagem: Prime Video

Quando moleque eu ouvia até furar um disco chamado "A Música Maravilhosa do Cinema" (ou algo assim), com temas que ficaram gravados em meu inconsciente. Um deles era a música de "Exodus", drama de guerra que ajudou a encerrar a era da perseguição do macarthismo em Hollywood. Foi uma prova de força do austríaco Otto Preminger, na ativa desde os anos 1940. Sem fugir de temas polêmicos ou enfrentar tabus, ele assinou pérolas como "Ingênuo Até Certo Ponto", "Anatomia de Um Crime" e "Tempestade Sobre Washington". Meu favorito, porém, sempre foi "O HOMEM DO BRAÇO DE OURO" (The Man With the Golden Arm, 1955), em que Frank Sinatra interpreta um viciado (possivelmente em heroína, embora o filme não deixe claro) que luta para se manter livre da droga ao sair da prisão. Uma paulada. Prime Video

ROMAN POLANSKI

diretores busca - Warner - Warner
'Busca Frenética', de Roman Polanski
Imagem: Warner

A maior parte da cinegrafia de Roman Polanski está ausente do streming no Brasil. Nada de "Repulsa ao Sexo" ou "O Bebê de Rosemary" ou "Chinatown" ou "Tess" ou mesmo "O Pianista". Sobram bobagens como "O Nono Portal", fetiches como "Lua de Fel", teatro filmado em "Deus da Carnificina" e dramas decentes em "O Escritor Fantasma". Vale, porém, apostar no thriller parisiense "BUSCA FRENÉTICA" (Frantic, 1988), em que Harrison Ford parte em busca de sua esposa, que desapareceu, mergulhando em um submundo de crime, drogas e violência. HBO

SAM PECKINPAH

diretores odio - Warner - Warner
'Meu Ódio Será Sua Herança', de Sam Peckimpah
Imagem: Warner

Sam Peckimpah não era uma pessoa fácil. Sua genialidade só tinha paralelo com sua personalidade difícil, amplificada por anos de abuso de álcool e drogas. Essa combinação talvez tenha alimentado o desenho de seus personagens, geralmente anti heróis em busca de redenção, que não raro sucumbiam à violência. Sua obra máxima ainda é "MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA" (The Wild Bunch, 1969), um western que troca os valores nobres celebrados por John Ford pela violência crua e explícita que talvez fosse sua melhor tradução. HBO

SAMUEL FULLER

diretores cao - Paramount - Paramount
'Cão Branco', de Samuel Fuller
Imagem: Paramount

Admito que, moleque criado com um coquetel de cultura pop, fui atrás de assistir a "Agonia e Glória" para ver o que Mark Hamill fazia quando não era Luke Skywalker. O que descobri foi um filme de guerra brutal, baseado nas experiências do diretor Samuel Fuller no front. Com produção intensa nos anos 1950, mergulhando no cinema noir e em temas controversos, o diretor trabalhava com personagens marginais em histórias cruas e enxutas. "CÃO BRANCO" (White Dog, 1982) escancara o racismo ao retratar um cachorro treinado para matar pessoas negras e um treinador, negro, que tenta desprogramá-lo. Quase quatro décadas depois, continua urgente e impactante. Prime Video

SERGIO LEONE

diretores america - Fox/Warner - Fox/Warner
'Era Uma Vez na América', de Sergio Leone
Imagem: Fox/Warner

"Três Homens em Conflito", que entra fácil em meu top 10 de todos os tempos, está disponível pelo canal MGM. É a obra máxima de Sergio Leone, que redescobriu o western quando criou alguns dos maiores clássicos do gênero... na Itália. Seu último filme, porém, desbravou um outro tipo de épico. "ERA UMA VEZ NA AMÉRICA" (Once Upon a Time in America, 1984) trocou os pistoleiros do Oeste selvagem por gângsters na Nova York, cobrindo décadas na vida do criminoso em busca de redenção vivido à perfeição por Robert De Niro. A versão disponível em streaming é o corte original do diretor, com 229 minutos. Vale cada segundo. Prime Video

SIDNEY LUMET

diretores serpico - Paramount - Paramount
'Serpico', de Sidney Lumet
Imagem: Paramount

Poucos cineastas despiram as camadas moralistas da sociedade americana como Sidney Lumet. Seus filmes são uma sucessão de clássicos irretocáveis, como "12 Homens e Uma Sentença", "Um Dia de Cão", "Rede de Intrigas" e "O Veredicto". Sean Connery o considerava o melhor diretor do cinema, tendo trabalhado com ele cinco vezes. Seu último trabalho, "Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto", disponível na Primo Video, conserva a mesma força de seus melhores filmes. Mas a recomendação aqui é "SERPICO" (1973), em que Al Pacino exala fúria como um policial que trabalha disfarçado em uma Nova York suja e repulsiva. HBO

STANLEY KUBRICK

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'Nascido Para Matar', de Stanley Kubrick
Imagem: Warner

Se os primeiros trabalhos do gênio Stanley Kubrick estão ausentes do streaming (nada de "A Morte Passou Perto", "O Grande Golpe" ou "Gloria Feita de Sangue"), ainda é possível mergulhar em sua obra via "2001, Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica", "De Olhos Bem Fechados" (todos na HBO) e "O Iluminado" (este pela GloboPlay"). Minha escolha, porém, recaiu na intensidade de "NASCIDO PARA MATAR" (Full Metal Jacket, 1987), em que soldados partindo para o conflito no Vietnã enfrentam não só "o inimigo", mas sua própria desumanização. HBO

STEVEN SPIELBERG

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'Tubarão', de Steven Spielberg
Imagem: Universal

O cineasta mais bem sucedido da história continua experimentando gêneros, mesmo depois de décadas de triunfos - eu mal posso esperar para ver sua versão do musical "Amor, Sublime Amor". A oferta de seus filmes em streaming é farta. Uma busca simples revela "Minority Report", "Jurassic Park", "The Post", "O Resgate do Soldado Ryan", "Guerra dos Mundos", "E.T.", "Prenda-me Se For Capaz", "Império do Sol", "Hook" e (ufa!) a trilogia "Indiana Jones". Mas vai de "TUBARÃO" (Jaws, 1975) sem medo: continua tenso, apavorante, empolgante e não envelheceu nem um pouco. Prime Video

WALTER HILL

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'48 Horas', de Walter Hill
Imagem: SNAP/REX/Shutterstock/SNAP/REX/Shutterstock

Lapidado no fim dos anos 1970, Walter Hill desenvolveu uma fórmula de ação explosiva e, por vezes, extremamente estilizada, que inspirou uma geração inteira de cineastas. Primeiro com "Warriors, os Selvagens da Noite", retratando uma Nova York ultraviolenta. Depois com fantasias como "Ruas de Fogo", "A Encruzilhada" e até "Inferno Vermelho", com Schwarzenegger. Seu melhor momento, porém, foi criar o encontro perfeito entre Nick Nolte e um Eddie Murphy a um passo do estrelado em "48 HORAS" (48 Hours, 1982), aventura que redefiniu o sub gênero "parceiros policiais" pelos anos seguintes. Prime Video

WILLIAM FRIEDKIN

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'O Exorcista', de William Friedkin
Imagem: Warner

Pena que o excepcional "Operação França" não esteja mais disponível em streaming: o thriller policial com Gene Hackman mudou o norte do gênero de tantas formas que precisa ser degustado com atenção para absorver todas as suas nuances. Também ausentes estão "O Comboio do Medo", "Parceiros da Noite", "Viver e Morrer em Los Angeles" e até o recente "Killer Joe - Matador de Aluguel". Mas não tem problema. William Friedkin também é responsável por outro clássico irretocável. "O EXORCISTA" (The Exorcist, 1973) foi o filme que retirou o terror da bolha do cinema B e o reposicionou como cinemão mainstream com fúria insuspeita. A história da menina possuída por um demônio continua surpreendente quase cinco décadas depois de seu lançamento. Uma prova do poder do cinema de Friedkin, que continua ativo e contestador como sempre. HBO