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Roberto Sadovski

Por que uma série baseada em "Harry Potter" é uma péssima ideia

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

28/01/2021 19h28

Eu lembro quando "Harry Potter e a Pedra Filosofal" chegou aos cinemas No final de 2001, a cultura pop começava a experimentar a invasão de histórias de fantasia, e o bruxo mirim, ao lado de "O Senhor dos Anéis", impulsionou uma febre. Ela vinha da literatura, do fenômeno criado pela inglesa J.K. Rowling que conquistou uma geração inteira. A saga do personagem teve começo, meio e fim, vendo sua conclusão nos cinemas uma década depois de sua estreia.

Só que o dinheiro fala mais alto, e os bilhões arrecadados pelo filme - e por todos os produtos em seu entorno - são tentadores demais para adormecer uma propriedade intelectual. É exatamente por isso que os executivos da plataforma de streaming HBO Max estão considerando transformar seu universo mágico em série. Na prática, não existe nada a não ser uma possibilidade ventilada a diversos roteiristas. Mas, obviamente, é questão de tempo.

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Ron, Harry e Hermione no auge da fofura em 'A Pedra Filosofal'
Imagem: Warner

É, também, uma péssima ideia. Ao contrário de universos compartilhados já estabelecidos, como "Star Wars" e o próprio "O Senhor dos Anéis", não existe nenhuma expansão consistente em "Harry Potter" além do material dos sete livros. No teatro, "The Cursed Child" estreou em 2016 nos palcos londrinos para a desaprovação em massa dos fãs. No cinema, a série "Animais Fantásticos" tentou (e insiste) recriar a fagulha dos filmes originais com resultados desastrosos.

A culpa desse horizonte limitado é unicamente de J.K. Rowling. Escritora de uma ideia só até que se prove o contrário, ela tem a palavra final em todos os produtos relacionados a sua criação, e isso é um entrave decisivo. O roteiro dos dois "Animais Fantásticos" tem sua assinatura e são, para colocar de forma delicada, amadores. Com ela à frente, é impossível enxergar uma série envolvendo "Harry Potter" que mobilize mais uma vez sua base de fãs.

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'Animais Fantásticos' é uma mancha indigna do universo 'Harry Potter'
Imagem: Warner

Claro que sempre há um caminho. "De Volta Para o Futuro", mesmo com sua trama firme como aço na trilogia dos cinemas, rendeu uma série em animação bem decente. Já "Droids" foi uma tentativa pífia em reanimar a marca "Star Wars" depois de "O Retorno de Jedi". O problema aqui é que os protagonistas do universo mágico - Harry, Hermione e Ron - tiveram seus arcos dramáticos concluídos. O bacana dos filmes era acompanhá-los em sua infância e adolescência. Essa porta está fechada.

Obviamente, o que a HBO Max quer é chutar essa porta e deixá-la escancarada. A concorrência direta da Netflix e da Disney+ - essa nadando de braçada com projetos ao longo de suas diversas marcas já desenhados ao menos pelos próximos cinco anos - pede ação imediata. A DC tem uma única série já encaminhada, o spin off de "O Esquadrão Suicida", de James Gunn, centrada no personagem de John Cena, o Pacificador. A Warner/HBO tem dúzias de propriedades intelectuais incríveis que podem ser exploradas. Mas se for para manter a conta bancária de J.K. Rowling cheia, é melhor deixar "Harry Potter" do jeito que está.