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Roberto Sadovski

Trago verdades: Não é de hoje que Bruce Willis desencanou de ser um astro

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

22/01/2021 18h24

Triste, mas verdadeiro: Nos últimos anos, Bruce Willis deixou de ser o astro que um dia levou multidões ao cinema para se tornar um "ator de video locadora". Para quem acha que filme lançado antes do ano 2000 é "antigo", eu explico. Quando o VHS se popularizou no planeta, mordendo aí uns bons antes entre as décadas de 1980 e 1990, a demanda por novos filmes era maior que a oferta. Para preencher o vácuo, produções menos esmeradas que as "de cinema", feitas com dinheiro de pinga, tornaram-se norma para fazer volume.

Daí tivemos o fenômeno dos "astros de locadora", atores que não emplacavam grandes sucessos de bilheteria mas faziam a festa da petizada que buscava mais quantidade do que qualidade. Gente como Michael Dudikoff, Reb Brown e Michael Paré entupiam as prateleiras com filmes de ação de quinta categoria, mas que ajudavam a completar os filmes "alugados na quinta, devolvidos na segunda". Mais ou menos o mesmo balaio de volume sem qualidade que Jean Claude Van Damme e Steven Seagal habitam há décadas.

Bruce Willis nunca fez parte dessa turma. Na verdade, quando "Os 12 Macacos" foi lançado, 25 anos atrás, ele estava no auge. Era o astro de "Duro de Matar", o sujeito que reinventou o cinema de ação, o ator que não se furtava em aceitar pequenos papéis para trabalhar com os mestres - como em "O Jogador", de Robert Altman. Quando a ficção científica de Terry Gilliam chegou aos cinemas, Bruce já havia ajudado a criar o novo cinema independente com "Pulp Fiction", e havia retornado ao papel de John McClane em "Duro de Matat - A Vingança", maior bilheteria global em 1995.

bruce looper - Paris - Paris
Bruce Willis em 'Looper', seu último grande filme
Imagem: Paris

Nada, obviamente, dura para sempre. Mas eu nunca imaginaria que Bruce Willis fosse se tornar um ator por atacado. Seu último filme realmente digno de nota foi "Looper", de um já distante 2012. "Vidro", conclusão da "trilogia de super-heróis" de M. Night Shyamalan, estreou com pouco barulho em 2019, ano em que o ator cravou outros cinco filmes. Se você não assistiu a nenhum deles, não se espante. São fitas de ação genéricas, feitas para o mercado de streaming ou video on demand, basicamente a "nova locadora" que hoje também pede volume para manter a engrenagem girando.

Bruce Willis, por sua vez, não parece muito preocupado. Ele segue firme com a avalanche de filmes invisíveis, que ganham uma lasca de notoriedade por ter o astro de "Duro de Matar" no poster. São título como "Sobrevivendo à Noite", "Centro de Trauma", "Caçada Brutal", "Carga Preciosa", "Ator de Violência" e "Assalto ao Poder". Muitas vezes seu tempo em cena é mínimo. A diversão é observar a trigésima variação do "policial cool" que o astro consegue fazer. Até vale uma zapeada nos streamings da vida como curiosidade antropológica.

De minha parte, sigo vivendo com o Bruce Willis do passado. Revi "Os 12 Macacos" e continua um filme ousado e intrigante, o tipo de produto gerado por um estúdio que dificilmente encontraria espaço em um mundo dominado por propriedades intelectuais. A carreira do astro revelado na TV com "A Gata e o Rato" é brilhante, e certamente ele não precisa provar absolutamente nada a ninguém. Mas não precisava chutar o balde de maneira tão espetacular.