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Roberto Sadovski

Como o diretor de 'O Senhor dos Anéis' consertou o fim dos Beatles

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

25/12/2020 05h50

Peter Jackson, diretor de 'O Senhor dos Anéis', está trabalhando em um projeto inusitado. O cineasta encontra-se reeditando o documentário 'Let it Be', que os Beatles lançaram em 1970. Mas não é um simples trabalho de restauração. Com quase 60 horas de material em áudio e vídeo em mãos, Jackson está criando um novo epitáfio para a banda. Intitulado 'Get Back', o novo documentário joga outra luz sobre os momentos finais do quarteto de Liverpool. Se 'Let it Be' foi o registro de um grupo se despedaçando, 'Get Back' pretende recuperar a alegria e a emoção levantada pela música dos Beatles.

É curioso observar o projeto assumido por Jackson. Depois de um começo de carreira ousado em sua Nova Zelândia natal, com filmes esquisitos como "Náusea Total" e "Fome Animal", o diretor alçou voos mais ambiciosos, como o delicado "Almas Gêmeas" (que apresentou Kate Winslet para o mundo) e o terror "Os Espíritos", seu primeiro trabalho em Hollywood. Mas foi sua empreitada posterior que marcaria seu nome na história do cinema.

Peter Jackson assumiu a tarefa de adaptar "O Senhor dos Anéis", obra máxima de J.R.R. Tolkien, como dois filmes rodados ao mesmo tempo. Após circular por alguns estúdios, o projeto aterrissou na New Line já como uma trilogia, um colosso que levaria para celuloide os três livros do autor, um para cada filme: "A Sociedade do Anel", "As Duas Torres" e "O Retorno do Rei". Foi um acontecimento que rendeu bilhões, uma pá de estatuetas do Oscar e mudou a forma de fazer, vender e perceber filmes.

beatles get back - Reprodução - Reprodução
Os Beatles se apresentam pela última vez num telhado londrino
Imagem: Reprodução

Com as chaves do mundo em mãos, Jackson realizou seu projeto mais pessoal em 2005, a refilmagem da aventura "King Kong", e voltou ao mundo de Tolkien com a trilogia "O Hobbit" depois de escorregar na adaptação do capenga "Um Olhar do Paraíso". Sem nenhum projeto grandioso em vista (ele ainda quer fazer uma continuação para "As Aventuras de Tintin", que produziu para Steven Spielberg), o diretor teve tranquilidade para dedicar-se ao cinema como arte transformadora, usando as ferramentas tecnológicas apresentadas em seus filmes para abraçar outro tipo de histórias.

Não é incomum um cineasta, depois de realizar o que foi seguramente o trabalho de sua vida, concentrar sua criatividade em projetos inusitados. George Lucas havia feito dois filmes interessantes no começo de sua carreira, "THX-1138" e "Loucuras de Verão", mas tornou-se sinônimo de "Star Wars' ao mudar totalmente o panorama do cinema. Sua ocupação hoje é montar um museu para as artes cinematográficas, com nenhum outro filme em vista. James Cameron deixou sua marca em pérolas como "O Exterminador do Futuro", "Aliens - O Resgate" e "Titanic". Mas seu trabalho desde 2009 consiste em viver no mundo criado por ele para "Avatar".

Peter Jackson já deixou sua marca no mundo. Hoje ele pode se dedicar a filmes que o satisfaçam inteiramente como artista. Ele está restaurando todo o material gravado pelos Beatles para "Let it Be" usando a mesma tecnologia que aplicou em outro documentário, o belíssimo 'Eles Não Envelhecerão', que em 2018 recuperou filmes e narrativas de soldados combatendo na Primeira Guerra Mundial, com efeitos digitais empregados para dar cor e fluidez a imagens antigas. O resultado humanizou um conflito distante cronologicamente, que ganhou no filme de Jackson uma conexão emocional inesperada.

Ainda é cedo para cravar como será 'The Beatles: Get Back'. "Let it Be" deixou a impressão de uma banda fora de sintonia, prestes a encerrar sua parceria de forma amarga. Voltar às imagens, muitas guardadas há cinco décadas, foi a forma de Paul McCartney e Ringo Starr, além de Yoko Ono e Olivia Harrison, reposicionarem a imagem do grupo de forma positiva. Contratar Peter Jackson para tocar o projeto ajuda a jogar luz neste canto sombrio dos Beatles. A prévia liberada por Jackson trouxe alento a esse momento pesado que o planeta atravessa e prova uma coisa: em um mundo incerto, a arte ainda é a arma mais poderosa.