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Roberto Sadovski

'Convenção das Bruxas': Robert Zemeckis comete o pior filme de sua carreira

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

26/11/2020 19h41

Assistir a "Convenção das Bruxas" foi um tormento múltiplo. Das decisões visuais equivocadas à total falta de carisma dos personagens, a nova adaptação da obra do Roald Dahl é um filme feio, caricato e desprovido de charme. O oposto total do que se espera de um conto de fadas moderno.

Não tem como apontar o dedo para outro a não ser seu diretor, Robert Zemeckis. Um dos verdadeiros visionários do cinema, responsável por obras inesquecíveis como "De Volta Para o Futuro", "Uma Cilada Para Roger Rabbit" e "Náufrago", ele surge irreconhecível no comando de "Convenção das Bruxas".

Não é justo esperar que um artista genial mantenha a excelência em seu trabalho por décadas a fio. No caso de Zemeckis, entretanto, a fase ruim parece ter raízes certas. A busca pelo aprimoramento da tecnologia de efeitos especiais, trabalho que o envolveu desde o começo do século, parece ter ajudado a colocar de lado o aspecto mais memorável de seus melhores filmes: a descoberta da humanidade em personagens fantásticos.

A pergunta é: será que um dia veremos o grande Robert Zemeckis de volta? Não é impossível, claro. Eu sempre torço pelo melhor em artistas que admiro. E há muito que admirar em Zemeckis. "Convenção das Bruxas" é seu pior filme. No ranking abaixo, passeio rapidamente por sua carreira até o melhor. Consegue adivinhar qual é?

20. CONVENÇÃO DAS BRUXAS
(The Witches, 2020)

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'Convenção das Bruxas"
Imagem: Warner

Como a chefona das bruxas, Anne Hathaway parece a vampira do clímax de "A Hora do Espanto". Indeciso entre ser fofo para as crianças (o que não é) e interessante para os adultos (o que também não é), esse conto de fadas é só um filme feio e preguiçoso, indigno do talento envolvido.

19. BEM-VINDOS À MARWEN
(Welcome to Marwen, 2018)

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'Bem Vindos à Marwen'
Imagem: Universal

A história real que deu origem a este drama com Steve Carrell é absolutamente fascinante: para lidar com o trauma de um espancamento violento, um sujeito cria uma vida paralela ao construir com maquetes e bonecos uma vila ambientada na Segunda Guerra Mundial. Na visão de Zemeckis, a coisa se torna uma aventura com Falcons digitais. É a materialização da falta de noção.

18. ALIADOS
(Allied, 2016)

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'Aliados'
Imagem: Paramount

Brad Pitt e Marion Cotillard em um drama romântico em tempos de guerra. Sucesso garantido, certo? Bom, o tom indefinido (é uma aventura, um filme de espionagem ou o que?) e a absurda falta de química do casal central fazem de "Aliados" uma experiência totalmente esquecível.

17. OS FANTASMAS DE SCROOGE
(A Christmas Carol, 2009)

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'Os Fantasmas de Scrooge'
Imagem: Disney

O clássico de Charles Dickens ganha registro histérico com Jim Carrey assumindo múltiplos papéis graças à "magia" da captura de movimentos. A tal magia, porém, não reflete na narrativa truncada e desinteressante. Visualmente, envelheceu mal. Muito mal.

16. O EXPRESSO POLAR
(The Polar Express, 2004)

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'O Expresso Polar'
Imagem: Warner

A primeira tentativa de Zemeckis em abraçar a captura de performance como ferramenta cinematográfica nos leva a uma viagem sem volta ao uncanny valley, que acontece quando a representação de seres humanos em objetos inanimados (no caso, em avatares digitais) é desprovida de vida. O resultado é, por vezes, repulsivo.

15. A MORTE LHE CAI BEM
(Death Becomes Her, 1992)

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'A Morte Lhe Cai Bem'
Imagem: Universal

O que poderia ser uma reflexão sobre a obsessão com padrões de beleza terminou como uma experiência com efeitos especiais ancorada por um trio de atores (Bruce Willis, Meryl Streep e Goldie Hawn) totalmente desconfortáveis com as trucagens digitais.

14. REVELAÇÃO
(What Lies Beneath, 2000)

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'Revelação'
Imagem: Fox

Enquanto esperava Tom Hanks perder peso drasticamente para continuar a produção de "Náufrago", Zemeckis teve seus dias de Alfred Hitchcock com este suspense de poucos sustos. Michelle Pfeiffer é ameaçada pelo marido adúltero em uma trama com tintas sobrenaturais. Harrison Ford é o marido adúltero. É isso.

13. A LENDA DE BEOWULF
(Beowulf, 2007)

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'A Lenda de Beowulf'
Imagem: Warner

Das três tentativas em criar longas de animação com captura de movimento, o diretor se deu melhor com este "Beowulf". Talvez fosse a melhor forma de adaptar o poema clássico inglês sobre um herói determinado a derrotar uma criatura assassina, Grendel. A tecnologia ainda não alcançara o realismo proposto por Zemeckis, mas a ambientação fantástica ajuda a entrar no clima.

12. CARROS USADOS
(Used Cars, 1980)

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'Carros Usados'
Imagem: Columbia

Em seu segundo longa, Zemeckis construiu uma sátira ácida sobre a cultura americana, representada pela rivalidade entre vendedores de carros usados, Kurt Russell à frente. É uma observação esperta sobre o fascínio por (sub)celebridades e a sede pelo poder, tudo compactado em um microcosmo cafona, ainda cru mas sempre interessante.

11. O VOO
(Flight, 2012)

zemeckis voo - Paramount - Paramount
'O Voo'
Imagem: Paramount

Depois de três filmes em animação, Zemeckis convocou Denzel Washington para este drama sobre um piloto de avião viciado em drogas e álcool que faz uma manobra maluca para não perder o controle de seu avião, salvando todos os passageiros. Parte filme de tribunal, parte jornada à sobriedade, "O Voo" ganha força com a performance irrepreensível de Washington.

10. DE VOLTA PARA O FUTURO PARTE II
(Back to the Future Part II, 1989)

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'De Volta Para o Futuro Parte II'
Imagem: Universal

A segunda parte da saga de Marty McFly é a mais fraca das três. Embora traga inovações absurdas em seus efeitos especiais, o filme sofre com um certo inchaço, um choque de ideias que impede a fluidez narrativa. Ainda assim, funciona como ponte para dois filmes muito superiores.

9. CONTATO
(Contact, 1997)

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'Contato'
Imagem: Warner

A adaptação do romance de Carl Sagan sobre uma cientista que descobre evidências de vida extraterrestre é conduzida com sensibilidade por Zemeckis. Acertadíssima, porém, foi a escolha de Jodie Foster como protagonista, trazendo um equilíbrio de força e doçura que humaniza a personagens. Os efeitos não envelheceram tão bem. Mas a última coisa que importa aqui é a perfumaria.

8. FEBRE DE JUVENTUDE
(I Wanna Hold Your Hand, 1978)

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'Febre de Juventude'
Imagem: Universal

Em sua estreia em um longa-metragem, Zemeckis traduziu a energia esfuziante da beatlemania dos anos 60 ao acompanhar quatro amigas que partem para Nova York no dia em que os Beatles fizeram sua participação histórica no programa de Ed Sullivan. A combinação de imagens histórias reais com material filmado, uma característica do diretor, surge em estágio embrionário. Mas o bacana mesmo é o elenco jovem (saudades de Nancy Allen) e a trama saborosa.

7. FORREST GUMP - O CONTADOR DE HISTÓRIAS
(Forrest Gump, 1994)

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'Forrest Gump - O Contador de Histórias'
Imagem: Paramount

Mais que um filme, "Forrest Gump" foi um fenômeno global, um sucesso de bilheteria que também abocanhou um punhado de estatuetas do Oscar e solidificou o status de astro de Tom Hanks. Ao passear pela história americana contemporânea sob o olhar de seu protagonista simplista, Zemeckis criou um filme atemporal, simpático e emocionante até a medula.

6. TUDO POR UMA ESMERALDA
(Romancing the Stone, 1984)

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'Tudo Por Uma Esmeralda'
Imagem: Fox

Ah, os anos 1980. A certa altura, todo mundo queria um Indiana Jones para chamar de seu. Joan Wilder (Kathleen Turner) é uma escritora de romances empolgantes que vive sua própria aventura ao se embrenhar na selva sul-americana em busca da irmã desaparecida. Ela ganha em Jack Colton (Michael Douglas) um guia e um par romântico neste filme acelerado e delicioso, que traz Danny DeVito em um de seus melhores papeis. Arrisque!

5. A TRAVESSIA
(The Walk, 2015)

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'A Travessia'
Imagem: Sony

A intenção óbvia, ao biografar a tentativa do francês Philippe Petit em caminhar num arame erguido entre as torres do World Trade Center, era experimentar com a tecnologia de 3D imersivo. Mas Zemeckis acertou ao deixar o espetáculo como consequência da dramatização envolvente da vida do artista, interpretado com gosto por Joseph Gordon-Levitt.

4. DE VOLTA PARA O FUTURO PARTE III
(Back to the Future Part III, 1990)

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'De Volta Para o Futuro Parte III'
Imagem: Universal

Depois de uma segunda parte levemente truncada, Zemeckis concluir sua trilogia como um western assumido. A trama mais linear deixou a jornada da dupla Marty McFly e Doc Brown mais leve, com espaço para incluir um romance para o cientista. E quem diria que Clint Eastwood NÃO seria um bom nome para um cowboy...

3. NÁUFRAGO
(Cast Away, 2000)

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'Náufrago'
Imagem: Universal

"Náufrago" é uma das experiências cinematográficas mais surpreendentes do novo século. É o tipo de filme que dificilmente seria rodado hoje, em especial pela complexidade do planejamento de sua produção. Tom Hanks é o funcionário do FedEx que se vê isolado em uma ilha deserta após um acidente aéreo.

A pausa nas filmagens para Hanks ganhar o visual de uma pessoa à deriva por quatro anos seria impensável hoje. O que mais importa, porém, é a reflexão sobre solidão e sobrevivência, sobre superação e reinvenção. Um filme muito bonito, estranhamente relevante para o mundo de 2020, uma jornada de dor, perda, amizade, beleza e, por que não, fé.

2. DE VOLTA PARA O FUTURO
(Back to the Future, 1985)

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'De Volta Para o Futuro'
Imagem: Universal

Nem todo filme antigo é um clássico. Mas não há dúvidas que a palavra encaixa-se perfeitamente neste que terminou como uma das aventuras mais festejadas da história. O roteiro de Zemeckis e Bob Gale é pura perfeição, equilibrando ação e ficção coentífica, comédia e romance, tudo sem perder nem por um segundo o foco em seus personagens.

E eles funcionam pela química perfeita entre Michael J. Fox (que substituiu Eric Stoltz após um mês de filmagens!) e Christopher Lloyd - o primeiro como o adolescente que viaja no tempo e perturba o primeiro encontro de seus pais, o segundo como o cientista que o ajuda a voltar para casa. É fantasia de primeira, com os melhores diálogos, as melhores cenas e o final mais espetacular que o cinema é capaz de produzir. Sonho traduzido em celulóide.

1. UMA CILADA PARA ROGER RABBIT
(Who Framed Roger Rabbit, 1988)

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'Uma Cilada Para Roger Rabbit'
Imagem: Disney

Robert Zemeckis atingiu em "Uma Cilada Para Roger Rabbit" a perfeição como artista. Inspirado no livro de Gary K. Wolf, ele criou um filme noir irretocável, um mistério em torno de um assassinato na Los Angeles do pós-Guerra, quando os estúdios de Hollywood mandavam e astros surgiam em uma geração ainda traumatizada.

Parte destes "astros", entretanto, eram personagens de desenhos animados, que no mundo fantástico tecido pelo diretor conviviam com seres humanos. E, como os seres humanos, tinham vícios, dramas e pecados como qualquer um longe do glamour do cinema.

É neste mundo que o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, um gigante) investiga a morte de um chefão de estúdio, cujo principal suspeito é o festejado Roger Rabbit - um "toon" histérico e hiperativo, casado com a voluptuosa Jessica e crucial para desvendar uma trama que pode por fim aos desenhos em Hollywood.

Com o texto afiado à perfeição, Zemeckis tratou de construir um mundo crível a seu redor, usando de efeitos especiais (muita coisa prática, resolvida com trucagens no set) para povoar a trama com personagens clássicos da animação. Mickey Mouse e Pernalonga, Patolino e o Pato Donald, todos convivendo em (relativa) harmonia, surgindo em cena graças ao esforço do produtor Steven Spielberg para convencer diferentes estúdios a brincar com a mesma bola (Popeye e o Gato Félix, por exemplo, foram impedidos por seus "donos").

A soma de todos os elementos resultou em uma aventura única, um filme que não encontra paralelos em toda a história do cinema, um recorte no tempo que dificilmente irá se repetir - principalmente agora quando propriedades intelectuais disputam espaço a ferro e fogo.

Não importa. O mundo terá eternamente este "Uma Cilada Para Roger Rabbit" para lembrar do que acontece quando tecnologia e sensibilidade, razão e emoção, talento e instinto são misturados para criar mágica a 24 quadros por segundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL