PUBLICIDADE
Topo

Roberto Sadovski

"Salvador do cinema", 'Tenet' equilibra grandes ideias e grandes problemas

John David Washington em "Tenet" - Warner
John David Washington em 'Tenet' Imagem: Warner
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

29/10/2020 04h03

"Tenet" não foi produzido para salvar o cinema. Em um 2020 originalmente recheado de continuações e reboots, super-heróis e aventuras animadas, a ficção científica seria o raro filme original que poderia se destacar por conta de seu pedigreé. Mas veio a pandemia. O mundo colocou os pés no freio. Cinemas fecharam. E "Tenet" teve sua posição no mercado reconfigurada.

Desde que os grandes estúdios enxergaram um horizonte ermo com salas de cinema fechadas em todo o mundo, os grandes filmes desapareceram do calendário de lançamentos. Ainda assim, o diretor Christopher Nolan manteve sua posição firme. "Tenet", mesmo adiado um par de vezes, chegaria aos cinemas do modo que seu criador havia imaginado.

Não foi teimosia nem arrogância. A decisão de enfrentar uma situação fora do normal foi tomada com cautela, mas também como gesto de boa vontade: "Tenet" seria o candidato a blockbuster com que o circuito exibidor poderia respirar à medida que salas eram liberadas pelo planeta. Ele chegou em diversos territórios em agosto. Teve um lançamento tímido nos Estados Unidos. Em um mundo marcado por incerteza, "Tenet" terminou alçado à posição de salvador do cinema.

tenet robert - Warner - Warner
John David Washington e Robert Pattinson em 'Tenet'
Imagem: Warner

Foi um esforço digno, e a decisão do estúdio merece ser aplaudida. Mas não colou. Sem cinemas abertos em Nova York ou Los Angeles, que abraçam a maior fatia das bilheterias nos Estados Unidos, "Tenet" naufragou no mercado ianque. O resto do mundo ainda viu fôlego no filme, que ainda assim não encostou em US$ 350 milhões nas bilheterias.

No começo do ano, analistas da indústria apostavam em ao menos US$ 650 milhões para o filme empatar as contas. "Tenet" foi o boi de piranha para ver como o cinema encarava seu "novo normal" de salas esparsas e público hesitante.

Com o resultado, os grandes estúdios acharam melhor guardar as escovas de dente e fazer de conta que 2020 não existiu. Grandes filmes foram empurrados para 2021 e além. Seguimos tímidos, retomando aos poucos um semblante de normalidade, aguardando o momento em que o mundo volte a girar.

Em meio a esse turbilhão, existe "Tenet", o filme. Sem obrigações ou responsabilidades, mas um pedaço de entretenimento com grandes ideias e grandes problemas. Christopher Nolan e, hoje, um dos poucos cineastas A operar como marca registrada. Ele termina sendo o "astro" de seus filmes, e sua visão peculiar de cinema é tão interessante quanto seu trabalho.

"Tenet" é, para o bem e para o mal, Nolan sem freios. É um filme de conceitos complexos, mirando em uma faixa de fãs por vezes estreita que passará os próximos anos dissecando cada fotograma, cada palavra, cada imagem. Para quem gosta de resolver enormes quebra-cabeças, é um banquete interminável.

O outro lado é que o banquete torna-se indigesto quando a criatividade é atropelada pela autoindulgência. "Tenet" é rico em subtexto, é uma amálgama de ideias sensoriais surpreendentes. Mas é também um filme assombrado pelo roteiro desnecessariamente confuso, que esconde seus tropeços narrativos com esmero técnico.

tenet nolan - Warner - Warner
Christopher Nolan com a mão na massa no set de 'Tenet'
Imagem: Warner

E a gente sabe que a coisa é levemente metida a besta quando o protagonista (John David Washington) é batizado de Protagonista. Ele é um agente da CIA que, depois de uma missão malfadada em Kiev, é dado como morto para ser recrutado pela organização chamada Tenet. A missão é simples: prevenir o fim do mundo.

De forma resumida, ele precisa impedir que um traficante de armas russo, Sator (Kenneth Branagh), recupere pedaços de um artefato capaz de acabar com a vida na Terra. Para ajudá-lo na missão ele ganha o reforço de outro agente, Neil (Robert Pattinson), e os dois usam a mulher de Sator, Kat (Elizabeth Debicki), para se aproximar do vilão.

Nada, porém, é tão simples. Sator é capaz de se comunicar com o futuro e possui tecnologia capaz de "inverter" objetos no fluxo do tempo, revertendo a trajetória, por exemplo, de balas. O Protagonista e Neil, aos poucos, descobrem que essa mesma tecnologia também possibilita a inversão de pessoas, aumentando cada vez mais o escopo e o risco de sua missão.

tenet avião - Warner - Warner
'Tenet' traz explosões bem longe de efeitos digitais
Imagem: Warner

"Tenet" é, portanto, um filme sobre viagem no tempo. Pode não usar a mesma engrenagem de "De Volta Para o Futuro", "O Exterminador do Futuro" ou "Vingadores Ultimato", mas ainda é uma aventura em que passado, presente e futuro se chocam para conduzir a narrativa.

O problema é que Nolan, em sua insistência em dar um verniz realista à sua pseudo ciência, torna o filme desnecessariamente confuso. O primeiro ato ainda tenta organizar as ideias sofisticadas e o conceito inovador em um pedaço de entretenimento, mas chega um ponto em que a trama se torna tão desordenada que eu esperei o Protagonista puxar uma cadeira e quebrar a quarta parede para dar uma geral do que estava acontecendo até ali.

Falta a "Tenet", por exemplo, a conexão emocional que permeava "A Origem", em que a missão de Leonardo DiCaprio tinha por fim o objetivo de reuni-lo à sua família - uma âncora narrativa de fácil empatia. A experiência aqui, por outro lado, é fria, cerebral, evidenciando a falta de um personagem que pudesse servir como avatar da plateia, um forasteiro que nos ajudasse a entender coisas como "entropia reversa" e "algoritmo no hipocentro".

Em nenhum momento isso é um problema do elenco. John David Washington surge como um protagonista carismático, levemente sarcástico, mas um agente acostumado à pressão que não faz muitas perguntas nem quando é apresentado à tecnologia fantástica que marca o filme. Sua química com Robert Pattinson, num curioso papel coadjuvante que faz dele um Robin antes de encarar o Batman, ajuda a desembaraçar a trama em momentos chave.

tenet trio - Warner - Warner
Pattinson, Washington e Elizabeth Debicki em 'Tenet'
Imagem: Warner

Visualmente, "Tenet" mostra por que Nolan está no auge de suas habilidades. Ele é capaz de orquestrar cenas complexas e grandiosas como um artesão, e insiste em abrir mão de efeitos digitais nos momentos mais improváveis. A perseguição de carros com metade dos veículos invertidos é surpreendente, bem como a colisão de um avião de carga no terminal de um aeroporto: é o tipo de espetáculo palpável que o cinema desaprendeu a fazer na unha.

Quando não está empurrando verborragia intelectual (a cena em que Sator interroga o protagonista é cansativa e confusa), "Tenet" funciona como um filme de roubo acelerado e empolgante, em que o clímax tão espetacular quanto incompreensível, com soldados em diferentes fluxos de tempo combatendo um inimigo invisível, revela um final curiosamente banal depois de tanta pirotecnia.

Christopher Nolan mostra que ainda existe espaço, mesmo no cinemão hollywoodiano milionário, para experimentar novos conceitos e novas ideias. Essa liberdade pode resultar em filmes autoindulgentes como "Interestelar" e brilhantes como "Dunkirk".

"Tenet", com seus vícios e suas virtudes, encontra-se em algum lugar no meio, carregando por força das circunstâncias a incômoda posição de "salvador do cinema". Não precisa. Em seus limites, é uma experiência cinematográfica ousada e gratificante. Mesmo que, por vezes, ameace ceder sob o próprio peso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL