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Roberto Sadovski

Coringa em 'Liga da Justiça': jogada de gênio ou ego descontrolado?

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

22/10/2020 16h58

A versão do diretor Zack Snyder para "Liga da Justiça" continua rendendo. Desde que o diretor anunciou a "ressurreição" do filme de 2017 como minissérie em quatro partes para a plataforma de streaming HBO Max, não passa uma semana sem que um novo factoide em torno do projeto ganhe as manchetes. Dessa vez foi o anúncio da adição do Coringa, em sua versão interpretada por Jared Leto em "Esquadrão Suicida". A pegadinha? O personagem não existe na versão original da aventura.

A essa altura, honestamente, tanto faz. Quando a HBO Max revelou os planos para Snyder finalizar sua visão de "Liga da Justiça", a ideia era que ele usasse material que não entrou na versão final para remontar o projeto segundo sua visão. Não parece o caso. A história conta que Snyder saiu do filme após a morte de sua filha, sendo substituído por Joss Whedon ("Os Vingadores"). Era uma ação entre amigos, com afagos públicos de um colega "salvando" o trabalho do outro.

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Gal Gadot e Ben Affleck em 'Liga da Justiça'
Imagem: Warner

"Liga da Justiça", porém, foi um fracasso absoluto. Não incendiou as bilheterias e a recepção entre os fãs foi fria. Apesar do escopo do projeto, o resultado foi pequeno, mais famoso pelo bigode apagado digitalmente do rosto de Henry Cavill do que por qualquer mérito cinematográfico. Devolver a criança a Snyder foi um modo de compensar o diretor criativamente e - principalmente - dar um gás nas assinaturas do HBO Max. A estreia dessa versão ainda não tem data, mas deve acontecer ano que vem.

Em meio ao processo, algo aconteceu. O que era uma finalização com material não utilizado, ao custo de US$ 20 milhões aos produtores, evoluiu para uma produção de US$ 70 milhões, com parte de seu elenco principal retornando para rodar cenas adicionais. Ben Affleck, Ray Fischer e Amber Heard entraram em cena, com a possível adição de Henry Cavill e Gal Gadot. E agora, Jared Leto e seu Coringa. Zack podia aproveitar e ligar para Margot Robbie e Will Smith também.

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Jared Leto (e Margot Robbie) em 'Esquadrão Suicida'
Imagem: Warner

Existe duas formas de analisar esse movimento todo. A primeira é acreditar que Zack Snyder é o "visionário" que o estúdio costuma vender. Que essa nova encarnação de "Liga da Justiça" vai usar o esqueleto de um projeto micado para criar algo bombástico, um épico grandioso em que não só Jared Leto, mas também outros personagens dos filmes do universo DC possam aparecer. Joe Manganiello, que surgiu em uma cena pós-créditos sem sentido como o vilão Exterminador, sempre responde com um "sem comentários" quando perguntado se Snyder o procurou. Mistério.

A essa altura, só mesmo uma reunião de despedida de heróis e vilões que não acharam espaço para brilhar em outros filmes justifica o investimento. Até porque "Shazam!", "Aves de Rapina" e, vai saber, "Mulher-Maravilha 1984" tem, no máximo, laços tênues com a tentativa frustrada da DC em emular o sucesso da Marvel em criar um universo compartilhado. Vai que Zack Snyder coloca uma carta matadora na mesa e grita "truco!".

A outra forma de ver a coisa toda, entretanto, é como um retrocesso gigantesco. Afinal, o Coringa que vale agora é a versão de Joaquin Phoenix, de um filme que fez muita gente fora da bolha geek/nerd prestar atenção. Vale lembrar que Phoenix ganhou o Oscar por seu trabalho como o Palhaço do Crime! Insistir com Jared Leto é agradar às três pessoas que gostaram de sua versão.

A essa altura, vale tudo. Semana que vem pode ter certeza que "Liga da Justiça" voltará às manchetes. Nada mal para um filme que mal decolou três anos atrás. Ano que vem a gente descobre, afinal, se havia alguma solução genial para resgatar um projeto natimorto. Ou se foi, simplesmente, a maior exibição de ego na história recente do cinema.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL