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Roberto Sadovski

Jackie Chan, astro on demand: "As pessoas hoje preferem ver filmes em casa"

Jackie Chan em "Conto do Caçador de Sombras" - Synapse Distribution
Jackie Chan em 'Conto do Caçador de Sombras' Imagem: Synapse Distribution
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

19/10/2020 08h05

Jackie Chan é incansável. Enquanto boa parte de seus contemporâneos pisou no freio com o passar dos anos, o astro continua trabalhando sem parar. Seja em sua China natal, seja em Hollywood, no cinema, em streaming, na frente e atrás das câmeras, o ator de 66 anos é uma máquina. Uma máquina, diga-se, alinhada com os novos tempos.

Veterano com mais de uma centena de trabalhos no currículo, trabalhando em filmes desde os anos 60, Jackie entende que o mundo mudou - e a pandemia do coronavírus acelerou essa mudança. Conversamos por conta de seu lançamento mais recente no Brasil, a fantasia "Contos do Caçador de Sombras", que troca os cinemas pelo VOD.

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Jackie Chan em 'Contos do Caçador de Sombras'
Imagem: Synapse Distribution

"Vamos falar sobre as plataformas online?", dispara Chan, bem humorado. "Em nossos velhos tempos as bilheterias eram os únicos números que apontavam se um mercado era grande ou se um filme era um sucesso." A pandemia mudou a indústria e 2020 deve terminar com um cenário totalmente diferente.

"As pessoas hoje preferem ver filmes em casa!", continua o astro. "As bilheterias do cinema não são mais o únioco parâmetro que podemos observar. Essa é uma tendência global, e nesses tempos difíceis é uma tendência que vai crescer ainda mais rápido."

Chan viu essa tendência de perto. Seus dois filmes agendados para 2020, o drama "Good Night Beijing" (em que ele tem um papel pequeno) e o thriller de espionagem "Vanguart" sofreram com o fechamento dos cinemas na China.

O segundo, que marca sua nona parceria com o diretor Stanley Tong, perdeu sua data de estreia original em janeiro, coincidindo com o Ano Novo Chinês, finalmente chegou aos cinemas mês passado, mas não fez barulho nas bilheterias.

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Jackie Chan em 'Contos do Caçador de Sombras'
Imagem: Synapse Distribution

"Contos do Caçador de Sombras", por sua vez, começou sua carreira em plataformas tradicionais, chegando aos cinemas chineses em fevereiro do ano passado. Com boa parte da produção hollywoodiana emperrada devido à pandemia, filmes recentes do mercado chinês ganharam mais destaque em plataformas de streaming ao redor do mundo.

"Eu tenho feito filmes há décadas, interpretando personagens mito distintos", conta Chan. "Mas não tive muitas oportunidades com o gênero da fantasia." "Contos do Caçador de Sombras", por sua vez, deu ao ator a oportunidade de mostrar uma nova visão de um personagem tradicional da história chinesa.

"Pu Songling foi um escritor famoso na China", continua. "Mas minha versão rompe com sua figura tradicional como um sujeito mergulhado nos livros." Aqui, Pu é um caçador de demônios lendário, que tem seus próprios monstros de estimação para defender a humanidade de uma invasão interdimensional.

"Nossa intenção era criar um espetáculo visual que pudesse agradar adultos e crianças", empolga-se, com razão. "Contos do Caçador de Sombras" é uma aventura inofensiva, ancorada pelo charme natural de Chan, que se perde quando a trama pende para a história de amor de seus protagonistas mais jovens, a feiticeira Xiaoqian (Elaine Zhong) e outro caaçdor de demônios, Ning Cai Chen (Ethan Juan). Não se pode ganhar todas.

Jackie Chan, por sua vez, continua usando sua enorme influência na China para alavancar novos talentos. "Contos do Caçador de Sombras" é o segundo filme do diretor Vash, que estudou cinema na Inglaterra. "Adoro trabalhar com uma equipe jovem, eles me mostram novas ideias e novas linguagens, tudo que o público hoje busca em filmes", derrete-se o astro. "Eu sei que eles me colocam num pedestal, mas gosta de pensar que eles são meus professores."

Trabalhar com uma nova geração não é uma má ideia para Chan, que há muito não protagoniza um sucesso de impacto. Nos anos 1970, porém, ele liderou a geração pós Bruce Lee, que ajudou a popularizar o estilo de artes marciais de Hong Kong para o resto do mundo.

O cinema hollywoodiano entrou em sua mira pela primeira vez em 1980 com "O Lutador de Rua", seguido de "A Fúria do Protetor" cinco anos depois. Mas a plateia ocidental parecia refratária ao carisma do astro.

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Jackie Chan em 'Arrebentando em Nova York', seu primeiro sucesso em Hollywood
Imagem: Reprodução

A maré virou com "Arrebentando em Nova York", que em 1995 faturou quase US$ 80 milhões em todo o mundo. Seu sucesso abriu espaço para uma nova onda de astros e diretores chineses no mercado ianque. Jean-Claude Van Damme importou John Woo com "O Alvo", e logo Chow Yun Fat e Jet Li estavam estampando filmes de ação falados em inglês.

"Matrix" foi um ponto de ruptura para o talento advindo da China quando as irmãs Wachowski colocaram a tecnologia para criar sequências de artes marciais espetaculares para Keanu Reeves brilhar. O interesse nos atores do outro lado do mundo aos poucos foi diminuindo, assim como seus números nas bilheterias - seu auge aconteceu na virada do milênio com o espetacular "O Tigre e o Dragão".

Jackie Chan, por sua vez, injetava mais e mais humor em seu estilo, garantindo duas séries para chamar de sua em "A Hora do Rush" e "Bater ou Correr" - sempre ancorado por um astro americano, respectivamente Chris Tucker e Owen Wilson. Quando pergunto sobre a possibilidade de um quarto "Rush Hour", ele é categórico: "Essa pergunta você tem de fazer a Brett Ratner".

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Jackie Chan (com Chris Tucker) em 'A Hora do Rush', que o tornou um astro
Imagem: Reprodução

Com os números em Hollywood voltados para outro tipo de espetáculo - os filmes de super-heróis -, Chan foi aos poucos voltando para casa. Seu último sucesso no cinema americano, a refilmagem de "Karate Kid", foi lançada há uma década.

"Ah, não é esse o caso", desconversa o astro quando pergunto se seu retorno ao cinema chinês foi um reflexo do crescimento desse mercado, hoje o segundo maior do mundo. "Tudo que eu considero é uma boa história, um bom roteiro." Nesse momento, em que o mundo mais uma vez reorganiza a forma de fazer cinema, Jackie Chan mantém seu olhar na única coisa que importa: "Eu ainda estou procurando pelo roteiro certo, pelo projeto ideal".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL