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Roberto Sadovski

Nada de fan service: a volta de Jamie Foxx em Homem-Aranha pode ter cérebro

Jamie Foxx como Electro em "O Espetacular Homem-Aranha 2" - Sony
Jamie Foxx como Electro em 'O Espetacular Homem-Aranha 2' Imagem: Sony
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

06/10/2020 04h43

Em dezembro do ano passado, quando o mundo ainda mantinha uma fachada de normalidade, eu falei com Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, em São Paulo para participar de um evento de cultura pop. Terminei sem publicar a entrevista porque foi um papo de amigos que engoliu os poucos minutos que tinha para a conversa.

Explico. Conheci Feige em 2000, em uma visita ao set de filmagem de "X-Men", e desde então mantivemos uma relação amigável ao longo dos anos. Kevin sempre foi cuidadoso em nossos papos - ainda sou jornalista de entretenimento! Por isso foi estranho quando, falando sobre a quarta fase da Marvel no cinema, ele se empolgou ao explicar a relação dos filmes com as séries da plataforma Disney+.

"O plano iniciado em 'Homem de Ferro' previa um universo compartilhado", comentou. "Mas nunca imaginei que pudesse ser tão sofisticado em suas conexões." Pedi um exemplo e ele não hesitou. "A história que começa em 'WandaVision', por exemplo, continua em 'Doutor Estranho no Multiverso da Loucura' e será concluída no terceiro 'Homem-Aranha'." Kevin parou, respirou e completou: "Acho que eu não devia ter contado isso".

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Elizabeth Olsen e Paul Bettany em 'WandaVision'
Imagem: Marvel/Disney

Se em dezembro de 2019 a "revelação" fez pouco sentido, hoje ela ganha outra dimensão depois do anúncio do retorno de Jamie Foxx no papel do vilão Electro em "Homem-Aranha 3", que ainda não tem título, mas trará Tom Holland como o Cabeça de Teia. A pegadinha é que Foxx interpretou o vilão em "O Espetacular Homem-Aranha 2", o canto do cisne da versão do herói na pele de Andrew Garfield.

Os fãs (sempre eles) passaram a tecer mil teorias, uma mais estapafúrdia do que a outra. A que mais me diverte é que a Marvel e a Sony "juntariam" todos os seus Homem-Aranha (além de Holland e Garfield, o patriarca Tobey Maguire) em uma única aventura no cinema. Balela. Mas o casting de Foxx, saltando de um universo para outro, é curioso.

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Tom Holland em 'Homem-Aranha - Longe de Casa'
Imagem: Marvel

O conceito de multiversos é parte do vocabulário do leitor de gibis desde a Era de Prata dos quadrinhos. Foi na quarta edição da revista "Showcase", de outubro de 1956, que a DC apresentou o novo Flash, Barry Allen, uma nova encarnação do herói criado em 1940, então com Jay Garrick como sua identidade secreta. Cinco anos depois, a editora promoveu o encontro dos dois Flash, apresentando o conceito de múltiplos universos nas HQs de super-heróis.

Nas décadas seguintes, tanto a DC quanto a Marvel expandiram seus universos, fosse por motivos criativos, fosse por corporativos. Cada vez que uma editora comprava outra, os personagens adquiridos no acordo habitavam seu próprio mundo - e estes mundos eventualmente entravam em choque.

No cinema a coisa é um pouco mais complicada. Se nos quadrinhos essa mistureba de personagens e universos levou décadas para amadurecer - e ainda hoje é uma maçaroca de nomes e títulos e reinvenções e motivo de faxina editorial -, no cinema a explosão dos justiceiros fantasiados como fenômeno pop é relativamente nova, com pouco mais de uma década na ponta do entretenimento.

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Dois Flash se encontram e iniciam o multiverso nas HQs
Imagem: Reprodução

A DC saiu na frente quando promoveu o encontro de seus personagens da TV em crossovers anuais de relativo sucesso. Com o Flash à frente (sempre ele), vimos programas como "Arrow", Supergirl" e "Legends of Tomorrow" em tramas espalhadas pelo contínuo espaço temporal.

Na tela grande as tintas ainda não se misturaram: o Superman de Christopher Reeve era o único herói em seus filmes, bem como o Batman de Michael Keaton. A trilogia "O Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan, sequer cogitou trazer mais capas para a festa.

O universo estendido DC, iniciado com "O Homem de Aço", não tinha o multiverso como plano. Mas o fracasso da visão de Zack Snyder, tanto em "Batman vs Superman" quanto em "Liga da Justiça", fez com que os executivos repensassem a estratégia.

Assim surgiu "Coringa", sem nenhuma relação com outros filmes de personagens da DC. "The Batman", empurrado para 2022, também cultiva seu próprio nicho. Tudo deve mudar, porém, com "The Flash", que recupera Ezra Miller como o velocista escarlate e promete colocar em cena o Batman de Michael Keaton e também a versão de Ben Affleck para o Homem-Morcego. A partir daí, as regras antigas deixam de valer.

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Jamie Foxx e Andrew Garfield em 'O Espetacular Homem-Aranha 2'
Imagem: Sony

O que nos traz de volta a Jamie Foxx e seu retorno como Electro. Desde que o Hollywood Reporter revelou a notícia, o estúdio sequer se mexeu com um "sem comentários". O que sabemos é que essa nova versão não será exatamente a mesma do filme com Andrew Garfield. O próprio Foxx rabiscou em um tweet, desde então apagado, que dessa vez ele não seria azul.

O Homem-Aranha ainda é um ponto sensível na relação da Marvel com a Sony, estúdio que ainda tem os direitos para o cinema do personagem. Sua introdução no Universo Cinematográfico Marvel foi um acordo de cavalheiros, contrato que agora prevê mais um filme solo e uma última aventura ao lado dos outros heróis - provavelmente num quarto "Vingadores". A produção é dividida por Kevin Feige e Amy Pascal - ex-chefona da Sony, que tem um carinho imenso por Jamie Foxx.

É possível que o retorno do vilão à Marvel, agora na fatia boa deste universo, possa ser uma maneira de Pascal para compensar o astro pela oportunidade perdida em um universo de super-heróis. A culpa nem foi dele, embora sua versão de Electro seja uma das piores traduções de um personagem dos quadrinhos para o cinema. A Sony planejava seu próprio cantinho com o Aranha e cia., mas o projeto miou com o relativo fracasso de "Espetacular 2". Só depois de "Venom", e agora com "Morbius", com Jared Leto, a Sony colocou o plano em prática - para todos os efeitos, ainda sem Tom Holland como Peter Parker.

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Jared Leto em 'Morbius'
Imagem: Sony

É possível também que o novo Electro de Foxx não tenha absolutamente nenhuma relação com o personagem que ele interpretou em "O Espetacular Homem-Aranha 2". Afinal, J.K. Simmons fez um retorno triunfal como o ranzinza J. Jonah Jameson ao fim de "Homem-Aranha - Longe de Casa", mas como uma outra versão de Jameson, que não fazia a menor ideia de quem seria Peter Parker. O precedente, portanto, está aberto.

Ainda assim, o escorregão de Kevin Feige em nosso papo de dezembro, com o Homem-Aranha na conclusão de uma história obviamente ambientada em um multiverso, passando por "WandaVision" e pelo segundo "Doutor Estranho", deixa a pulga atrás da orelha em alerta.

Os fãs mais radicais, por sua vez, estão salivando com as possibilidades. Para essa turma, que ainda discute quem venceria uma luta entre o Superman e o Hulk (uma dica: vence quem o roteirista quiser que vença), esse tipo de piscadela é a glória, uma prova que "Hollywood está prestando atenção".

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Tudo junto em misturado em 'Homem-Aranha no Aranhaverso'
Imagem: Sony

Pouco interessa se referências aleatórias não fariam o menor sentido para a massa que de fato fez de "Vingadores Ultimato" um fenômeno de US$ 3 bilhões: o que interessa aos mais radicais é que "seja parecido com os gibis". É o famigerado fan service, uma idiotice que responde pelos momentos mais constrangedores de cada filme baseado em heróis de HQs já feito.

Alguém lembra quando o Wolverine reclama dos trajes de batalha em "X-Men"? De imediato Ciclope joga um "você preferia um colante amarelo?", o que soou grego para a esmagadora maioria do planeta. No cinema, a história é rei. Se existe espaço para uma referência aos gibis que não atrapalhe a trama, beleza. Do contrário, temos "A Ascensão Skywalker".

Quero acreditar que a volta de Jamie Foxx para o universo do Homem-Aranha, agora sob as asas do Universo Cinematográfico Marvel, obedece a uma necessidade narrativa, e não a um capricho do tipo "Nossa, agora vai rolar todos os Aranhas de todos os filmes em um só". A Marvel no cinema é melhor do que isso. Sem falar que esse encontro já existe e foi feito com elegância em um filmaço irrepreensível: "Homem-Aranha no Aranhaverso".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL