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O sucesso de 'Cobra Kai' se resume a um nome: Netflix

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

17/09/2020 15h53

Nostalgia vende. Evidência da vez: o sucesso de "Cobra Kai", continuação tardia de "A Hora da Verdade", filme de 1984 popularizado por seu título original, "The Karate Kid". Ambientada três décadas depois da aventura original, a série traz Ralph Macchio e William Zabka reprisando os papéis de Daniel LaRusso e Johnny Lawrence, adolescentes rivais que se enfrentam em um campeonato de karatê.

"Cobra Kai" aperta todas as teclas da propriedade intelectual nostálgica do novo milênio. Traz rostos conhecidos para empolgar a geração saudosista, ao mesmo tempo em que salpica o elenco com rostos novos temperados pela representatividade do novo século. Embalado em um pacote moderno, a série tornou-se um dos programas mais vistos na plataforma de streaming.

O que é curioso, já que "Cobra Kai" existe para o público desde 2018.

cobra kai johnny - Netflix - Netflix
William Zabka (no centro) de volta como Johnny Lawrence em 'Cobra Kai'
Imagem: Netflix

Nos últimos anos a Netflix tornou-se o lugar em que filmes e séries fracassados ganham nova chance e são redescobertos pelo público. Foi o caso da série "You", cancelada pelo canal Lifetime, que na Netflix ganhou fôlego redobrado. Ou "Lúcifer", que amargou três temporadas rasteiras na Fox e foi resgatada com sucesso pelo streaming. "Cobra Kai" era uma produção do YouTube Red, que desde então abandonou o investimento em conteúdo roteirizado.

Ignorada por duas temporadas no YouTube Red (atual Premium), "Cobra Kai" encheu os olhos dos executivos da Netflix, sempre em busca de criar volume em seu conteúdo. O "selo" Netflix hoje é marca poderosa, e fez toda a diferença para mudar a percepção da série: o que era uma aventura do YouTube passou a ser visto como uma produção nobre do streaming. Ano que vem a terceira temporada de "Cobra Kai" será de fato cria da Netflix. Se esse modelo de negócios se sustenta é outra questão - uma das quais eu abordo essa semana em minha coluna no canal do UOL no YouTube.

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Ralph Macchio é Daniel-San em 'Cobra Kai'
Imagem: Netflix

No fim, não é nem a nostalgia e nem o marketing que devem justificar uma espiada em "Cobra Kai". Ao ampliar o escopo de "A Hora da Verdade", a série ganhou em complexidade, especialmente ao mudar o foco do embate do "bem contra o mal" para um mundo em que os verdadeiros vilões são as expectativas absurdas que carregamos em vida - e o preço que pagamos por escolhas feitas quando sequer temos maturidade para tal. É uma lição que todas as continuações tardias, alimentadas pela memória afetiva, poderiam aprender.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL