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Porta dos Fundos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Chamar outros de corrupto é fácil, difícil é devolver meus R$ 20

Cena do filme "Vai Dar Nada" - Fábio Rabelo/Divulgação
Cena do filme "Vai Dar Nada" Imagem: Fábio Rabelo/Divulgação

Matheus Mad*

Colunista do UOL

19/05/2022 13h38

Dê poder ao homem e descobrirá quem ele realmente é. Maquiavel disse isso depois que conseguiu poder, e chutar a bengala de um ancião que andava pela Itália pedindo esmola. Poucas pessoas sabem, mas Nicolau Maquiavel era conhecido pela alcunha de "marrentinho de Veneza" e ele nem era de Veneza, era na verdade de Florentino, mas depois que ficou rico com a filosofia (sim, naquela época filosofia dava dinheiro) ele começou a meter uma marra que morava em Veneza, e tinha um barco que ficava ancorado ali em frente à boate mais badalada da Itália.

O fato é que não só o poder corrompe o homem, mas o meio também o corrompe, como diz Rousseau. Que poucos sabem, mas se chamava Cleitinho da Silva, era baiano natural de Aritaguá, mas se mudou para Suíça pra tentar a vida como modelo de mãos mas, por ter o polegar esquerdo torto e machucado de tanto soltar pipa nos morros de Itaquera, em São Paulo, a carreira não vingou. Mas conseguiu fazer os amigos certos, e largou o trabalho de garçom de bar para virar filósofo.

Ou seja, o poder corrompe, o meio corrompe e o homem é essencialmente mau, como dizia Hobbes. O que poucos sabem é que Hobbes tinha esse nome porque era o maior enrolão do Reino Unido. Deixava a conta pendurada em bar, devia ao eletricista e tinha mais de 20 pontos na carteira de motorista. Por isso chamavam ele de Hobbes, que a pronúncia fica "robes".

Isso tudo pra falar que nós sempre arrumamos justificativas para o nosso mau-caratismo. O meio, o poder, o próprio mal — no popular, a gente é um bando de arrombados. Quem nunca entrou no Outback e pediu uma água só pra comer o pão de graça e ir embora? Quem nunca roubou um bombom das Lojas Americanas? Quem nunca pediu dinheiro pros pais pra lanchar no colégio e foi gastar com ficha de jogo? Quem nunca disse que ia pra casa da amiga e a amiga se chamava "Raul Três Pernas"? Quem nunca usou o mesmo talão do estacionamento durante uns cinco anos? Quem nunca foi em bingo clandestino? Quem nunca vendeu um carro que tava todo ferrado por um preço que ele nem valia? Quem nunca parou em vaga de deficiente e saiu arrastando a perna? Quem nunca subornou advogado? Quem nunca desviou dinheiro da merenda? Quem nunca usou o fundo eleitoral pra comprar chocolate? Quem nunca usou o STF para proteger os filhos? Quem nunca deu sigilo de mais de 100 anos para sua carteira de vacinação?

A corrupção é uma coisa tão presente na nossa sociedade que eventualmente até filmes são feitos sobre ela, numa lista que vai de clássicos como "Polícia Federal: A Lei É Para Todos" até aquele do Bozo que não era o Bozo, e acaba de ser ampliada com "Vai Dar Nada", que estreou na Paramount+ e, claro, não envolveu nenhum desvio de verba ou qualquer tipo de ilegalidade para sua produção. Ou pelo menos é o que recebi dois carburadores de moto recondicionados novinhos pra falar.

*Matheus MAD é roteirista do Porta dos Fundos, humorista e acha que vai dar cavalo na cabeça hoje