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Porta dos Fundos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aconteça o que acontecer, não use amarelo na virada pra 2022

Tava planejando bem isso, né? - Reprodução
Tava planejando bem isso, né? Imagem: Reprodução
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Textos semanais escritos pelos roteiristas do canal de humor Porta dos Fundos, responsáveis por mais palavrões ditos por famosos que a coluna do Léo Dias. "Roteiristas são como duendes: ninguém nunca os vê, mas fazem coisas mágicas por um prato de comida" (antigo provérbio chinês)

Colunista do UOL*

30/12/2021 11h00

A virada se aproxima, e como todos sabem, trata-se da noite mais mandingueira do ano. Nós costumávamos ser bons nesse jogo sem nem precisar pensar muito, só usando branco e pulando ondinhas já dava quase sempre pra conjurar um ano decente. Mas de 2019 pra cá, a coisa desandou. Adoraria usar deste texto para defender que não devemos apontar culpados, mas a verdade é que algum culpado sempre tem, e como nunca teremos certeza absoluta se foi mesmo o fim do Vídeo Show que desencadeou isso tudo, chegou a hora de levantarmos novas teorias. Eu, por exemplo, boto a culpa no amarelo.

Até algumas viradas atrás, usar amarelo era o equivalente a abrir uma caixinha de perguntas no Instagram sem ser famoso: um grito de socorro. O cidadão que vestisse uma camisa amarela no dia 31 de dezembro teria que estar suficientemente desesperado a ponto de emanar fragilidade na presença do grupo demográfico mais cruel que temos à disposição: a família e os amigos.

A coisa começou a desandar de verdade quando perdemos a vergonha de usar o amarelo. Ano novo já foi um dia a festa das aparências, onde se pagava 50 reais numa fruta que é só caroço, bebia-se sidra em copo de champanhe e os talheres de plástico vinham com acabamento em dourado. A partir do momento em que desistimos de enganar os cosmos com a nossa riqueza fraudulenta, ele enxergou a verdade nas nossas almas. E foi esse surto de sinceridade extrema que nos trouxe aonde estamos.

A ascensão da roupa amarela fez todos nós vibrarmos na frequência da escassez, e aqui seguimos presos a ela. Então nesse ano de 2022, sugiro tentarmos algo novo: ao invés de orarmos por dinheiro e renovar mais uma vez nossos votos de pobreza, sugiro todos pedirmos apenas por "paz" — que é o que sobra pra se queixar quando a vida não te traz problema. A sorte sempre vem mais forte pros apáticos, e é aí que o brasileiro escorrega nos pedidos.

Apesar desta teoria ser a mais promissora que temos, ainda é cedo para se ter certeza de que a roupa amarela fez mesmo o estrago todo sozinha. Há quem busque ramificações na camisa da CBF, mas isto é pra quem quiser estudar a teoria aprofundada. Em nome do Método Científico, sugiro que façamos o experimento de não usar amarelo na virada pra 2022. Se não funcionar, em 2023 a gente tenta proibir stories com o "último pôr-do-sol do ano". E se ainda não tiver sido isso, em 2024 a gente traz o Black Eyed Peas de volta pra virada de Ipanema.

* Gabriela Niskier é roteirista do Porta dos Fundos e usou amarelo na virada pra 2020. No Instagram: @gabrielaniskier