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Pedro Antunes

Mais ouvida aos 22 anos, Marília Mendonça seria a maior voz desta geração

Marília Mendonça já era a mais ouvida do Brasil aos 22 anos - Montagem: Pedro Antunes
Marília Mendonça já era a mais ouvida do Brasil aos 22 anos Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

05/11/2021 20h15

Marília Mendonça era indie e pop, era sertanejo e funk. A antena parabólica da música brasileira, fazia a conexão entre estéticas e gêneros distantes. Sofrer com Marília Mendonça era bom demais.

Gravou com Gal Gosta na potente "Te Cuidando de Longe",com a mesma leveza que mostrou ao estar do lado do furacão do axé Ivete Sangalo. Fez duetos com o rapper Xamã e com cantor Leo Santana.

Foi um furacão. Ao vivo, tirava o fôlego. Lives de quarentena não eram capazes de mostrar tudo o que ela podia alcançar. Nem de perto - embora a espontaneidade costumeira estivesse ali.

Plural, Marília cresceu no sertanejo como compositora. Ganhou os holofotes no momento em que aquela estúpida hierarquia masculina começou a ser questionada no gênero, na virada da década passada. Foi como um vento fresco de criatividade em um sertanejo que vivia uma crise por novidade.

Ao lado de outras tantas vozes como Naiara Azevedo, Simone & Simaria, Maiara & Maraisa, ela capitaneou este movimento.

Com a lição de casa dos modões bem feita e respeito aos clássicos, Marília apontou para o futuro da música sertaneja sem se preocupar em manter padrões ou estéticas. Era livre como seu coração gostava de cantar.

"Todos os Cantos", o álbum de 2019, é um grande exemplo dessa renovação.

Como escreveu a colunista Luciana Bugni, ela ensinou a gente a sofrer.

Marília vestiu a coroa de rainha de uma sofrência real, daquela que qualquer um reconhece. É justamente esse o charme se suas músicas: todos que já tiveram o coração partido pelo menos uma vez na vida se identificam com aqueles versos. "Ninguém vai sofrer sozinho, todo mundo vai sofrer", como ela mesma cantou.

Chamá-la como voz do feminejo é até limitador, contudo. A artista não enxergava o mundinho das músicas em caixinhas. Ainda bem.

Marília fazia até o punk mais hardcore chorar, mais do que qualquer artista emo. E também fez esse mesmo punk sorrir, com versos como: "Tá espalhando por aí que eu esfriei, que eu tô mal, que eu tô sem sal, realmente eu tô sem saudade de você".

Perdemos a chance de ouvir o potencial total de Marília. Queria vê-la ao lado de Caetano Veloso, que a homenageou na música "Sem Samba Não Dá" (com o verso "Maravília Mendonça, afinação"), de Anitta e também da Fresno. No Lollapalozoa e Rock in Rio.

Em 2021, Marília lançou um projeto gigante com Maiara e Maraisa (que se tornaria turnê) e também participava de músicas interessantes como uma parceria com Luísa Sonza, "melhor sozinha", que era uma balada de coração partido livre de rótulos, de voz, violão e tristeza.

Esse era o futuro de Marília Mendonça, um lugar musical amplo. Compositora e intérprete de primeira qualidade, era a maior voz da sua geração. Com 22, havia se tornado a artista mais ouvida do Brasil.

Imagine com 32? Podia ser a grande voz brasileira do século. Tinha um potencial de conexão entre gêneros que ninguém mais mostrou até aqui.

A partida prematura aos 26 anos encerra uma trajetória que só tinha a crescer.

Hoje, Marília, a música brasileira sofre. Só que por você.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).