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Pedro Antunes

Você lembra do disco da Xuxa que aterrorizava as crianças nos anos 90?

Xou da Xuxa aterrorizou a criançada nos anos 90 - Montagem: Pedro Antunes
Xou da Xuxa aterrorizou a criançada nos anos 90 Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

31/10/2021 04h00

Não temos o Halloween, o dia das bruxas, também não celebramos o dia dos mortos ou coisa parecida.

Criaram o tal de Dia do Saci para valorizar o produto nacional, o que faz sentido na ideia de cultivar a nossa cultura, mas, convenhamos, a geração que hoje tem 30 anos não tem medo de Saci, né?

Somos uma turma que cresceu com Fofão e Sérgio Malandro como personagens dedicados ao público infantil; que assistiu ao filme "Chucky, o Brinquedo Assassino" na TV aberta - e, portanto, que aprendeu a valorosa lição de guardar os brinquedos no lugar antes de dormir; que se arriscava ao invocar a Loira do Banheiro na escola.

Uma geração que tinha "Xou da Xuxa" em vinil - um disco estranho já na capa, com a Xuxa toda torta, como se estivesse alongando o ciático ou coisa parecida.

Xou da Xuxa aterrorizou a criançada nos anos 90 - Montagem: Pedro Antunes - Montagem: Pedro Antunes
Xou da Xuxa aterrorizou a criançada nos anos 90
Imagem: Montagem: Pedro Antunes

Quem precisa de Halloween quando seu coleguinha de escola (que tinha um irmão mais velho com a intenção de assustar a molecada) contava a lenda de que a Xuxa teria feito um pacto com o "cara lá de baixo" para fazer sucesso.

Segundo esta teoria completamente infundada, os discos dela, em especial o hit "Xou da Xuxa", traziam mensagens escondidas sobre o tema.

Nunca entendi muito bem qual sentido de alguém deixar propositalmente "pistas" a respeito de algo que deveria ser segredo. Mas tudo bem. Éramos crianças e descobrir o mundo fazia parte da nossa aventura diária.

Neste caso, o desafio era reunir os amiguinhos na casa de alguém e girar o disco de vinil do "Xou da Xuxa" ao contrário para decifrar algumas das tais mensagens.

Era uma prova de coragem ser o responsável por girar o disco - e até estar no mesmo cômodo no momento requeria brio e dava pesadelos por semanas a fio.

Em "Ilariê", diziam que você ouviria algo como "ele virá, ele virá", como se a Xuxa anunciasse a chegada do tinhoso.

No trecho que mais me assustava nesta música diziam ser possível ouvir a apavorante frase "meu corpo tá todo mole".

Atualmente é possível ouvir a versão ao contrário no YouTube. Dê o play se tiver coragem.

Outras músicas do álbum também estão na lenda. "Doce Mel" teria mensagens de "sangue, sangue, sangue", por exemplo. Afe.

Lançado em 1986, o "Xou da Xuxa" vendeu mais de 2 milhões de cópias naquele ano (foi o mais vendido do Brasil naqueles 12 meses). E marcou o início do reinado da Xuxa na TV Globo que só seria interrompido décadas depois.

Xuxa manteve uma carreira de muito sucesso, acredite você ou não na lenda urbana sobre as mensagens subliminares.

Em entrevista para o Felipe Neto, há alguns anos, a Xuxa disse que o "xuxesso" dela se deve ao "cara lá de cima" e não a qualquer pacto com o diabo.

Claro, lendas sobre álbuns de vinil girados ao contrário não são novidades na música pop. Mensagens escondidas em discos geraram a teoria de que Paul McCartney teria morrido e sido substituído por um sósia, e que os integrantes do Led Zeppelin teriam vendido a alma para conseguir sucesso.

É como se todo o sucesso não dependesse do artista em si e, sim, de uma venda de alma ou coisa parecida.

As mensagens subliminares de Beatles e Zeppelin são mais "claras" de se ouvir (muito entre aspas, mesmo) do que a lenda da Xuxa.

Era, portanto, um exagero o que diziam ser possível discernir de "Xou da Xuxa" se girado ao contrário. Funcionava mais como uma história para aterrorizar a criançada, quebrar as correntes das vitrolas e mostrar que o Brasil também tinha sua lenda urbana de mensagens subliminares.

Digo isso tudo, contudo, na segurança dos meus 35 anos, diferentemente de quando tinha 10 anos de idade e era suscetível às lendas urbanas.

Cá entre nós, ainda confesso ter arrepios só de lembrar do tal "meu corpo tá todo mole".

Quem precisa de Halloween e monstros de Hollywood se temos o vinil da Xuxa?

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).