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Pedro Antunes

Bem-vindo de volta, Studio SP. Só não garanto ter o mesmo pique de antes

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

19/10/2021 15h47

Ela girava e a saia rodava junto. O jogo de luzes caleidoscópicas tornava tudo ainda mais psicodélico. Mais uma cerveja? Claro. Mais um cigarro? Claro também. No palco, alguém tocava. Uma banda? Talvez. O som era bom. No público, um monte de gente conhecida cujos olhares se cruzavam com os meus, mãos acenavam e a atenção voltava para o palco.

Atenção sempre no palco. Havia algo de especial acontecendo ali e cada um de nós sabíamos disso. Há quem tente forçar o nascimento de cena musical, com batizados rebuscados e ideias chinfrins, mas ali, na virada da primeira para a segunda década dos anos 2000, as coisas estavam realmente acontecendo.

A região do Baixo Augusta, entre o bairro do Jardins e a região central de São Paulo, era centro gravitacional de quem, como eu, tinha vinte e poucos anos, queria conhecer gente, encontrar os amigos, encher a cara sem gastar uma fortuna, dar uns beijos na boca e descobrir música boa.

Parte importante desse movimento era o Studio SP, que abria espaço para a turma nova de diferentes estados do País. É como se a playlist "Descobertas da Semana", do Spotify, acontecesse ao vivo, na região que mais fervilhava da cidade.

Claro, isso tudo mudou. O tempo, implacável, passou uma vassoura e levou tudo embora.

O Studio SP como conhecíamos foi sufocado pela gentrificação da região. A Rua Augusta, como um todo, é outra - passei, dia desses, pela região e me assustei com a transformação.

Aliás, ninguém mais é aquela pessoa que frequentava o Studio SP. Mudam-se os gostos, as referências, as saias rodadas e o prazer com cigarros baratos.

Ali tocaram artistas em começo de carreira como Vanguart, Thiago Pethit, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Tiê, A Banda Mais Bonita da Cidade (quando estourou com "Oração", a música lá da "estante", lembram?). Criolo foi um acontecimento ali, com o fenomenal "Nó na Orelha".

Sorri quando abri o email de pauta, portanto.

É, sobretudo, feliz e oportuna a notícia de que o berço do hype paulistano, o Studio SP, está de volta, em uma ação temporária, amparada pela Heineken. No clássico endereço do número 591, da Augusta, a casa abrigará shows até dezembro de 2022.

A programação até dezembro deste ano acabou de sair. E está quentinha e cremosa.

19/11: Céu
20/11: Zumbi Funk - KL Jay e convidados
24/11: Cedo e Sentado - Nina Maia e Chico Bernardes
25/11: Tuyo
26/11: Chico Chico
27/11: Miranda Kassin em I Love Amy
1/12: Cedo e Sentado - Gaê e 2DE1
2/12: Noite Coala
3/12: Tiê part. Valmir Lins
4/12: Otto
8/12: Cedo e Sentado - Marina Melo e Bemti
9/12: Noite Fora do Eixo
10/12: Vang Beats - Vanguart apresenta Beatles
11/12: Del Rey
15/12: Cedo e Sentado - Trevo e Marietta
16/12: Luedji Luna + Zudizilla
17/12: Inocentes 40 Anos
18/12: Heroes - André Frateschi canta David Bowie
22/12: Bixiga 70

Muitas dessas bandas/projetos eram recorrentes ali, como o "Heroes" (de covers de David Bowie cantadas por André Frateschi), ou Vang Beats (Vanguart tocando Beatles).

Também está de volta o projeto Cedo e Sentado que, às terças-feiras, abria o palco para bandas independentes e talentosas, com entrada gratuita.

A casa, por enquanto, irá operar em 70% da capacidade e só permitirá entrada de pessoas mediante a apresentação do comprovante de vacinação. Você pode encontrar mais informações de ingressos que já estão disponíveis no post acima.

É emblemático que primeiro show deste retorno seja da cantora Céu, que estreou o homônimo álbum dela e também o primeiro da carreira, naquele palco, em 2005.

O retorno do Studio SP se dá justamente no período de euforia criado com o aumento da porcentagem da população completamente vacinada em São Paulo depois de um ano e meio sem shows.

E a reabertura mexe com a nostalgia de quem, como eu, viveu aqueles dias com a intensidade que só os 20 e poucos anos permitem.

Já vou avisando que não sei se tenho saúde, pique ou idade para aquelas noitadas. Hoje não fumo, avalio o tamanho da ressaca antes de qualquer gole e programo cada saída noturna para não prejudicar a métrica de sono da semana. Sim, virei uma das pessoas de quem zombava na juventude.

Mas seja bem-vindo de volta, Studio SP, epicentro de uma cena musical intensa e endereço de memórias que, anos depois, se tornaram lembranças exatamente como o primeiro parágrafo deste texto. Um apinhado de flashes confusos e cenas embaralhadas, mas inegavelmente boas.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).