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Pedro Antunes

Os três discos azarados ofuscados pelo furacão de 'Nevermind', do Nirvana

Nirvana ofuscou três outros grandes álbuns, mas quem pode culpá-los, não é?  - Montagem: Pedro Antunes
Nirvana ofuscou três outros grandes álbuns, mas quem pode culpá-los, não é? Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

24/09/2021 04h00

A história da música é ingrata.

No dia 23 de setembro de 1991, as bandas de rock Primal Scream e Pixies lançaram álbuns referências para gerações de "indie rockers" que viriam a seguir: o psicodélico e dançante "Screamadelica", e o intenso e melodramático "Trompe Le Monde".

Por si só, são discos importantes e que estariam em listas de melhores de 1991, da década e, quiçá, de todos os tempos.

Mas, como disse, a história contada nem sempre é justa com todos.

Porque, no dia seguinte, naquele 24 de setembro de 1991, o mundo como o conhecíamos foi profundamente impactado por "Blood Sugar Sex Magik", de Red Hot Chili Peppers, e principalmente por um tal de "Nevermind", do Nirvana.

Sim, 30 anos atrás, aquele jovem fã de rock que fosse à uma loja de discos precisaria decidir entre estes quatro álbuns fundamentais para torrar a mesadinha que recebia dos pais de classe média.

De certo - e eu posso apostar -, o guri ou a guria levou para casa o "Nevermind".

Para Pixies, Primal Scream e até para o todo-poderoso Red Hot Chili Peppers, lançar o álbum nestas 48 horas deve ser a mesma sensação de quem nasceu nos dias 24 ou 25 de dezembro.

Como competir com o Natal, afinal? Nem mesmo na festa de 30 anos você conseguirá tirar muitos amigos das suas reuniões familiares para beber com você e celebrar a vida adulta enfim chegada.

Nada que diminua o impacto de cada um destes álbuns. Na verdade, talvez o rock nunca tenha sido tão feliz como naqueles dois dias. Abaixo, conto mais o motivo disso.

O Primal Scream, banda inglesa nascida antes do britpop existir e ser cool, vinha de um movimento indie ruidoso de rock inglês até se deparar com as festas entorpecidas por ácido no interior do Reino Unido e, com Screamadelica, criar uma obra-prima colorida, imaginativa e dançante. Era a representação daquele meme de cabeça explodindo, sabe?

Aqui, você sente uma referência que vai de Rolling Stones ao gospel, passando por uma psicodelia.

Percebe?

Menos popular entre os quatro lançamentos desta lista, "Trompe le Monde" é vítima de sua própria banda, tão corrosiva. Considerado uma espécie de pré-álbum solo de Black Francis, vocalista do Pixies, "Trompe le Monde" tinha a dura missão de suceder o aclamado disco "Bossanova".

E como resultado disso entregou uma música diferente da outra, algumas turbinadas por punk desenfreado característico do grupo, como em "U-Mass" ou "Planet Sound", outras amparadas por uma melodia pop e guitarras peso pesado, como "Alec Eiffel" e a melancólica "Trompe le Monde".

Abaixo, um vídeo com uma qualidade duvidosa de uma deliciosa apresentação do grupo no programa de David Letterman, na TV norte-americana. Sinta a força da guitarra ali.



Você pode ouvir "Blood Sugar Sex Magik" e perceber uma banda em transformação. O Red Hot Chili Peppers que se conhece hoje, fruto do tempo em que se tornou queridinha da MTV no final da década de 1990 com o álbum "Californication", aqui vivia entre extremos.

A guitarra de John Frusciante abandonava o peso em excesso, em mais, leve dialogava ainda melhor com o baixo funkeado de Flea. Mais melódico, mas sem perder o groove, "Blood Sugar Sex Magik" ia de temas sexuais à perda da batalha contra as drogas com a intensidade de uma briga de rua: tudo ao mesmo tempo.

"Ofuscador de álbuns", "Nevermind" é uma obra-prima. O álbum mostrava como a entrada de Dave Grohl ao trio já formado por Kurt Cobain e Krist Novoselic foi saudável, sonoramente falando. Animalesco nas baquetas, Grohl preenchia a cozinha das canções com o baixo de Novoselic enquanto Kurt se sentia a vontade para soltar seu lado mais selvagem como compositor, vocalista e guitarrista.

"Nevermind", além disso tudo, também conquistou a molecada. Os jornalistas. A indústria. De repente, tudo o que fora feito antes daqueles breve petardos musicais de Cobain e cia. pareciam velhos e datados - sim, estou falando dos dois volumes enfadonhos de "Use Your Illusion", do Guns N' Roses, lançados pouco antes.

Sinta a pressão dos shows do grupo na época:

Amanhã, dia 24 de setembro de 2021, todo mundo celebrará os 30 anos de "Nevermind" , sobretudo, alardearão o quão o álbum é excepcional. E, de fato, o segundo disco do Nirvana e é tudo isso.

Mas poucos lembrarão dos outros três. Então, deixo registrada aqui a minha homenagem a "Screamadelica", "Trompe Le Monde" e "Blood Sugar Sex Magik". Feliz 30 anos.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, é claro).