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Pedro Antunes

Avicii, o DJ vítima da indústria que não compreendia a saúde mental

Avicii é homenageado no Doodle de hoje - Foto: Sean Eriksson / Montagem: Pedro Antunes
Avicii é homenageado no Doodle de hoje Imagem: Foto: Sean Eriksson / Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

08/09/2021 13h29

O Doogle de hoje (aquela animação especial que faz uma homenagem por dia na página inicial do Google) celebra Tim Bergling, o artista conhecido mundo afora como Avicii, que hoje completaria 32 anos.

E é difícil não se emocionar com o vídeo, viu?

O DJ cometer suicídio aos 28 anos e seu corpo foi encontrado já sem vida em um quarto de hotel em Omã, em 2018.

Avicii chegou ao panteão da música eletrônica, em uma altura em que pouquíssimos artistas alcançaram.

E muito disso se deve à "Wake Me Up", canção com participação do cantor Aloe Blacc e que embala do vídeo do Google.

A faixa ficou 72 semanas nas paradas do Reino Unido (e alcançou o primeiro lugar). Já nos Estados Unidos, a mesma "Wake Me Up!" chegou ao quarto lugar em 2013. No total, o sueco teve 7 músicas que entraram no disputadíssimo Hot 100.

Mais que um DJ

Avicii é cria de uma geração em que o DJ deixou de ser só um DJ. Eles se tornaram popstars.

Isso mudou o jogo. Enquanto a música eletrônica se expandia e abocanhava quinhões cada vez maiores da música pop, os responsáveis por incendiar as tendas dos festivais de EDM também se tornaram requisitadíssimos pelo universo da indústria radiofônica.

E Avicii entendia de pop como poucos.

Parece que só agora, em pleno 2021, o mundo realmente entendeu a força e impacto da estética sueca no que conhecemos por música popular.

Há um episódio especial dedicado ao tema na série "This is Pop", da Netflix, que mostra como produtores, engenheiros de som e artistas do país redefiniram a música que consumimos até hoje.

"Crescemos cantando grandes canções folk e é por isso que temos uma boa noção de melodias. Isso cresce dentro de você", justificou Avicii em 2014, em uma entrevista ao Evening Standard.

Some as ótimas melodias da música local às ascensões de Eric Prydz e Swedith House Mafia, que Avicii também ouvia ao crescer, e seu mix estava formado.

Tim Bergling foi responsável por unir batida da house music à EDM, sigla para eletronic dance music. E fez sucesso ao incluir as vozes de convidados, seja com o cantor citado Aloe Blacc, ou com samples, como é o caso de "Something's Got a Hold on Me", de Etta James, que marca o house progressivo de "Levels", outro dos seus maiores sucessos.

Avicii colaborou com gente como Madonna, Lenny Kravitz, Rita Ora, Sia, Coldplay, Leona Lewis, Robbie Williams e o eterno DJ superstar David Guetta.

Discografia

Avicii era um artista dos singles em uma indústria que mantinha a ideia fixa de álbuns. Com isso, seus trabalhos cheios são inconstantes.

"True", de 2013, é possivelmente o melhor dos três discos (dois lançados com ele em vida e "Tim", um álbum póstumo). Ali, nesta estreia, Avicii mostrava ser muito mais que um discípulo de Moby, estrela da música eletrônica recente, com o carro-chefe de "Wake Me Up".

Quando "Stories" (2015) saiu, Avicii deixava claro que sua capacidade melódica precisava das batidas da EDM para funcionar. A Rolling Stone EUA até publicou uma crítica em que dizia ser "uma pena que ele trouxe pouca EDM para a conversa".

Sendo álbum póstumo, "Tim" não pode ser avaliado como outros discos da carreira. Embora inconstante, o trabalho emocionalmente afetivo como um abraço.

A teoria da conspiração

A morte de Avicii é alvo de uma teoria da conspiração das mais aleatórias que a internet pode criar, regar e reproduzir.

A história é que o sueco, na verdade, teria sido assassinado, assim como Chester Bennington (vocalista do Linkin Park), Chris Cornell (vocalista do Soundgarden) e Anthony Bourdain (o chef superstar).

Na teoria conspiratória, os quatro trabalhavam no documentário chamado "The Silent Children", que tratava de tráfico sexual humano e, principalmente, infantil, e as mortes teriam o intuito de impedir que o filme fosse lançado.

A história compartilhada diz que todos foram mortos, mas que as cenas dos crimes foram alteradas para simular suicídios.

A Reuters fez um "fact checking" (em inglês) para provar que isso não passa de fake news.

Músicas fora da caixinha

Gosta de Avicii, mas quer ir além da caixinha de hinos pop? Abaixo, algumas músicas que merecem sua atenção.

Esse encontro de flamenco da Bebe, lançado em 2004, é uma preciosidade.

Que coragem do Avicii em remixar o Daft Punk, ein? Esta versão ficou delirante.

Esta aqui é uma canção que mostra a força de se lapidar cada camada de som, a potência do drop e como um refrão pode ser transformador mesmo sem vocais.

Aqui, o DJ se aproxima do mandopop de Wang Leehom, que possui uma estrutura diferente do que Avicii havia feito antes.

320 shows por ano

Avicii foi uma vítima de uma indústria vampiresca. Enquanto bandas e outros artistas pop precisam de um caminhão de equipamentos e equipe para cada turnê, um artista da eletrônica possui um staff geralmente mais simples. Por mais pirotécnica que seja a performance, ela não inclui bailarinos, trocas de figurino, múltiplos canais para passagem de som.

O crescimento dos festivais de música eletrônica se encaixa nessa história também, já que o palco não precisa ser inteiramente trocado a cada performance.

O excesso de apresentações levou Avicii à estafa. O corpo dele pediu por uma pausa. No auge do sucesso de "Levels", em janeiro de 2012, o sueco foi internado diagnosticado com pancreatite aguda causada por excesso de álcool.

Outros problemas se juntaram ao prontuário médico do artista até 2016, quando ele anunciou aposentadoria das turnês.

Os recados deixados por Avicii estavam bem claros, mas talvez a gente ainda não entendesse como tratar a saúde mental de artistas gigantes que, para o resto do mundo, pareciam ter o mundo nas mãos.

O escapismo latente das faixas de Avicii não eram escolhas estéticas apenas. A progressão de acordes ascendentes também não.

Do jeito que ele sabia, o garoto colocava para fora o que o angustiava.

O problema foi que ninguém ouviu isso em meio às harmonias pop que galgava posições nas paradas.

CVV

Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda no CVV e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade.

O CVV (https://www.cvv.org.br/) funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.