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Pedro Antunes

Juliette só precisava de um potencial hit. E conseguiu mais do que isso

E não é que Juliette lançou, mesmo, um EP? - Montagem: Pedro Antunes
E não é que Juliette lançou, mesmo, um EP? Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

02/09/2021 21h00

Quando Juliette anunciou o EP de estreia, disse que a música sempre foi seu refúgio. No BBB 21, onde ela se sagrou campeã e viu sua vida virar de cabeça para baixo com uma fama que nem o mais otimista imaginaria, a música a levava para outros lugares, bem distantes das intrigas de Curicica.

Hoje, com 32,6 milhões de seguidores que se autodenominam cactos no Instagram, Juliette não é só mais um fenômeno. É furacão de redes sociais e, tais quais esta realidade paralela das redes, não há meio-termo. É like ou hate.

Mas quando estamos falando de música, de arte, não é possível ser tão binário assim. "Juliette", o EP de estreia dela, não funciona assim.

A música é parte de Juliette, como ela escreveu, mas isso não a transforma em uma artista da música completa. Ainda.

O EP "Juliette", a estreia da vencedora do BBB 21, tem o selo Anitta de qualidade (Larissa de Macedo Machado, a nossa "girl from rio", assina direção artística e musical), mas não se arrisca por um caminho pop eletrônico, dançante, ou outros experimentalismos.

Como esperado (e adiantado pela coluna em uma previsão não-tão-furada-assim), Juliette fez um híbrido de forró e folk fofo, como se promovesse o encontro entre Anavitória e Chico César, com letras de amor gostosinho e dança coladinha a passos curtos (o excesso de diminutivo é proposital, neste caso).

Sem tentar inventar a roda, Juliette entrega seis músicas que dialogam entre si, convivem em um universo harmônico semelhante e que tratam de temas íntimos, como a relação com a mãe e descobertas desta nova vida.

Sabe aquele arroz e feijão gostoso, bem temperadinho, que só sua avó é capaz de fazer? Tem gosto de infância. Este EP segue esta linha. Em vez de voar longe, Juliette preferiu ficar o mais perto possível de quem foi antes da fama. O que faz sentido, inclusive, para evitar um tropeção antes da hora.

Não duvido que Juliette vá parar em charts e paradas globais nas plataformas de streaming. Ela tem engajamento o bastante para isso.

O principal, para este lançamento, era ter hit com potencial para sustentá-la depois da primeira onda.

É "Vixe Que Gostoso", a última música do trabalho e aquela com o refrão mais bem encaixado do EP. Nele, apesar do começo pomposo, o refrão é deliciosamente leve e a voz de Juliette parece completamente solta.

"É que seu beijo é massa
Eu gosto quanto tu me amassa
Quando tua língua passa devagarin..."

Como não gostar? Eu ouvi algumas vezes e já estava cantarolando pelo centro de São Paulo hoje à tarde, distribuindo spoiler algum cacto mais atento.

Como acontece no pop contemporâneo, as composições do EP são assinadas por um punhado de artistas.

No caso de "Vixe Que Gostoso" estão: Shylton Fernandes (de músicas como "Só Tem Eu" e "Recairei"), Diego Barão ("Atrasadinha" e "Morena") e Lucas Medeiros ("A Distância tá Maltratando" e "Vai ter que Aguentar").

Do começo ao fim, o EP "Juliette" é um trabalho correto, sempre fofo, mas sem cruzar algum limite que pudesse colocar a artista em um lugar desconfortável ou desfavorável demais.

E, mesmo "correto", o trabalho receberá mais atenção do que outros EPs melhores, mas porque Juliette é gigantesca. Um monte de gente chiará, preparem-se. Entre outras coisas, é recalque, sim.

Juliette, afinal, é a notícia. Ela foi o maior acontecimento do entretenimento de 2021 que, no final do ano, se jogou na música. Como ignorar isso? Quem o fizer, será de propósito.

É a mesma coisa no cinema. Filmes da Marvel estreavam em milhares de salas e eram capas dos jornais. Isso não significa que eram melhores do que aqueles longas do diretor hypado que só estreará no circuito experimental das metrópoles. Eram dois produtos distintos até.

Louvar o EP além da conta (com frases como "nunca errou" e elogios excessivos) também é extremamente problemático porque arranca de Juliette a oportunidade de sentir o gosto que é não estar 100% correta.

O errar é o caminho mais doloroso, mas o mais direto, para o acertar. (Eu acho que inventei essa frase, mas se for de alguém, me desculpe).

Tirar a chance de Juliette vivenciar este processo é impedir que ela atinja o potencial gigantesco que tem.

O primeiro passo foi dado. Ela precisava de um hit em potencial. De cara, conseguiu.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes) ou no Twitter (também @poantunes).