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Pedro Antunes

Charlie Watts, um put* de um baterista

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

24/08/2021 14h47

Mick Jagger, que nem de perto chegou aos níveis de álcool e drogas ingeridos pelo colega de banda Keith Richards, também tomava seus porres. E, certa vez, bêbado em turnê, ligou para o quarto de Charlie Watts exigindo a presença de "seu baterista", no meio da noite.

Watts foi até lá, segundo relatos, com a barba feita e vestido um terno. Alinhadíssimo, desferiu um soco no rosto de Jagger sem qualquer cerimônia.

"Nunca mais me chame de 'seu baterista'. Você que é a porr* do meu vocalista!"

Em uma banda tão flamejante quanto os Rolling Stones, Charlie Watts (morto hoje, aos 80 anos) até poderia aparecer como esse sujeito tímido, mas isso não significa que um dos maiores bateristas de todos os tempos (o 12ª segundo uma eleição da revista Rolling Stone) tinha sangue de barata correndo nas veias.

Pelo contrário, ele era o combustível que, a cada batida, levou Richards, Jagger e companhia para ganhar o mundo. Sem exibicionismo ou egotrips famosas, Watts segurou o tranco de ser um Stone com elegância. Sem perder aquela postura ereta sentado na banqueta atrás dos tambores de sua bateria.

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Vê-lo em ação, enquanto o resto da banda se pavoneava de um lado para o outro do palco, era poético até. Segurava as baquetas como um artista do jazz e, impassível, nem sequer parecia se esforçar para injetar um grooveado único e alinhar o rock arisco e blues norte-americano.

Ao longo de 50 anos com os Stones, Watts foi preciso e precioso. Como um mago que moldava a realidade à sua maneira, suingava quando necessário (como em "Brown Sugar"), mas também era rígido e quase militar quando necessário (como no hino "Satisfaction").

Discreto. Esta talvez seja a melhor forma de descrever o artista londrino e que já conhecido da cena da capital no início dos anos 60 quando foi abordado pelos jovens Mick Jagger, Keith Richards, Ian "Stu" Stewart e Brian Jones para se juntar à banda que seria os Stones.

O convite ocorreu em meados de 1962, quando Watts era baterista da banda Blues Incorporated, grupo de sucesso nos clubes da cidade na época, liderado por Alexis Korner, conhecido como "fundador do blues britânico".

Em janeiro de 1963, Watts topou ingressar nos Stones - e tocou em todos os álbuns do grupo, assim como Richards e Jagger, desde então.

"Você é um ótimo guitarrista", disse Watts a Richards, na ocasião, ao explicar dos motivos que o levaram a aceitar o convite e se tornar integrante da banda, "mas você precisa de um put* de um baterista."

E este foi Watts. Um put* de um baterista. Um dos grandes da história. Sem ele, o que seria de Richards e do rock and roll?

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes) ou no Twitter (também @poantunes).