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Pedro Antunes

Ney Matogrosso, Maria Bethânia e a arte como remédio para curar as solidões

Ney Matogrosso e Maria Bethânia nos lembram como é bom ter esperança - Fotos: Jorge Bispo (Bethânia) e Leo Aversa (Matogrosso) / Montagem: Pedro Antunes
Ney Matogrosso e Maria Bethânia nos lembram como é bom ter esperança Imagem: Fotos: Jorge Bispo (Bethânia) e Leo Aversa (Matogrosso) / Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

01/08/2021 15h50

Sem tempo?

  • Na sexta-feira, Maria Bethânia lançou o álbum Noturno.
  • Dois dias depois, no domingo, Ney Matogrosso comemora o aniversário de 80 anos com o EP Nu Com a Minha Música
  • Dois gigantes da música brasileira nos lembram como a arte é carinho em dias frios e solitários demais.

Minha tia Janice, ou carinhosamente chamada de Jane, ama Ney Matogrosso. Uma, duas ou três vezes por ano ela deixa o simpático sítio na cercania de Itapeva, no sul do estado de São Paulo, para vir à capital porque leu no jornal que Ney passaria por aqui.

"Eu pago pelo táxi", dizia ela, sem espaço para discussão, quando eu conseguia os convites para mais uma performance. E lá íamos nós até as casas de show na zona sul, sempre distantes do centro de São Paulo, para nosso encontro com Ney Matogrosso.

Não importava se era a mesma turnê e consequentemente o mesmo roteiro da apresentação, lá estava ela e eu me vidrava em perceber os olhinhos dela, por trás de um par de lentes grossas, vidrados pela figura esguia e revolucionária que é o artista no palco.

Com mais de 70 anos, corpinho magro e pequeno, titia se arrumava para assistir às apresentações como se fosse para um date com Ney em pessoa.

No último um ano e meio de pandemia, tia Jane tem se cuidado bastante lá no interior, tomou vacina sem escolher fabricante e só deixa seu sítio vez ou outra, principalmente quando vem visitar a filha que também mora em São Paulo e não aguenta mais ir aos shows do Ney. (Herdei dela a missão de acompanhar minha tia em todos os shows e adoro.)

Sinto ela tristezinha nesses tempos. Tia Jane é uma figura inspiradora, realmente, que sente falta de cultura, quer voltar aos cinemas, teatros e, claro, às apresentações dele, o aniversariante de hoje.

Eis que, com os recém-completados 80 anos, Ney Matogrosso é obstinado. Lançou neste dia, no domingo, o EP "Nu Com a Minha Música", com quatro músicas, disponível em todas as plataformas de música por streaming.

O trabalho antecipa um novo disco de Ney, previsto para novembro. E um álbum de estúdio significa também uma turnê e, por consequência, mais um encontro com a minha tia quando a arte puder existir em teatros, casas de espetáculos e tudo mais.

"Nu Com a Minha Música" mostra este intérprete incansável, insolente e intenso de oito décadas de existência. Com a música-título, de autoria de Caetano Veloso, Ney canta o otimismo como há tempos eu não ouvia.

É o som da esperança que ouvimos na voz sobrenatural de Ney quando ele entoa: "Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor". É por aí, mesmo.

Além desta faixa, que ganha deliciosos sopros e uma percussão mais encorpada, Ney canta "Mi Unicornio Azul" (de Silvio Rodríguez, 1982), dá voz a uma bela parceria entre Lenine e Lula Queiroga ("Se Não For Amor, Eu Cegue") e ao clássico "Gita", de Paulo Coelho.

Ney canta amores em quatro músicas, em distintos aspectos, da ausência à explosão orgástica de um refrão icônico como "eu sou o medo de amar".

O Amor.

Em tempos de tanto ódio. E de tanta saudade.

E, nesse ambiente ainda cheio de medo, insegurança e pequenas pontas de esperança aqui e acolá a cada braço direito vacinado, os gigantes da música brasileira nos lembram do que é mais importante nessa vida. O sentir.

Dois dias antes de Ney, Maria Bethânia, com seus 75 anos, soltou "Noturno", um álbum sobre uma madrugada avassaladoramente apaixonada, melancólica e intensa.

O novo disco de Bethânia, alvo de debates inúteis sobre a capa minimalista (e, cá entre nós, fenomenal), traz músicas inéditas de gente da minha geração (ou até mais jovem), como Zeca Veloso (autor da melancólica "O Sopro do Fole") e Tim Bernardes (o bolerinho "Prudência").

Sob a direção musical do maestro Letieres Leite, também criador dos arranjos de "Noturno", Bethânia nos leva noite afora, afogados por copos de bebida de alto teor alcoólico e de lembranças, algumas doces e outras azedas.

Há uma dualidade na voz, nos ritmos e no repertório aqui. O canto de Bethânia aproxima o que é desespero e o que é esperança ao longo de "Noturno". Criado na pandemia, o álbum reflete a nossa montanha-russa diária que, em looping, salta da euforia ao pessimismo, do pessimismo à breve euforia.

Bethânia e Matogrosso, dois gigantes da música popular, nos lembram como a arte é remédio. Como a arte afaga e também aproxima, apesar da necessidade de ainda mantermos o distanciamento social. Arte aproxima, acolhe, acarinha, abraça e faz um cafuné gostoso.

Hoje cedo troquei mensagens com minha tia Janice, por exemplo. E embora imagine que ela não tenha uma assinatura em alguma plataforma de música por streaming para ouvir "Nu Com Minha Música", avisei-a sobre as músicas de Ney.

Quando isso tudo acabar, ela terá um novo show do artista favorito para ir. E estarei ali do lado dela, tentando, em vão, pagar pelo Uber enquanto ela vai insistir em usar o táxi e pagá-lo com dinheiro em espécie.

Se ela sorriu do lado de lá, me respondendo com palavras carinhosas e emojis de beijinhos em formato de coração, sorri também do lado de cá. E, às vezes, é só isso que a gente precisa em um domingo frio demais.