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Pedro Antunes

Indie, punk e a inquietude de Deb and the Mentals

Vai um petardo de Deb and the Mentals aí?  - Foto: Murilo Amancio / Montagem: Pedro Antunes
Vai um petardo de Deb and the Mentals aí? Imagem: Foto: Murilo Amancio / Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

30/07/2021 11h20

Deb Babilônia, a vocalista da instigante banda punk/indie/rocker Deb and the Mentals, me chamou há mais de um mês para falar sobre o primeiro single do grupo em português (serão alguns ao longo deste ano), que seria lançado no dia 30 de julho pelo El Rocha Records (selo espertíssimo recém-criado por Daniel Ganjaman, Fernando Sanches e Carox).

E, desde então, tem enviado atualizações sobre a música, a produção, as estratégias de divulgação, planejamento de lives e tudo mais.

Ser artista independente é muito mais do que sentar a bunda no sofá e compor uma canção.

Deb, que justifica a organização acima da média pelas cinco casas em capricórnio no mapa astral, me parece a representação do que é o rock nacional em tempos pandêmicos e de grana apertada, do corre de ter mais de um emprego, do diálogo com as marcas, das novas formações de banda, das estratégias de se posicionar no mercado e, nesse meio tempo, tentando fazer uma música boa.

Me lembrei da vida do próprio jornalista (que se desdobra, em vinte trabalhos diferentes, para bancar os boletos cada vez mais pesados). No Twitter, outro dia, vi um vídeo desse correspondente em Tóquio que fez participações em programas de TV de seis países diferentes.

(Perdão por trazer meu próprio tuíte, mas acho que ajuda a entender o que estou falando).

Vivemos numa versão atualizada do ditado "assobiar e chupar cana". A versão 2021 dele é "assobiar, chupar cana e fazer um vídeo de Reels para postar a proeza nas redes sociais".

Mas o que existe é uma vontade de fazer, apesar das pedras pelo caminho. Pedras estão ali para rolarem, mesmo (sacou a referência aos Rolling Stones ou ao verso de "like a rolling stone", do Dylan?).

No caso de jornalistas especializados em música, isso se apresenta em escrever ou produzir conteúdo onde quer que seja possível. Seja numa coluna no maior portal do País (chique, eu sei), seja nas redes sociais, num site independente, num jornal, num podcast, enfim, o meio é indiferente nesse caso.

Para artista, acima de tudo, o lance é fazer uma música ótima.

E aí que chegamos, de novo, em Deb and the Mentals e no single de "Maratona", lançado pelo grupo nesta sexta-feira (30), o primeiro com a atual formação - com Deb Babilônia (voz), Ricardo Dom (guitarra), Bi Free (baixo) e Tonhão (bateria).

Você também pode ouvi-la nas plataformas de streaming:

O grupo tem um histórico bacana, tocou em festivais que vão de Rock in Rio e Bananada, os maiores do mainstream e da música underground brasileiro, fez parcerias com marcas descoladas tipo a Vans e a KitKat, e provocou burburinho com um álbum de estreia elogiado, o "Mess", de 2017.

Ao ouvir "Maratona", me percebi nestes versos, no desespero, no afogamento e também na transformação. E também enxerguei Deb e outros tantos artistas da música independente que fazem o corre.

"Maratona" é petardo de guitarra vigorosa, bateria intensa e os vocais angustiantes e autobiográficos de Deb. Impossível ficar impassível.

Fazer rock, assim como fazer jornalismo musical, é um exercício de resistência diário. E Deb and The Mentals correm esses 42.195 metros metafóricos com um vigor invejável. E inspirador.