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Pedro Antunes

Dia do rock é tão mundial quanto o vira-lata caramelo

Mais brasileiro do que o vira-lata caramelo? Só o dia mundial do rock - Montagem: Pedro Antunes
Mais brasileiro do que o vira-lata caramelo? Só o dia mundial do rock Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

13/07/2021 16h15

Sem tempo?

  • Todo 13 de julho é a mesma coisa: a internet é tomada por manifestações em prol do rock.
  • São músicas, matérias especiais, posts nas redes sociais e tudo mais, para celebrar um tal Dia Mundial do Rock.
  • Mas você sabia que de mundial essa celebração não tem nada?
  • Sim, o Dia Mundial do Rock é tão brasileiro quanto o vira-lata caramelo.

Dia 13 de julho é conhecido como o Dia Mundial do Rock e você já cruzou com comemorações a este respeito, seja roqueiro ou não.

Particularmente, não gosto de nada que precisa ser "oficializado". Ainda mais em se tratando do gênero musical cuja ideia era ser contra instituições, regras e padrões, certo?

Mas o tal Dia Mundial do Rock existe e é propagado pelos quatro cantos desta internet brasileira em busca algum clique, view e play.

Bandas lançam músicas nesta data (o que não recrimino). Assessores tentam emplacar pautas diferentonas que envolvam o gênero (adorei delas, uma enviada pela plataforma de música Deezer, que convidou uma especialista em vinhos para dizer qual bebida do derivado da uva combinava com as bandas de rock mais ouvidas por lá). Jornalistas (como eu!) pensam em como criar algo novo nessa seara já tão gasta.

Escrevi sobre todas as vezes em que tentaram matar o rock, esse senhor já de idade, e não conseguiram.

E isso me levou à outra questão, que é o fato de que o Dia Mundial do Rock não é mundial coisa nenhuma.

O dia 13 de julho foi escolhido porque, nesta data, no ano de 1985, foi realizado o Live Aid, festival gigantesco transmitido para o mundo todo e criado com o intuito de acabar com a fome na Etiópia.

Foram realizados shows em Londres (Inglaterra) e Filadélfia (EUA) de artistas como Led Zeppelin, The Who, Eric Clapton, Dire Straits, Queen, Paul McCartney, Black Sabbath, BB King, Sting, Phil Collins, U2, David Bowie, entre outros.

Foi neste Live Aid que o Queen conduziu aquela performance grandiosa e celebrada até hoje, por exemplo.

Naquele dia, Phil Collins disse, que a data deveria se tornar o dia mundial do rock, mas ninguém deu muita bola para a ideia.

Nos anos 1990, para mexer com a audiência, as rádios 89 FM e 97FM decidiram criar o tal Dia Mundial do Rock (perceba as letras maiúsculas, para dar importância à data com ironia deste que aqui escreve).

Trinta anos depois, a 89 FM ainda é uma rádio prioritariamente guitarrística, mas a 97FM, que se dizia "A primeira em rock'n'roll", deixou isso para lá ao assumir o nome de Energia 97

Claro, tudo mudou. O rock, como gênero musical, também não é o mesmo. Mas a iniciativa gerou festivais, músicas e pautas até hoje.

Nos Estados Unidos, alguns ainda celebram o gênero em outras datas, como o 9 de fevereiro, quando os Beatles fizeram a primeira apresentação em solo dos Estados Unidos.

No Brasil, a celebração no dia 13 de julho pegou de um jeito curioso. O gênero sempre tão esquecido, ganha um dia para ser celebrado quase que obrigatoriamente, o que perde todo o sentido a partir do histórico do que é rock, não acham?

De qualquer forma, de mundial essa celebração não tem nada. É tão mundial quanto o vira-lata caramelo.