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Pedro Antunes

Sem medo de ser feliz, Metallica quer destruir as memórias do Black Album

Ousadia e alegria! Metallica coloca J Balvin e Miley Cyrus pra cantarem heavy metal - Montagem de Pedro Antunes
Ousadia e alegria! Metallica coloca J Balvin e Miley Cyrus pra cantarem heavy metal Imagem: Montagem de Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

23/06/2021 08h56

Sem tempo?

  • O Metallica está pronto para sacanear o seu fã reaça que não gosta de mudanças.
  • É isso, mesmo. A banda vai lançar uma versão nova do disco Black Album com 53 participações.
  • E os artistas responsáveis por estas novas versões de clássicos como Enter Sandman e Nothing Else Matters estão completamente fora do escopo do rock.
  • De Miley Cyrus a Elton John. De Juanes a J Balvin.
  • A genialidade da coisa toda é que o grupo dá um golpe no conservadorismo musical mais uma vez, já que o Black Album também foi transgressor na época.
  • E, cá entre nós, quanto mais fora da caixinha, melhor.

O ano era 1991 e, se você nasceu na primeira metade dos anos 80, sabe que Nirvana ainda não bombava entre a molecadinha brasileira, apesar de o álbum "Nevermind" ter sido um estouro nos Estados Unidos naquele ano.

Por aqui, a turma roqueirinha vivia o início da adolescência entre debates acalorados sobre as duas principais forças gravitacionais do gênero que também lançaram discos em 1991 e que reverberaram mais por aqui: o "Metallica" (trabalho também chamado de "Black Album" pela capa em preto e simples), e "Blood Sugar Sex Magic!" (do Red Hot Chili Peppers).

As coisas poderiam ficar intensas no debate entre as facções, inclusive.

O "Black Album" é assombrosamente importante para a história da música com guitarra e foi responsável por catapultar uma banda peso-pesada para as rádios e para as massas de uma forma que nenhum outro disco ou grupo conseguiu.

A popularidade do disco do Metallica, mais melódico e menos barulhento, foi tão grande que fomentou o surgimento de uma leva fervorosa de fãs descolada do passado thrash metal, sujo e pesadão do grupo que criou hinos como "Master of Puppets", "Creeping Death", "Seek and Destroy", "For Whom The Bell Tolls".

Essa turma nova não sabia que o melhor baixista do Metallica fora Cliff Burton, promissor músico que morreu tragicamente em um acidente em 1986, por exemplo. Um absurdo, diziam os fãs radicais.

Dificílimo de ser finalizado, o álbum custou US$ 1 milhão e três casamentos (Lars Ulrich, Kirk Hammett e Jason Newsted terminaram seus relacionamentos na época).

Mas estreou no topo das paradas em dez países e ficou quatro semanas consecutivas como líder de vendas dos Estados Unidos. Estima-se que o disco tenha vendido mais de 16 milhões de cópias.

E justamente por isso, por estourar bolhas, por sair da caixinha e extrapolar limites conhecidos do rock pesado, que o "Black Album" foi histórico.

Trinta anos se passaram e o Metallica é uma dessas instituições que habitam o Olimpo da música. Inclusive, eles vêm frequentemente ao Brasil e têm uma conexão fortíssima com o público daqui que acompanha a banda desde a turnê de 1989 que passou por São Paulo e Rio de Janeiro.

Para a comemoração de três décadas de existência do álbum Black Album, o Metallica vai provocar aquele fã que gosta das coisas como elas estão e, a qualquer sinal de mudança, corre mais do que o Cascão da chuva.

É alegria e ousadia que fala?

O grupo anunciou dois projetos a serem lançados no mesmo dia 10 de setembro: "The Black Album (Remastered)" e o "The Metallica Blacklist".

O primeiro é, obviamente, uma versão remasterizada do disco trintão. O outro, meus amigos, é um deleite para quem ama ver a raiva dos haters e conservadores no geral.

O álbum que ensinou pra muita gente o que é heavy metal (de um jeito bem soft, aliás), agora vai ser revisitado por gente que não tem nada a ver com a turma que usa bandanas e jaquetas de couro.

De Miley Cyrus a J Balvin, mais de 53 artistas vão regravar hinos como "Enter Sandman", "Nothing Else Matters" e "Sad But True".

Elencados para participar deste projeto estão gente da estirpe de Elton John e Yo-Yo Ma, o jazzísta moderno Kamasi Washington, as rainhas indie Phoebe Bridgers e St. Vincent, a viciante Rina Sawayama, o interessante Moses Sumney e uma das minhas bandas favoritas, o Idles.

Duas músicas já foram lançadas. O colombiano Juanes regravou "Enter Sandman", em uma versão sem sal parecida demais com a original.

A ousada Miley Cyrus se juntou a Elton John, Yo-Yo Ma, Robert Trujillo (atual baixista do Metallica), Chad Smith (baterista do Red Hot Chili Peppers) e WATT numa reedição de "Nothing Else Matters".

Nenhuma das duas são tão revolucionárias quanto poderíamos esperar, mas a impressão é que o Metallica está guardando as mudanças mais radicais para serem lançadas no futuro.

Só "Enter Sandman" terá seis versões diferentes neste "The Metallica Blacklist".

Soa como uma provocação aliada a uma boa estratégia comercial.

O Metallica quer destruir suas memórias com as músicas do "Black Album" para os fãs que não sabem lidar com o novo. E que vão reclamar na internet sobre isso (a web, afinal, parece existir pra gente colocar essas frustrações pra fora).

A genialidade da história toda é que, ao se juntar com nomes gigantescos das paradas e de outros gêneros, a banda rompe com o seu passado como fez na época em que lançou o próprio "Black Album". Sacou?

Ao romperem com o passado, o Metallica dá um golpe no conservadorismo musical.

Lembra no início do texto, quando escrevi que o Black Album trouxe uma leva nova de fãs para o Metallica que não necessariamente conhecia os primeiros discos, mas amava cantar "Enter Sandman" porque a ouvia na rádio?

É a mesma coisa que está acontecendo agora.

A banda se aproxima de um público que nunca foi dela, de gente que é fã de Juanes ou de Portugal. The Man, justamente com seu álbum mais palatável e popular. Se a ideia é apresentar o Metallica o para uma nova geração curiosa, o "Black Album" é a melhor escolha. Já deu certo uma vez.

Apesar de amar o solo de baixo distorcidão de "Anesthesia (Pulling Teeth)", eu sei que isso não vai angariar novos seguidores pra James Hetfield e companhia.

Sem medo de ser feliz

Em 1991, houve quem olhasse com desdém para a chegada dessa turma que não sabia cantar "Master of Puppets" nova à "família Metallica".

Talvez a gente esteja diante de um movimento similar, trinta anos depois. Porque essas pessoas que não gostam de mudança sempre vão existir.

E essa gente pode seguir na mesma discussão de trinta anos atrás (de qual é o melhor, se é o "Black Album" e o "Blood Sugar Sex Magic!"). Aliás, todo o debate ficou vazio porque, anos depois, descobrimos que o mais revolucionário álbum lançado naquele ano, em termos de estética e de criação de uma nova onda, foi "Nevermind", do Nirvana, não é mesmo?

Para os fãs de "Master Of Puppets", o álbum sempre estará lá. Para a turma da geração de 1991, o "Black Album" segue imutável. O tempo não substitui nada, só soma.

Estou, mesmo, ansioso para ouvir a visão de J Balvin, ícone do reggaeton, para "Wherever I May Roam", e do Weezer para "Enter Sandman".

São 40 anos de Metallica, comemorados também em 2021. E, mesmo com tanto tempo de estrada, o Metallica propõe o novo. De novo. Que seja um exemplo para outras instituições conservadoras gênero, inclusive.

E quanto mais fora da caixinha, melhor.