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Pedro Antunes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marisa Monte é o amigo que sempre pede uma dose. Neste caso, de otimismo

Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

11/06/2021 11h45

Sem tempo

  • Marisa Monte esta de volta!
  • São dez anos desde que a artista lançou um álbum com músicas inéditas.
  • Neste meio tempo, ela reviveu o trio Tribalistas (com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes) e lançou uma coletânea de lados B
  • Em 1º de julho, ela lança Portas
  • Para começar, ela oferece uma dose de otimismo com o single Calma, lançado ontem a noite
  • E aí, você topa?

O nome dele é Raul Garcia, mas todos no boteco o chamam pelo sobrenome e só.

"E aí, Garcia, tudo bem por aí?"

Ele respondia sempre com um sorrisão no rosto e enquanto buscava, com os olhos, um lugar para acomodar nosso traseiro cansado de tanto ser chutado pelo chefe ao longo da semana. Garcia era nosso companheiro quando, às sextas-feiras, sentíamos a vontade de tomar algumas cervejas no bar e postar uma foto com a hashtag #sextou. Coisas de outra época, né?

Vez ou outra, um amigo mais emocionado pedia por uma dose de cachaça. Às vezes, aquela atitude até parecia uma boa ideia, lembra? Você inclusive entrava na onda.

"Alô, Garcia, me dê uma dose também dessa branquinha?"

Na maioria das vezes, sentimos o peso daquela decisão na dor de cabeça que nos atropela nas manhãs de sábados pós-happy-hour da firma. Não é uma regra, é claro, mas é constante.

Marisa Monte, que ontem soltou o single "Calma", é esse colega/amigo que pede uma dose no bar. Otimista, essa pessoa acha que o dia seguinte não terá ressaca, boca seca e queimação no estômago.

Otimista, também, é Marisa por pedir "calma" em tempos de caos.

Como ter serenidade quando um presidente como Bolsonaro aconselha pessoas a pararem de usar máscara por já estarem vacinadas. Como lidar com Copa América sendo realizada no Brasil? É tanto 7 a 1 no dia a dia do brasileiro que me pergunto: como ter calma?

Se "Calma" não foi composta com uma intenção político-social, atesto já um erro de planejamento. Atualmente, tudo invariavelmente se torna política ou político, até mesmo o desejo da isenção (alô, Juliana Paes!).

Portanto, a partir do prisma do que é vivido pela população brasileira diariamente (relatado acima), "Calma" é um chamado para uma nova perspectiva de mundo, uma sugestão de, aos poucos, se provocar a enxergar o copo meio cheio também.

Mais do que otimismo, há outra palavrinha necessária, embora pareça ter sido esquecida pela língua portuguesa recentemente: esperança. Precisamos dela.

Por isso, "Calma" é tão revigorante.

A letra (disponível abaixo) é uma composição de Marisa com Chico Brown, músico de 24 anos, neto de Chico Buarque e filho de Carlinhos Brown, parceiro de Tribalistas de Marisa.

Toda a música soa como um soul brasileiro, tipo aqueles que o Roberto Carlos curtia fazer nos anos 1970 e que ele poderia fazer se ainda quisesse lançar canções com alguma frequência.

Os sopros dão drama, quentura e cor à música. E a voz de Marisa soa suingada, mas sem exageros. Ainda é uma canção tipicamente da artista, que não extrapola decibéis nem tenta forçar a entrada no cérebro do ouvinte. Ela o faz com uma mansidão que é única na música popular tupiniquim.

Uma delicinha, "Calma" também marca o início do processo que desaguará no álbum "Portas", o primeiro disco completo de músicas inéditas de Marisa Monte em 10 anos. Co-produzido por Arto Lindsay (com quem Marisa gravou os álbuns "Mais", "Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão" e "Memórias, Crônicas e Declarações de Amor"), o álbum chega às plataformas em 1º de julho, pelo selo da artista Phonomotor e distribuído pela Sony Music.

"De uma hora pra outra, a gente não podia mais sair e o mundo ficou perigoso. O primeiro momento foi de paralisia total. Todo mundo em casa, isolado, triste e com muito medo. Música é uma forma de arte coletiva feita de encontros e fomos atingidos em cheio. Passaram-se vários meses até que a gente conseguisse entender melhor a nova realidade, cheia de protocolos, cuidados, testes e máscaras. Durante todo esse tempo, todo mundo continuava em casa abatido e cansado.Foi quando um amigo meu me disse: ´se organiza com toda a segurança possível com uma equipe enxuta e comprometida, entra no estúdio e grava. Eu tenho certeza que vai ser bom pra vocês e vai fazer bem pra todos nós. Música é remédio. Foi aí que a gente abriu as portas e reencontrou nosso caminho."
Marisa Monte, em comunicado enviado à imprensa.

Uma década que passou rápido demais desde "O Que Você Quer Saber de Verdade" (2011). Para Marisa, ainda vieram trabalhos como "Coleção", uma coletânea com lados B de Marisa, e o gigantesco "Tribalistas", álbum que marcou o retorno do trio formado por Marisa, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.

Neste meio tempo, o que aconteceu com o Brasil? Bom, aí é outra história.

Com uma música "copo meio cheio", Marisa Monte diz já estar de olho no futuro. E, aparentemente, as coisas vão melhorar, ok?

"Alô, Garcia, me dê uma dose desse otimismo de Marisa Monte, por favor?"

CALMA

(Marisa Monte/Chico Brown)

Calma
Que eu já tô pensando no futuro
Que eu já tô driblando a madrugada
Não é tudo isso, é quase nada
Tempestade em copo d'água

Eu não tenho medo do escuro
Sei que logo vem a alvorada
Deixa a luz do sol bater na estrada
Ilumina o asfalto negro
Ilumina o asfalto negro

Não faz assim
Não diga que não gosta de mim
Não diga que não vai me notar
No pé do bar em qualquer lugar
Não venha me dizer que não dá
Não quero ver você se perder
Não diga que não vai me mudar
Não diga que é difícil demais

Calma
Que eu já tô pensando no futuro
Que eu já tô driblando a madrugada
Não é tudo isso, é quase nada
Tempestade em copo d'água

Eu não tenho medo do escuro
Sei que logo vem a alvorada
Deixa a luz do sol bater na estrada

Ilumina o asfalto negro
Ilumina o asfalto negro


Não faz assim
Não diga que não gosta de mim
Não diga que não vai me notar
No pé do bar em qualquer lugar
Não venha me dizer que não deu
Não diga que não vai me esquecer
Não diga que não sabe explicar
Eu juro que não dá pra entender

Calma
Calma
Calma

Ilumina o asfalto negro
Ilumina o asfalto negro

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL