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Pedro Antunes

Luísa Sonza adia álbum e prova que o ódio está vencendo. Até quando?

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

07/06/2021 07h41

Sem tempo?

  • Houve um tempo em que a internet era legal e as redes sociais eram um lugar de memes e piadas entre amigos, lembra?
  • Também foi berço de artistas extremamente populares, que viralizaram digitalmente antes de levarem multidões para estádios. Tipo Justin Bieber.
  • Mas o mais recente ataque à Luísa Sonza mostra que se existiu um limite para o uso saudável das redes, ele foi ultrapassado faz tempo.
  • Ameaçada mais uma vez, a cantora paralisou o lançamento de um novo álbum para cuidar da saúde mental.
  • Quantas pessoas mais precisam ser atacadas para a gente rever o comportamento na web?
  • O ódio está aí e precisamos falar sobre ele antes que seja tarde demais.

Chorando, Luísa Sonza anunciava que deixaria as redes sociais para lidar com os ataques sofridos recentemente. E, com isso, a carreira musical entraria em transe também.

As imagens ganharam até reportagem no Fantástico, da TV Globo, na noite de ontem (domingo, dia 6).

O novo álbum, que ela trabalhava há tempos e vinha sendo aquecido com singles extremamente populares, foi adiado por tempo indeterminado, também. Pense nisso: todo tipo de planejamento e dedicação colocado no projeto desmoronou de repente.

E o porquê disso tudo?

Rancor. Cólera. Ira. Nada foi culpa dela.

Não é um ódio qualquer, fictício ou aquela uma raivinha diária que não leva a nada. É um sentimento perigoso, mesmo. Ameaçador. Avassalador. Paralisador. O hate não é piada e não deveria ser tratado desta forma.

A nova onda veio depois da morte prematura do filho de Whindersson Nunes (ex de Sonza) com Maria Lina, mas está longe de ser a primeira vez que algo que aconteceu com o comediante se transforma em ódio contra Luísa.

Uma das artistas mais bem-sucedidas do País, Sonza trata desde 2020 de uma depressão. A toxicidade da web é responsável direta por isso.

Lembra do BBB 21, quando as torcidas de Juliette Freire (a vencedora) e de Gil do Vigor (outro queridinho do público) colidiram uma contra a outra em violências cada vez maiores? Multiplique isso por 290 para entender o que se passa com Sonza.

A internet já foi um lugar legal. Mudou a música para sempre, na forma de consumi-la e em como os fãs se viram "próximos" de seus artistas favoritos como jamais havia acontecido.

E, por conta disso, a conectividade também transformou o que a gente conhecia como jornalismo musical em vários níveis.

Esta mesma web, que criou fenômenos populares e virais, cobra um preço caro demais. Luísa Sonza é uma dessas novas estrelas que brotaram no ambiente virtual para ganhar o topo das paradas. Tem vozeirão e sabe fazer música pop.

Demasiadamente tóxicas, as redes sociais há tempos pararam de ser um lugar só de memes, piada e discussões políticas. Virou lugar para investigações policiais e criadouros de questões seríssimas ligadas à saúde mental.

O adiamento do álbum de Sonza, a paralisação da carreira de uma artista obrigada a se preservar e cuidar de si por algo que ela não fez mostra que, se existiu um limite para o uso saudável das redes, a humanidade passou disso faz tempo sem perceber.

Chegou a hora da gente rever comportamentos, parar de normalizar ataques, achar graça de haters e de minimizar a dor alheia.

Por enquanto, o ódio está vencendo.