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Pedro Antunes

Cria do gueto, IZA reverte realidades de plástico da música pop

Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

04/06/2021 12h02

Sem tempo?

  • Em um ambiente da música pop tão plastificada, IZA canta a sua própria jornada.
  • Trata-se do single Gueto, lançado nesta sexta-feira (4)
  • IZA canta a infância com partidas de futebol, assume-se cria da Zona Norte do Rio de Janeiro e trata de suas raízes aqui.
  • Em um País que empurra meninas negras para baixo, IZA surge como luz e inspiração.

Existe aquela história que, na música pop, as realidades são de plástico. Coisa dos novos tempos, das músicas feitas com várias mãos e sob encomenda.

IZA, gigante da indústria, reverte isso com "Gueto", single que antecipa o novo álbum. (Trabalho este ainda não finalizado, como ela contou a Zeca Camargo e Guilherme Lucio da Rocha em uma saborosa entrevista ao UOL Splash).

Assista ao clipe de "Gueto":

Mesmo composta por várias mãos (assinada por Pablo Bispo, Ruxell, Sérgio Santos e pela própria artista), "Gueto" é um relato que parece ficção, tamanho o conto de fadas que ela representa, mas é autobiográfico.

"Cria do gueto", como canta na música, IZA possui a história mais iluminada da música pop atual. Foi descoberta pela gravadora Warner Music, lançou o primeiro single em 2016 e, no ano seguinte, já era fenômeno com a sequência de singles "Pesadão" e "Guinga".

Hoje a música pop brasileira tem três vozes femininas como pilares. Anitta, Ludmilla, ambas com um passado do funk, e IZA.

Mas "Gueto" é uma prova que a artista não esquece as raízes, também não glamoriza demais de onde veio - como o clipe mostra bem, inclusive.

Se "Dona de Mim" tinha um discurso aberto às interpretações, "Gueto" é a história de uma jovem estudante de comunicação que não desistiu do sonho de ser cantora.

Política ao tratar da própria jornada, IZA canta a infância com partidas de futebol, assume-se cria da Zona Norte do Rio de Janeiro e trata de suas raízes e da ancestralidade quando diz "debaixo da sua trança / tem história pra contar".

Amparada por uma "estética IZA" - os ganchos (ou hooks) em ascensão seguidos de drops carregados de grave - a artista se agiganta. É um terreno sadio que ela conhece bem demais. Solta seu vozeirão quando pode. E vai na mosca.

Quando um Brasil tão racista e machista costumeiramente empurra meninas negras para baixo, IZA surge como um baluarte de resistência. É luz e inspiração, também.

Leia a letra completa de "Gueto"

Olha quem chegou
É fogo na babilônia
Trajada de amor
Só pra te causar insônia
O som que despertou
De olaria até a Colômbia
Eu sei pra onde eu vou
Eu vou

Sim, sim, sim, sim
Sei o que tá reservado pra mim
Bling Bling Bling Bling
Grifes no meu camarim, yeah
Sim, sim, sim, sim
Mais um contrato pra mim
Bling Bling Bling Bling
Mama, eu tô no Plim Plim, yeah

Andando pelas ruas
Ela sabe aonde vai dar, aiá
Debaixo da sua trança
Tem história pra contar, aiá

Fecha a rua lá no gueto, gueto
Vai ter samba lá no gueto, gueto
Joga bola lá no gueto, gueto
Ela é cria lá do gueto, gueto

Vish, ela é fyah

Asfalto e praia
Desce a ladeira
É porta-bandeira
Mais tarde tem baile na quadra
Vish ela é fyah
Sobe a fumaça
Então brota na base
Tem festa na laje
Com grave batendo na caixa
Sim, sim, sim, sim
Sei o que tá reservado pra mim
Bling Bling Bling Bling
Grifes no meu camarim, yeah
Sim, sim, sim, sim
Mais um contrato pra mim
Bling Bling Bling Bling
Mama, eu tô no Plim Plim, yeah

Andando pelas ruas
Ela sabe aonde vai dar, aiá
Debaixo da sua trança
Tem história pra contar, aiá
Fecha a rua lá no gueto, gueto
Vai ter samba lá no gueto, gueto
Joga bola lá no gueto, gueto
Ela é cria lá do gueto, gueto

Então olha pro alto onde a gente chegou
Eu sou da Zona Norte, Rio de Janeiro
Então olha pro alto onde a gente chegou
E eu não vou parar

Fecha a rua lá no gueto, gueto
Vai ter samba lá no gueto, gueto
Joga bola lá no gueto, gueto
Ela é cria lá do gueto, gueto

Abre a porta para o gueto, gueto
Brota ouro lá no gueto, gueto
Ninguém cala a voz do gueto, gueto
Ela é cria lá do gueto, gueto