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Pedro Antunes

50 anos do disco que desbancou os Beatles - e por que você deveria ouvi-lo

Capa de What"s Going On, de Marvin Gaye  - Reprodução
Capa de What's Going On, de Marvin Gaye Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

21/05/2021 12h29

Sem tempo?

  • Hoje o álbum What?s Going On, de Marvin Gaye, completa 50 anos.
  • E este é o disco que ficou no centro de uma polêmica por ser escolhido como o melhor de todos os tempos pela Rolling Stone dos Estados Unidos.
  • Acontece que em 2003, quando a primeira lista foi criada, o topo era ocupado pelos Beatles. Na versão de 2020, a liderança ficou com Gaye.
  • Aqui dou 5 motivos para entender os motivos que fizeram de What's Going On liderar a lista de melhores de todos os tempos.

E não fui eu a destituir os Beatles, antes que o ódio comece. Foi a Rolling Stone dos Estados Unidos que, em 2020, refez a famosa lista de 500 melhores álbuns de todos os tempos criada 17 anos atrás e destronou Paul, George, John e Ringo do topo.

Em vez de trazer o clássico "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" no lugar mais alto da lista, a primeira colocação foi destinada a "What's Going On", trabalho de Marvin Gaye, outra lindeza de disco, que havia aparecido na 6ª posição na edição anterior da RS.

Já os Beatles, que tinham quatro álbuns entre os dez primeiros colocados na lista de 500 melhores álbuns da história - "The Beatles" (Álbum Branco), em 10º; "Rubber Soul", em 5º; em 3º, o "Revolver"; além da primeira colocação para "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" - foram relegados. Tiveram "somente" um disco no top 10.

Vamos comparar?

Top 10 de melhores álbuns de todos os tempos da RS EUA de 2003:

  • 10º) Beatles, "The Beatles" (Álbum Branco)
  • 9º) Bob Dylan, "Blonde on Blonde"
  • 8º) The Clash, "London Calling"
  • 7º) Rolling Stones, "Exile on Main Street"
  • 6º) Marvin Gaye, "Whats Going On"
  • 5º) Beatles, "Rubber Soul"
  • 4º) Bob Dylan, "Highway 61 Revisited"
  • 3º) Beatles, "Revolver"
  • 2º) Beach Boys, "Pet Sounds"
  • 1º) Beatles, "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"

Top 10 de melhores álbuns de todos os tempos da RS EUA de 2020:

  • 10º) Lauryn Hill, "The Miseducation of Lauryn Hill"
  • 9º) Bob Dylan, "Blood on the Tracks"
  • 8º) Prince and the Revolution, "Purple Rain"
  • 7º) Fleetwood Mac, "Rumours"
  • 6º) Nirvana, "Nevermind"
  • 5º) Beatles, "Abbey Road"
  • 4º) Stevie Wonder, "Songs in the Key of Life"
  • 3º) Joni Mitchell, "Blue"
  • 2º) The Beach Boys, "Pet Sounds"
  • 1º) Marvin Gaye, "What's Going On"

Com a nova lista, a Rolling Stone EUA criou uma baita discussão. E mudou o status quo dos álbuns em questão e também da eternidade das listas de melhores de todos os tempos. Afinal, nada mais é sólido, escrito em pedra. Tudo é líquido e se transforma de acordo com o movimento que vivemos, certo?

Ou você ouve o mesmo álbum, dia e noite, no verão e no inverno, apaixonado e logo após levar um chute no traseiro?

Em um dos primeiros textos desta coluna, falei sobre o caso. Gerou também um bafafá porque concordava com a nova lista. E no dia em que "What's Going On" comemora 50 anos de existência (o 11º disco de Gaye saiu em 21 de maio de 1971), digo que ainda concordo.

Isso não significa menosprezo aos artistas que estavam na primeira lista e que, agora, caíram algumas posições.

Acho os Beatles fenomenais. Tenho um disco favorito deles por mês (agora, em maio, é "Abbey Road"). Também devoro cada palavra de Bob Dylan, ainda piro na melancolia solar dos Beach Boys e toda vez que penso em Londres, lembro-me de ouvir "London Calling" em uma viagem que fiz para lá, a primeira sozinho, com os salários economizados da época em que era um repórter de esportes e corria atrás de respostas além do básico dos boleiros.

Todos têm um lugar aconchegante no meu coração. E sempre terão.

Mas "What's Going On" me faz arrepiar atualmente. Pela precisão dos versos de Gaye, dono de uma voz que, se eu fosse cristão, diria ser assim que cantam os anjos. A temática é afiada, desesperadamente atual. "O que está acontecendo?", clamava o músico. "O que está acontecendo?", a gente se pergunta todos os dias quando abrimos a home do UOL e nos deparamos, por exemplo, com a notícia de que o Brasil recusou 10 e-mails da Pfizer por vacinas contra a Covid-19.

Aqui vão 5 motivos para ouvir, entender e apreciar o novo cinquentão do pedaço. E você pode fazê-lo sem necessariamente colocá-lo no primeiro lugar da sua lista pessoal, ok?

1) Luta contra a depressão

O fim dos anos 60 e início da década seguinte foram particularmente pesados para Gaye.

Ele perdera a parceira de duetos Tammi Terrell para um câncer no cérebro, descoberto três meses antes da morte dela em 1970. Deprimido, afundou-se no vício de cocaína. Abusiva do álcool e tinha problemas no relacionamento com Anna Gordy (casamento que chegou ao fim em 1973, embora o divórcio só tenha sido oficializado dois anos depois).

Gaye tentou tirar a própria vida com uma arma, inclusive.

O artista sentia que não era merecedor do sucesso que tinha até então, conseguido principalmente por "I Heard It Through the Grapevine", primeira música dele a estar no topo da parada geral dos Estados Unidos.

Ele se sentia uma marionete de Anna Gordy, sua esposa, e de Berry Gordy, sogro dele e também dono da gravadora Motown.

"Em 1969 ou 1970, eu comecei a reavaliar todo o conceito do que queria que a minha música passasse para as pessoas. Eu estava muito influenciado pelas cartas enviadas pelo meu irmão do Vietnã, assim como pela situação social dos Estados Unidos",
Marvin Gaye, à Rolling Stone

Gaye não recusava a vida de popstar que tinha, mas dinheiro, drogas e mulheres não acalmavam os anseios e sociais artísticos dele.

Assim nascia "What's Going On".

2) Luta para conseguir lançar o álbum

Gaye não teve vida fácil para lançar a música que deu nome ao álbum. Na Motown, tinha independência o artista que tinha dado dinheiro o suficiente para a companhia com outros discos. E, apesar de famoso, Gaye não havia conquistado este status naquela época.

A preocupação de Berry Gordy era que Gaye dividiria seu público. Foi o que sentiu ao ouvir o single que trazia para o centro da narrativa um caso de violência policial contra negros em Berkeley, bairro localizado na zona oeste de San Francisco, de levada funk suave e arranjos criados sobre uma base de acordes menores e melancólicos.

Músicas políticas tinham criado o próprio espaço no universo pop graças a "A Change Is Goona Come", canção poderosa na qual Sam Cooke cantava sobre direitos dos negros nos Estados Unidos.

Na visão de Gordy, o artista perderia a numerosa parcela branca da sua base de fãs caso lançasse aquela canção criada por Al Cleveland, Renaldo Benson e Gaye (que também a produziu).

O músico ficou fulo da vida. Para ele, era aquele o melhor momento para cantar "What's Going On" e prometeu entrar em greve caso a negativa seguisse. Não lançaria mais nada até ver a prensagem de "What's Going On" como single.

Isso aconteceu, mas sem o conhecimento de Gordy. Por baixo dos panos, foram fabricadas 100 mil cópias do single, que se tornaram insuficientes ainda na primeira semana de lançamento.

Ao todo, o single vendeu 2 milhões de cópias e se tornou, até aquele momento, a segunda música mais bem-sucedida de Gaye lançada pela Motown.

Gordy, enfim, concordou com "What's Going On", nos termos de Gaye e deu-lhe a possibilidade de trabalhar com os melhores músicos disponíveis no elenco da Motown. Em uma semana, o álbum estava pronto.

3) Bastante contemporâneo

A comparação de "What's Going On" com as tensões raciais nos Estados Unidos em 2020 são claras. O gatilho para o álbum foi justamente uma ação de violência exagerada de um policial contra protestantes pacifistas antiguerra em 15 de maio de 1969 testemunhada por Renaldo Benson (da banda Four Tops), em Berkeley, na Califórnia, em um dia que ficou conhecido como "Quinta-feira Sangrenta".

O senso de urgência em tratar aquelas temáticas fez Gaye colocar as "próprias fantasias para trás", segundo ele contou à Rolling Stone EUA, para ser capaz de "mexer com a alma das pessoas". "Eu queria que as pessoas olhassem para o que estava acontecendo no mundo".

Além das tensões raciais nos EUA, a inútil Guerra do Vietnã também fervia os sentimentos estadunidenses.

Bastante conceitual, o álbum parte de uma narrativa de um negro que voltou do Vietnã como veterano de guerra e testemunha o estado das coisas na época: injustiça, ódio, desigualdade.

Aqui, Gaye escreve sobre pobreza, sobre abuso de drogas e também apresenta a preocupação com questões ecológicas, também.

Ou seja, o que Gaye escreveu está a anos-luz de distância de ser resolvido mesmo 50 anos depois.

Um disco desses merece ser ouvido. Dia sim, dia sim.

4) "Nós podemos mexer com as fundações do mundo"

O tópico acima se inspira no verso de "Wholy Holy" (o original é "We can rock the world's foundation").

Por mais tenso e melancólico que seja "What's Going On" e fosse aquele momento dos Estados Unidos, o novo cinquentão do pedaço é uma obra-prima por não se basear em um sentimento apenas. O desconforto com a crise estadunidense na época foi a pólvora, mas o que se ouve ali, até nos momentos mais tensos e políticos, é uma mensagem de amor.

Enquanto retrata a vida do jovem negro na época, Gaye leva luz a uma realidade que era minimizada e apagada. Dar voz àqueles que queriam que fossem calados é uma das forças dos versos do artista. Mais do que cantar a dor, Gaye cantava a união. O desejo por mudança. O anseio por um mundo melhor.

Não é o mais otimista dos álbuns, mas a delicadeza com que Gaye e banda pincelam as mazelas da época cria um quadro com algumas cores otimistas na tela. É como se dissesse: está ruim, mas podemos mudar isso se nos unirmos.

5) Até os britânicos concordam com o topo para Gaye

O quinto tópico é uma curiosidade. Em 1985, a revista britânica NME elegeu "What's Going On" o melhor álbum de todos os tempos. Sete anos mais tarde, foi a vez do jornal The Guardian repetir a escolha.

Sim, duas publicações inglesas, terra de Beatles e Rolling Stones, ambos relegados na segunda versão da lista de 500 melhores da estadunidense Rolling Stone, concordam que "What's Going On" deveria estar no topo.

Três listas criadas nas décadas de 80, 90 e 2020 mostram o eterno rejuvenescimento da arte de Gaye.

Político, psicodélico, delirante, melancólico e até otimista. Uma obra-prima que toca a alma.

E, dois anos depois de cantar sobre política, Gaye criou outro clássico, desta vez destinado aos amantes: "Let's Get It On". Afinal, amar é um ato político.